Crise: o Brasil no caminho da Argentina

MARIUCHA FONTANA,
da redação

Os analistas da burguesia têm alardeado que o Brasil vive uma “plenitude democrática”, onde haveria uma consolidação e amadurecimento da democracia burguesa. Segundo estes analistas, o país institucionalmente poderia ser comparado às “democracias desenvolvidas” (leia-se imperialistas), onde predominaria a estabilidade e a “ordem democrático burguesa”.
Ademais, quem caísse desavisado no Brasil de 2002 e só visse a propaganda eleitoral na TV dos candidatos mais bem posicionados nas pesquisas, pensaria estar às portas do paraíso.
Essa análise interessada, enviesada, superficial e falsa, entretanto, não resiste a um mínimo de observação objetiva sobre a real situação do país.

RECOLONIZAÇÃO E CRISE

O Brasil vem sendo recolonizado e se transformará num verdadeira colônia se a Alca não for derrotada. O país está praticamente quebrado. Às custas do desemprego, da super-exploração da classe trabalhadora e do roubo de patrimônio público e recursos naturais, as metrópoles imperialistas – suas multinacionais e bancos – estão carreando para fora todos os recursos do país.
As contas não fecham. O governo – com a anuência de 4 candidatos – pegou mais US$ 30 bilhões com o FMI para pagar banqueiros, em troca amarrou o país a um acordo que impõe a continuidade da política econômica atual para os três próximos anos.
Longe de evitar a trajetória de quebra, o novo acordo com o Fundo aprofunda a dependência do país. A rigor, o empréstimo do FMI não evitou nem mesmo o ataque especulativo no curto prazo. Bilhões estão sendo enviados para fora neste mês eleitoral.
A crise do capitalismo é tremenda. O coração do império está em crise e para contrarrestá–la precisa bombear ainda mais recursos da periferia para o centro.
O Brasil está no rumo da Argentina: caminha para uma grave crise, seja quem seja o futuro governo. E o remédio do FMI e de toda a burguesia é tentar evitar ou diminuir a queima de capitais, associando-se ainda mais ao capital estrangeiro (aceitando a Alca no atacado), aumentando as demissões, a super-exploração, a recessão e promovendo um mega corte nos gastos do estado com investimento e serviços públicos, para seguir irrigando a lucratividade dos bancos e do sistema.
O crédito externo está secando, o rombo da dívida pública e o déficit externo são enormes e impagáveis. E mais uma vez, vão querer jogar a crise nas costas do povo, esfolar o país e levá-lo de joelhos para a Alca.
Produto da crise, qualquer que seja o futuro governo, atrelado ao FMI – ao não se propor uma ruptura com o modelo e com o imperialismo – será ainda pior do que o de FHC.

DEMOCRACIA COLONIAL

A tão propalada “democracia” foi manietada na origem. Os candidatos mas votados, antes de se comprometerem com as necessidades e desejos das massas, se comprometeram com o FMI.
O povo quer mudança, o FMI não. Ele aceita qualquer resultado das urnas, desde que qualquer que seja o candidato eleito, aceite cumprir suas metas.
E, como fez na Argentina, exige que a oposição se comprometa a grosso modo com a continuidade.
Esse filme, que vimos na Argentina, está estreando no Brasil. O orçamento de 2003 terá mais cortes do que o de 2002.
As promessas de crescimento econômico e de milhões de empregos marteladas na TV não rimam com o acordo feito com o FMI. Sem romper com a Alca e o FMI, tais promessas vão se revelar como o que realmente são: propaganda enganosa.

LULA X SERRA NA SEGUNDA VOLTA
O desejo de mudança é tão forte, que até o candidato do governo, e da continuidade portanto, tenta posar de oposição.
Preferido da maioria da burguesia e do imperialismo, Serra, entretanto, não consegue se alavancar.
O tucano tem dito que o segundo turno é outra eleição, dando a entender que tudo recomeçaria do zero e que ele teria boas chances de virar o jogo neste segundo tempo.
Mas isso é uma tarefa quase impossível e muito improvável. Primeiro porque mais de 70% do povo está na oposição e, segundo, porque a classe dominante segue dividida.
Uma parcela considerável dos de cima desembarcou na candidatura Lula – com a anuência de um setor do imperialismo.
A contradição é que estas alianças de Lula que vão do PL a Delfim Neto, de Sarney a Quércia, de incursões na Febraban a apoio do presidente da Fiemg, de elogios do chefe do Banco Mundial à benevolência do dono do Itaú, têm como contrapartida a aceitação do acordo com o FMI, das negociações da Alca e compromissos categóricos com o império e o capital. A primeira medida a que já se comprometeu Lula é com a autonomia do Banco Central.
As propostas de Serra e Lula são parecidas. “Contra a crise” acenam com “reformas estruturais”: tributária; da previdência, da legislação trabalhista e política.
A diferença entre um e outro, é que Lula veio da classe trabalhadora e esta deposita nele enormes expectativas de mudança. Lula, entretanto, para ter o apoio do capital, tem prometido à classe dominante usar de sua confiança entre os de baixo para convencê-los a aceitar um “pacto social” e as “reformas” e “medidas” necessárias. Na linguagem do FMI, o nome de tais medidas é “ajuste doloroso”.
A classe trabalhadora vê Lula como um representante seu e como uma possibilidade de derrotar os de cima. Lula, entretanto, aliou-se com pesos pesados da classe dominante e se submeteu ao acordo com o FMI.
Com tais alianças e programa, não mudará a vida do povo.

NO 2º TURNO: VOTAR EM LULA, MAS NÃO DEPOSITAR CONFIANÇA NO FUTURO GOVERNO

O PSTU chamará o voto em Lula no segundo turno e ajudará a classe trabalhadora a derrotar eleitoralmente Serra. O PSTU é frontalmente contrário a Serra. Mas, como no primeiro turno, continuaremos dizendo a verdade ao povo: sem ruptura com a Alca, o FMI e a burguesia, também Lula governará contra os trabalhadores.
Há muitos trabalhadores que acreditam que Lula está mentindo ao FMI e à própria burguesia, para ganhar as eleições. Mas que uma vez eleito, dará um chega pra lá nos de cima e governará para os de baixo.
Nós, do PSTU, não acreditamos nisso. Mas, os trabalhadores que acreditam que Lula – apesar das alianças que fez poderá governar para os de baixo – devem exigir que ele rompa o acordo com o FMI, convoque um Plebiscito Oficial sobre a Alca e suspenda qualquer negociação nesse âmbito até que o povo decida e que atenda as reivindicações dos trabalhadores.


NENHUMA TRÉGUA: PREPARAR A MOBILIZAÇÃO POPULAR

Alertamos que a crise que se avizinha é grave e que as exigências do FMI significam ataques duríssimos contra os trabalhadores.
É necessário organizar a luta dos trabalhadores contra esses ataques, vença quem vença as eleições.
Os trabalhadores seguramente se sentirão vitoriosos e mais fortalecidos se Lula vencer. Esse sentimento deve servir para aumentar a luta e a organização dos trabalhadores para derrotar o FMI, a burguesia e para conquistar suas reivindicações. Nós, do PSTU, nesse sentido, chamamos os trabalhadores a não depositarem confiança no futuro governo, mas na sua luta e, por isso mesmo, exigir que as suas organizações mantenham independência perante o governo e encaminhem a luta pelas reivindicações da classe.
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