Crise da água em São Paulo: é hora de organizar a luta

    Cantareira

    A prioridade do governo paulista não é garantir um serviço de qualidade à população, mas sim proteger os lucros dos investidores privados da Sabesp

    A crise da água deixou de ser uma ameaça e já é uma dura realidade para milhões de pessoas no estado de São Paulo. Durante meses, acompanhamos pela imprensa a Cantareira secar. O governador Geraldo Alckmin (PSDB), porém, negava a crise, escondendo a gravidade da situação por conta da campanha eleitoral. Agora, estamos à beira de um colapso hídrico no estado.

    A crise já afeta a população de todo o estado, causando uma situação de verdadeira calamidade pública em cidades como Itu ou em regiões como Osasco e Guarulhos. Pesquisa do Ibope, divulgada no início de setembro, dava conta que 38% da população no estado relataram falta de água nos últimos três meses. Isso dá mais de 16 milhões de pessoas. Fosse realizada hoje, esse número certamente seria muito maior.

    Muito se fala do Sistema Cantareira, que abastece 10 cidades da região metropolitana de São Paulo e que está abaixo dos 3% da chamada ‘reserva técnica’, ou seja, a água que se encontra no nível de captação e tem que ser puxada por bombas. Mas o Sistema do Alto Tietê, que atende 3,1 milhões de pessoas também está prestes a secar, operando com força total quando já chega a 8,5% da sua capacidade. Com o agravamento de que não há sequer volume morto pra ser explorado.

    O governo do estado, por sua vez, continua negando qualquer racionamento. E, quando fala sobre a ameaça do colapso, culpa a falta de chuva e o calor excessivo neste ano. Se por um lado é verdade que há uma estiagem, por outro o governo de São Paulo e a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, a Sabesp, já sabiam há muito tempo dos perigos de uma seca que pudesse levar o sistema de abastecimento à falência. A falta de chuva não explica tudo.

    Chuvas, secas, terremotos, entre outros desastres naturais, não dependem de nós, mas podem ser previstos, ter seus efeitos minimizados e até evitados pela ação humana. Sim, o consumo também aumentou, mas isso não foi acompanhado por um aumento nos investimentos no setor. Incompetência da companhia? Não parece quando vemos que, em 2013, ela teve um lucro de quase R$ 2 bilhões. No mercado internacional, onde metade de suas ações são negociadas, a Sabesp é, aliás, muito bem avaliada, tendo valorização de 600% entre 2002 e 2012. No entanto, só em abril deste ano, a concessionária anunciou um corte de R$ 900 milhões no orçamento. Só para ficarmos em mais um exemplo, no orçamento de 2014, o gasto previsto com pagamento da dívida é três vezes maior do que o destinado ao setor de saneamento.

    Temos, então, um quadro que é o seguinte: uma grave crise que já afeta milhões de pessoas no estado, um sistema hídrico à beira de um colapso, sem falar nos inúmeros casos de problemas de saúde que começam a aparecer e que, suspeita-se, seja causado pela água do volume morto. Mas o governo preferiu proteger os lucros dos acionistas a garantir um serviço essencial à população.

    Vazou na imprensa recentemente um áudio que mostra a diretoria da Sabesp, incluindo sua presidente Dilma Pena, afirmando que havia ordens superiores para não reconhecer uma crise hídrica no estado. Isso comprova o esforço do governo paulista para esconder a situação. Outra coisa é que há muito eles sabiam disso. Já em 2009, havia relatório como o do Plano de Bacia Hidrográfica do Alto Tietê alertando os riscos no Sistema Cantareira. Mas nada foi feito. Pelo contrário, o orçamento para o setor foi reduzido.

    A prioridade do governo paulista não é garantir um serviço de qualidade à população, mas sim proteger os lucros dos investidores privados da Sabesp. Por isso, não se investe o quanto se deveria investir no setor. E essa mesma realidade se reproduz nos outros estados onde as companhias de água ou já foram privatizadas ou estão nesse mesmo caminho.

    Não é possível que um setor tão essencial quanto a água esteja nas mãos da iniciativa privada, virando uma mercadoria. Precisamos organizar desde já a luta pela água em São Paulo. No último dia 24 de outubro, a CSP-Conlutas organizou uma plenária entre sindicatos, movimentos sociais e populares para discutir o problema e organizar a luta em defesa da água. Temos que fortalecer e reproduzir iniciativas desse tipo, rumo à luta pela estatização da companhia de abastecimento.

    Se o povo e os trabalhadores não se mobilizarem e irem à luta, o governo de São Paulo vai trazer o caos ao estado em nome dos lucros dos investidores internacionais.

     

    *Texto originalmente publicado na Coluna do Congresso em Foco em 05/11/24

     

     

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