Correios: lições de uma greve

Os trabalhadores dos Correios realizaram uma das maiores greves da categoria, com um índice de adesão beirando os 80% em nível nacional, mas em várias cidades superior a 90% da categoria. E com a participação dos principais sindicatos do país.

No segundo dia da greve, a categoria recusa a primeira e rebaixada proposta da empresa e derrota o Comando de Negociação, que orientou a suspensão do movimento, sem que uma única assembléia tenha acatado a proposta.

Os dirigentes sindicais ligados ao PT e ao PC do B dão um golpe na assembléia de São Paulo. Colocando jagunços no carro de som e manobrando a votação da assembléia, dando por vitoriosa a proposta que acabava com a greve quando esta tinha sido derrotada. Ainda conseguem ir além. No dia 26, à meia-noite, o comando nacional foi convocado pela direção da empresa e desrespeitando o estatuto da Federação, sem consultar as assembléias, quatro membros do comando assinam o acordo pelas costas da categoria.

Espontaneidade, radicalização e traição

Com a vitória do Lula nas eleições, os trabalhadores dos Correios vislumbraram a possibilidade de mudar a sua situação. Mas em abril, no pagamento da PLR, a categoria ficou frustrada. Enquanto a base recebeu entre R$ 180 e R$ 240, a cúpula da empresa abocanhou R$ 1.000. Neste momento, a categoria percebeu que não bastaria acreditar no Lula. Teria que lutar.

Por isso as assembléias desde o início foram cheias, e as manobras para desviar a atenção dos trabalhadores foram rechaçadas. Um exemplo aconteceu em São Paulo, com a tentativa do PT e PC do B de debater na assembléia da campanha a compra de uma colônia de férias. A massa votou contra, exigindo discutir o salário.

Grandes assembléias, atrasos na entrada, paralisações e a greve de 24 horas realizadas pelos companheiros do Rio Grande do Sul demonstravam que a greve era iminente. O que não estava claro para a base é que o governo Lula e sua política econômica, em consonância com o FMI, exige um “esforço” dos Correios para gerar o superávit primário de 4,25%. Esta era também uma greve contra o governo, pois mais uma vez os trabalhadores deveriam ter seus salários arrochados para que este pudessem pagar juros aos banqueiros.

Outro elemento importante foi que a categoria não estava preparada para a revoada de dirigentes para cargos na direção dos Correios. Foram mais de 60 dirigentes sindicais que ocuparam as áreas de Recursos Humanos e de Relações Sindicais.
Apesar de todas as debilidades em sua preparação a greve saiu como um rastilho de pólvora. Para a maioria dos trabalhadores essa era sua primeira greve, e achavam que o governo e o PT e o PC do B eram seus aliados.

Em vários setores de trabalho, os trabalhadores se uniram e deliberam fazer a greve. No interior, cidades paravam sem a presença de dirigentes sindicais, teve caso de cidades que os dirigentes ficaram sabendo da greve, depois que ela já havia iniciado.

O Rio de Janeiro foi um exemplo da disposição de luta dos trabalhadores. A diretoria do sindicato foi destituída antes da greve, o dinheiro do sindicato esta bloqueado e há um questionamento da junta governativa que comanda a entidade. E mesmo assim, a greve foi muito forte e dirigida pela base.

Mas a radicalização não foi acompanhada da clareza política de que a categoria estava lutando contra a política do governo, da empresa e das direções sindicais, que desde dentro do movimento estão aplicando a política da empresa. E por isso puderam detonar o movimento desde dentro.

Autonomia e independência dos sindicatos

O balanço da greve dos Correios ganha uma importância fundamental para o movimento sindical cutista. Em nossa opinião, os métodos truculentos e antidemocráticos usados pelos dirigentes ligados ao PT e ao PC do B, obedecem a um problema político profundo que atravessa o movimento sindical: a relação com o governo.

Este problema é ainda mais grave nos sindicatos de empresas estatais, em que o governo é diretamente o patrão e onde ex-dirigentes sindicais ocupam importantes cargos no interior destas empresas. O que aconteceu nos correios, foi uma intervenção direta da empresa e do governo nos sindicatos, passando por cima do direito democrático da categoria decidir os rumos das campanha. O comando nacional jogou na lata do lixo, um processo de organização oriundo das lutas que travamos que originou uma Federação democrática que sempre tomou suas decisões respeitando as decisões das assembléias.

Esta política aplicada pelo PT e PC do B é o fim da independência e autonomia dos sindicatos, e o que explica que uma greve desta envergadura tenha terminado sem arrancar da empresa uma proposta que pudesse satisfazer aos trabalhadores.
Ao subordinar os interesses dos trabalhadores às necessidades da empresa e do governo, que prefere pagar a dívida externa do que matar a fome dos funcionários dos Correios, os dirigentes sindicais governistas atuaram como representantes da empresa no interior do sindicato.

É preciso entender que estes dirigentes não se subordinaram às assembléias dos trabalhadores, e sim à política traçada dentro do Departamento de Recursos Humanos da empresa, que hoje está ocupado por ex-dirigentes sindicais.

Agora é necessário retomar a luta e a organização dos trabalhadores, rejeitar o acordo assinado pelos traidores e realizar um congresso nacional extraordinário da Federação, que eleja uma nova direção comprometida com os interesses dos trabalhadores.

Assembléia de São Paulo inicia destituição da direção do sindicato

Convocada pela parcela da diretoria que resistiu a traição da maioria da direção, a assembléia de São Paulo votou a rejeição do acordo. E como a assinatura deste acordo não corresponde aos estatutos da Federação, na medida em que necessitava de vinte um sindicatos que o aprovasse ou de uma plenária nacional, a assembléia decidiu entrar com um medida judicial que bloquei a validade do “acordo”.

Com relação ao sindicato de São Paulo, fraturado pela traição da maioria da direção, foi decidido a convocação de uma assembléia para o dia 16/10, para alterar os estatutos da entidade de forma a permitir a antecipação das eleições.

No final, foram eleitos os representantes para a plenária nacional chamada pelos sindicatos de todo o país que rejeitam o acordo assinado pelos traidores

Post author Ezequiel Filho,
funcionário dos Correios de São Paulo
Publication Date