Cultura para ocupar, resistir e produzir

Na Argentina, junto com a ocupação de fábricas, vem ocorrendo um fenômeno interessante: dentro delas passaram a funcionar centros culturais. Fomos conhecer um deles, que funciona dentro da IMPAO portão principal está sempre aberto. Logo na entrada, um grande mural informa: “Hoje, exibição de filmes. Inscrições para oficinas de Artes Plásticas e Teatro. Exposição de Pintura”. Alguns passos adiante, a escuridão dos enormes salões, quebrada por fios de luz que entram por esta ou aquela janela, obriga a fechar o foco; estão abarrotados de máquinas. Os operários com macacões azuis empurrando de um lado para outro carrinhos cheios de sucata e peças diversas.

Mas onde estão o cinema, o teatro, as pinturas e as esculturas? Foram engolidos pelas máquinas? Engolidos não, se misturaram a elas. Esta é a IMPA, fábrica metalúrgica que foi recuperada pelos operários, e há seis anos funciona como uma cooperativa. Desde então, elas não produzem apenas peças de alumínio para os mais variados usos; produz também peças de teatro, obras cinematográficas, espetáculos circenses, objetos de artes plásticas e uma infinidade de atividades culturais.

Trapézios e ferramentas

Em cada um dos quatro andares do enorme prédio da IMPA, pode-se encontrar também pequenos, mas bem arranjados, palcos em forma de arena para apresentações teatrais. Um grande salão, bem iluminado, de cujo teto pendem trapézios e cordas para a prática circense. Aqui e ali, confundindo-se com as máquinas e as empilhadeiras, espaços com exposições de pintura; apesar das paredes sujas de graxa e dos vidros quebrados das janelas, as obras estão devidamente iluminadas por pequenos focos, como se faz em qualquer galeria de arte.

Forçando um pouco a vista pode-se descobrir, mais adiante, uma enorme porta de madeira, com uma placa: Sala de Cinema Popular. Mais à frente, depara-se com uma sala enorme, repleta de mesas recobertas por uma infinidade de pincéis de todo tipo, latas de tinta, pedaços de pano, vidro e papel. É o ateliê de artes plásticas. Qualquer pessoa pode freqüentar as aulas, pagando uma quota mensal de 20 ou 30 pesos (uma escola de arte barata na Argentina custa em torno de 150 pesos por mês). Desse dinheiro, 30% ficam para as despesas do ateliê e 70% para o professor. Os alunos tanto podem ser trabalhadores da IMPA, de outras fábricas da região ou moradores do bairro.

Oficinas abertas

Sérgio Sagiryan, coordenador dos espaços do Centro Cultural da IMPA, vai explicando. Para a cultura, existem áreas fixas: teatro, dança e circo, apresentação de espetáculos, infra-estrutura. E mais uma infinidade de atividades.

Cada área tem um responsável, que em geral são artistas ou estudantes de arte. Os espaços são abertos. Não há restrição para a participação.

A política cultural é decidida em assembléia, com a participação de todos os envolvidos no trabalho. O Centro não faz parte da cooperativa da fábrica, é apenas uma atividade que se desenvolve lá dentro, no mesmo espaço. As atividades culturais são uma forma de apoiar e divulgar a luta dos trabalhadores da IMPA e também apoiar e divulgar todo o movimento de recuperação de fábricas que vem se desenvolvendo na Argentina nos últimos anos.

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