CSP-Conlutas: o sindicalismo que não se rendeu

 Sebastião Carlos, Cacau, da Secretaria Executiva da CSP-Conlutas

O PT e a Central Única dos Trabalhadores foram, em sua origem, conquistas das lutas dos trabalhadores e da juventude que levaram à derrocada da ditadura militar no Brasil. Lula foi a grande expressão desse momento histórico.
Fundada em 1983, a CUT se tornou uma das maiores centrais sindicais do mundo. Mas, pela política de sua direção burocrática, ainda nos seus primeiros anos, começou a trilhar um caminho diverso daquele que foi definido em sua fundação. De uma central democrática, classista e de luta, a CUT começou a se adaptar às pressões institucionais. Abandonou o sindicalismo de confronto e resistência e girou para um sindicalismo de conciliação, travestido do pomposo nome de “sindicalismo propositivo” ou “cidadão”.
O III Congresso Nacional da CUT, realizado em 1988, foi o último grande congresso da central e marcou uma mudança de rumos importante. O congresso foi polarizado pelo debate das mudanças estatutárias, mas, na realidade havia uma tentativa de transformação da CUT numa central com perfil conciliador.
A direção da CUT deu um salto nesse rumo, apoiando as Câmaras Setoriais e o “acordo das montadoras” do ABC paulista, que resultou em milhares de demissões de trabalhadores. Começou a depender de verbas do Estado, como o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e participou do “entendimento nacional” proposto pelo governo Collor.
Em 1995, Vicentinho, então presidente da CUT, aceita a proposta do governo FHC de acabar com a aposentadoria por tempo de serviço, substituindo-a pelo tempo de contribuição.

PT na presidência e a reorganização dos trabalhadores
Em 2003, esse processo de integração deu um salto, com o apoio da direção da CUT à reforma da Previdência. Sindicalistas se integraram ao governo e o governo Lula jogou trabalhador contra trabalhador, acusando os servidores públicos de privilegiados. O PT deu sequência às reformas de FHC na Previdência e atingiu em cheio os servidores públicos.
A luta contra a reforma abriu uma dissidência no interior da CUT. As organizações dos servidores públicos se põem à cabeça. Milhares ocuparam Brasília, mas a reforma passou com os votos do PT e da maioria do Congresso Nacional. Pior ainda. Com o apoio da maioria da direção da CUT.
O governo Lula se sentiu forte e ameaçou com uma nova reforma, nas leis trabalhistas. Frente à tamanha traição da direção da CUT, a Federação Sindical e Democrática dos Metalúrgicos de Minas Gerais fez um chamado para romper com a CUT e discutir uma alternativa.
Em março de 2004, em Luziânia (GO) aconteceu o “Encontro Sindical Nacional” contra as reformas sindical e trabalhista. Surge a Coordenação Nacional de Lutas, embrião do que viria a ser uma nova central sindical no país. Um setor das entidades presentes em Luziânia decidiu se manter na CUT, criando posteriormente a Intersindical. Alguns continuam dentro da CUT até hoje. Já a coordenação de entidades surgida em Luziânia abriu um debate pela desfiliação da CUT nas bases de dezenas de sindicatos, criando um novo campo, classista e combativo.
Em 2006, no Congresso Nacional de Trabalhadores (Conat), realizado em Sumaré (SP), a coordenação deu um passo adiante e se transformou numa nova central sindical, a Conlutas. O congresso tem a participação do movimento popular, juventude e movimentos de luta contra a opressão. A Conlutas nasce com o objetivo de reconstruir a unidade dos trabalhadores na luta.
A democracia interna relembra os primeiros anos da CUT: a representação direta das entidades, sem funil pelos estados. Congressos amplos e bianuais. Proporcionalidade direta na composição das instâncias de direção e revogabilidade dos mandatos. Também os princípios e o programa relembram a fundação da CUT. A defesa da centralidade da ação direta, o classismo, a autonomia frente aos partidos e a independência frente ao Estado burguês e suas instituições. Outra característica é a defesa do socialismo e do internacionalismo proletário. O Congresso realizado em Betim (MG), em 2008, reafirmou esse caminho e relançou o chamado à unidade dos setores combativos.
No movimento estudantil ocorreu um processo parecido, com a cooptação da direção da União Nacional dos Estudantes (UNE) pelo governo. A juventude combativa organizou a Assembleia Nacional de Estudantes – Livre (ANEL). No campo, não é diferente, diante da capitulação da maioria da direção do MST. O que ocasionou a fragmentação do setor em dezenas de pequenos movimentos.
Em Santos, em 2010, a Conlutas realizou, junto com outras entidades, o Congresso da Classe Trabalhadora (Conclat), cujo grande objetivo era a unificação entre a Conlutas com a Intersindical e outros setores. O Congresso, infelizmente, não alcançou seus objetivos. Uma parte das organizações (Intersindical, Unidos Pra Lutar e MAS) não aceitou o resultado das votações das poucas polêmicas que foram a voto e se retirou do Congresso.
Essas diferenças de metodologia e de concepção impediram a unificação, mas a CSP-Conlutas (agora, Central Sindical e Popular), nascida a partir do Conclat, incorporou um importante setor de novas entidades e movimentos. Em 2012 foi realizado em Sumaré (SP) um grande Congresso.
A CSP-Conlutas se firmou em lutas importantes, na greve dos servidores federais, na resistência do Pinheirinho, nas greves operárias das obras do PAC, na lutas das mulheres, negros, LGBTs, entre outras mobilizações.

Novos enfrentamentos com o governo Dilma
A luta contra o Acordo Coletivo Especial (ACE), pela anulação da reforma da Previdência de 2003 e contra a nova reforma previdenciária em curso (o chamado fator 85-95), recoloca novamente a importância da reorganização da classe trabalhadora. Novamente há um conluio entre governo e centrais governistas, inclusive a CUT, para aprovar estes ataques.
A CSP-Conlutas, a corrente “CUT Pode Mais”, a Feraesp (federação de assalariados rurais de São Paulo), a Condsef (confederação dos servidores públicos) e outras entidades, tem buscado construir a unidade na luta contra esses projetos. São organizações que vem se enfrentando com as políticas de privatização, sucateamento dos serviços públicos e retirada de direitos dos trabalhadores. Que lutam contra o favorecimento ao agronegócio e outras políticas implementadas pelo governo Dilma e pelos governos de direita (PSDB e aliados).
No dia 24 de abril, estaremos juntos em Brasília. Desta vez marchando em defesa dos direitos da classe trabalhadora. A Marcha simboliza a resistência de um setor dos trabalhadores contra a maioria das direções. Insistimos em construir um caminho de luta e independente, o caminho dos trabalhadores.

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