Crise já começa a chegar à China

Muitos trataram a China como um novo país imperialista que disputaria a liderança com os Estados Unidos. De fato, todos os dados sobre a economia do país impressionam. No último ano, a China foi responsável por um terço da economia mundial, quando seu PIB cresceu 11,9%.

Mas, em vez de fazerem da China uma grande potência, indicam justamente o contrário. Ela está se tornando, a passos rápidos, a maior e mais populosa semicolônia do imperialismo. Uma situação que se agravará com a crise mundial que já afeta o país.

Agora é oficial
O crescimento chinês sempre foi totalmente subordinado aos interesses das empresas imperialistas. Hoje, a China concentra o maior número de multinacionais por metro quadrado. Cerca de 60% das companhias que atuam no país não são chinesas. Com o retorno do capitalismo, o país se transformou numa plataforma de exportação.

A crise na economia mundial já vem afetando drasticamente o país. A desaceleração da economia chinesa agora é oficial: o PIB cresceu 9% entre julho e setembro. É a pior performance em cinco anos.

As altas taxas de crescimento da China fizeram que os preços de produtos primários se mantivessem altos nos últimos anos. Atualmente, o país consome 12% da energia do mundo, 25% do alumínio, 28% do aço e 42% do cimento, sem falar nos produtos agrícolas e minerais. Com a crise e a inevitável desaceleração econômica do país o preço destes produtos está caindo. O preço do aço, por exemplo, caiu 20% em três meses por conta da demanda menor.

Com a retração do consumo, a venda de carros em agosto foi 6% menor que em julho. A venda de apartamentos no primeiro semestre também registrou queda de 14% em relação a 2007.

É precisamente no setor imobiliário que a crise dá fortes sinais. O país experimentou um gigantesco crescimento no setor, movido, sobretudo, pelo enorme êxodo rural. Entre 15 milhões e 20 milhões de pessoas mudam-se às cidades todos os anos.

Os investimentos em bens residenciais foram maiores do que nos Estados Unidos. No ano passado, chegaram a 10% do PIB contra 4,6% nos EUA. Na medida em que a construção perdeu vigor nos últimos meses, a produção de aço também caiu. As vendas de casas, que chegaram a crescer mais no ano passado, diminuíram neste ano: o metro quadrado vendido caiu 36% em agosto (Wall Street Journal, 24/10/08).

A construção emprega mais de 80 milhões de pessoas, por isso o fim do “boom” imobiliário vai provocar um enorme desemprego e agravar os problemas sociais. Já se prevê que o desemprego vai afetar mais de 2,5 milhões de chineses no próximo ano.

Por outro lado, o desaquecimento do maior país exportador do mundo já provoca contornos dramáticos. Fábricas começam a fechar e a demitir milhares.

Numa fábrica fechada em Donguan (de brinquedos), província de Cantão, brinquedos, listada na Bolsa de Hong Kong, fechou os portões e deixou uma nota: “Os negócios vão mal, não vamos pagar os salários”. Os 6,5 mil trabalhadores ficaram simplesmente sem receber.

Mesmo antes da queda das bolsas em todo o mundo, o país já vinha registrando fechamento de fábricas. Cerca de 10 mil fábricas fecharam as portas no último ano – entre elas, 3.361 fábricas de brinquedos. Outras 15 mil fábricas podem seguir o mesmo caminho segundo estimativa da Federação de Indústrias de Hong Kong.

Problemas sociais
O segredo dos negócios da China repousa na maga exploração dos trabalhadores do país. Os trabalhadores são submetidos a jornadas de 10 a 12 horas diárias. Cerca de metade da população vive ainda com menos de dois dólares diários. Mesmo com o crescimento chinês, a imensa maioria do povo continua na miséria. Segundo a ONU, a China tem uma das piores distribuições de renda do planeta. O coeficiente Gini, que mede a desigualdade econômica, é de 0,45. No Brasil, gigante da desigualdade social, o coeficiente é de 0,57.

Os baixos salários pagos aos trabalhadores chineses, servem, por outro lado, como uma forma de pressionar pela redução dos salários dos trabalhadores de outros países.

No campo, a miséria é avassaladora e resulta numa migração maciça para as cidades. A ONU estima em 200 milhões os camponeses que irão para os centros urbanos ao longo desta década. O Banco de Desenvolvimento da Ásia vai mais longe ao falar em 300 milhões. Com a desaceleração econômica, o desemprego vai aumentar somando-se assim com a falta moradias, saneamento e transporte com qual se deparam as pessoas que chegam as cidades.

O Brasil já assistiu o fim de “milagre” econômico na década de 1980. Os efeitos políticos e sociais são bem conhecidos.

Até agora, a ditadura do Partido Comunista foi a garantia fundamental para colocar à disposição do imperialismo milhões de trabalhadores semi-escravos. Sob mão de ferro, o PC impede que os trabalhadores realizem greves, organizem sindicatos independentes, paralisações ou qualquer outra forma de luta. Mas a nova crise econômica terá um lastro político-social de dimensões históricas. E a China não está imune de suas conseqüências.