Crise no SWP inglês: a moral revolucionária e a opressão às mulheres

Uma grave crise vem abalando o SWP inglês, um dos maiores partidos de esquerda da Inglaterra, que se reivindica trotskista. Uma militante do partido acusou um dos membros do Comitê Central de tê-la estuprado. A Comissão de Moral daquele partido chegou à conclusão de que não havia provas suficientes contra o acusado. Nesse ínterim, outra militante do partido também acusou o mesmo dirigente de tê-la molestado sexualmente.

Frente ao clima que se instalou, a Comissão tratou de conduzir a discussão de forma burocrática, impedindo uma discussão ampla. Na hora da votação, a crise se expressou: o plenário rachou, com 231 votos a favor do relatório, 209 contra e 18 abstenções. Militantes romperam com o partido e intelectuais lhe viraram as costas.

Estupro
Uma denúncia de estupro dentro das fileiras de um partido tem de ser encarada com a maior seriedade por todos os militantes, em especial pela direção. O estupro é um tipo de violência contra as mulheres que deixa marcas para o resto da vida. Uma mulher que já sofreu estupro passa a sentir-se permanentemente ameaçada e com medo de que isso se repita, o que a torna um ser fragilizado para todas as tarefas que tem adiante. É uma agressão física e psicológica que dificilmente se supera.

Por isso, a denúncia feita pela militante deve ser investigada exaustivamente, e a direção do partido tem de ser a maior interessada em encontrar a verdade, em garantir a mais plena liberdade de discussão. Mas não foi o que ocorreu.

A moral revolucionária
No Programa de Transição, Trotsky diz que “em uma sociedade baseada na exploração, a moral suprema é a moral da revolução socialista. Bons são os métodos que elevam a consciência de classe dos operários, a confiança em suas forças e seu espírito de sacrifício na luta. Inadmissíveis são os métodos que inspiram o medo e a docilidade dos oprimidos diante dos opressores”. O que ocorreu no SWP foi justamente o contrário: aplicaram-se métodos que minaram a confiança das militantes e inspiraram o medo diante dos opressores.

Nenhuma organização política está isenta de incorrer em desvios morais. A questão que se coloca é como esses desvios são tratados. Na LIT também já sofremos problemas desse tipo. Inclusive alguns foram tão graves que chegaram a ameaçar a existência da própria LIT. Qual foi a atitude tomada? Em primeiro lugar, não esconder os fatos, apurá-los até o fim e punir os envolvidos com a expulsão de nossas fileiras. Inclusive chegamos ao ponto de perder uma seção inteira de nossa Internacional.

No IX Congresso Mundial (2008) da LIT, foi votado um documento, “Em Defesa da Moral Revolucionária”, que nos serve de parâmetro para nossa atividade diária como parte essencial de nossa construção. Esses fatos nos mostraram que a questão da moral revolucionária não é uma questão a mais, mas sim, a questão chave para uma organização de esquerda que se constrói para destruir o capitalismo e a sociedade burguesa.

Foi uma batalha dura, mas temos certeza de que a LIT saiu fortalecida. No entanto, somos conscientes de que a ameaça permanece, porque a burguesia sempre trata de impor a sua moral para nos destruir.

Na LIT, batalhamos por uma moral comunista em nossas seções. Por isso, nos preocupamos com o que está ocorrendo no SWP, e queremos que nossa experiência ajude a todos os militantes revolucionários nos diversos países a compreender a sua importância. A cada dia nos convencemos mais e mais de que não haverá uma construção sólida de um partido revolucionário nacional e nem da Internacional à qual tanto aspiramos se não defendemos com toda a coragem e doa a quem doer a moral revolucionária em nossas fileiras.

A moral partidária
O partido é um instrumento mais avançado, que luta para derrubar a burguesia e pela ditadura do proletariado. Para isso, precisa ter uma disciplina de ferro e uma moral superior inclusive à moral proletária, ainda que parta dela.

A confiança entre todos é seu cimento essencial, é a chamada “confraria dos perseguidos”, dos que querem destruir o capitalismo e podem pagar o preço com a própria vida. Portanto, é necessária uma moral superior para manter a força dessa organização, para resistir às pressões que a burguesia nos impõe. No partido, o coletivo é tudo, em oposição à ideia típica do capitalismo, onde prevalece o individualismo e o egoísmo. É preciso fortalecer a confiança de cada um em suas próprias forças, e ao mesmo desenvolver a confiança entre todos os militantes, fazendo com que um confie no outro, porque nos momentos mais graves de nossa luta, vamos ter de confiar em nossos companheiros. Para isso, queremos e fazemos com que cada um cresça e se desenvolva politicamente, porque nosso partido tem de ser conspirativo contra o Estado, e isso exige uma total confiança entre os camaradas, sejam homens, sejam mulheres.

A confiança nas mulheres
Na sociedade, a mulher é colocada em situação de inferioridade e sofre todo tipo de opressão. O partido tem de ser o oposto. Nele ela deve encontrar um ambiente de respeito e interesse por seu desenvolvimento político. O respeito revolucionário em relação a uma mulher que entra no partido e se dispõe a dar sua vida pela revolução é tudo, porque ao entrar no partido ela estará superando obstáculos muito maiores que um homem.

Dentro do partido, as mulheres conscientes, as militantes revolucionárias, não esperam encontrar o mesmo que encontram todos os dias na sociedade em geral. Dentro do partido, elas confiam nos camaradas, baixam sua guarda em relação a eles, e só esperam em troca confiança e uma relação de respeito e camaradagem.

Nós, que lutamos contra a opressão das mulheres, sabemos como é importante para uma mulher entrar no partido. Por isso, se os casos de machismo são graves na sociedade como um todo, eles são duplamente perniciosos dentro de nossas fileiras, porque estarão destruindo uma militante e também o nosso objetivo final, ou seja, a própria construção do partido, o instrumento que vamos construindo dia a dia para conquistar uma sociedade socialista e, com ela, a emancipação total das mulheres. Um partido revolucionário que não incorpora a luta contra a opressão em sua atividade cotidiana não pode ser vitorioso na luta pela liberação da classe. É necessário combater todos os desvios morais e, ao mesmo tempo, ser coerente com o programa de liberação para toda a classe trabalhadora, homens e mulheres.

O combate é constante, para mostrar à classe trabalhadora que nossos partidos são distintos dos partidos burgueses, onde reina a corrupção, a calúnia, o engodo. Para mostrar que os políticos revolucionários são diferentes dos políticos burgueses, que usam a política para se promover e para roubar os cofres públicos. Para mostrar que nós temos uma moral distinta e que nossa luta contra a opressão das mulheres é uma luta sincera, que não figura apenas em nossos documentos, mas faz parte de nossa vida cotidiana. Só assim vamos ganhar os trabalhadores, homens e mulheres, para as nossas fileiras.

Precisamos aprender com nossos erros, inclusive o SWP inglês. Extraída de nossa experiência diária e muitas vezes dolorosa, essa é a maior lição que devemos deixar para todos os militantes, homens e mulheres que hoje estão aderindo às organizações revolucionárias no mundo inteiro e se dispondo a combater a moral burguesa, assentada no egoísmo, no privilégio de uns sobre outros e na odiosa opressão das mulheres.

Cecília Toledo é membro da Comissão de Mulheres da LIT