Operários das obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro enfrentam sindicato, capangas armados, empreiteiras, Petrobrás, a Justiça e o governo

No dia 5 de fevereiro, começamos uma greve que atropelou o sindicato da CUT. A “peãozada” colocou fogo no carro do sindicato (Sinticom – Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção  Civil e Pesada, Montagem e Manutenção de Itaboraí) e quase surrou o presidente da federação cutista. No dia seguinte fomos atacados por tiros de revólver disparados por capangas, ao que tudo indica do sindicato. Dois colegas foram feridos, um em estado grave. Uma batida policial encontrou uma arma raspada e algumas motos sem placa na sede do Sinticom. Formamos um comando de greve que não é reconhecido pelo sindicato e é impedido de falar no carro de som.

A patronal, por sua vez, simplesmente não negocia. Quer descontar os dias parados, dar 9% de reajuste e R$ 20 de aumento no vale-refeição. Na véspera do carnaval uma desembargadora emitiu uma liminar condenando a greve, a mesma desembargadora que tentou colocar na ilegalidade a greve dos garis do Rio de Janeiro. 

Ônibus queimado, ameaças, tiros e morte
Um grupo desconhecido passou a se utilizar do terror e de práticas alheias ao nosso movimento. Os piquetes começaram a serem realizados com armas de fogo e um ônibus da firma Qualiman foi alvejado. No dia 24 de fevereiro, o corpo de um encarregado da empresa Alusa Engenharia foi encontrado perto da Reta do Comperj, onde foram feitos piquetes e sofremos o primeiro atentado com armas de fogo. No dia 6 de março, após o carnaval, dois homens armados numa moto incendiaram um ônibus da empresa Jetam, e quando saíram deram dois tiros para o alto.

Esses fatos começaram a partir do momento em que o sindicato esboçou algum “enfrentamento” contra a patronal. Nós, do comando de greve, já fomos informados sobre uma ordem do sindicato para nos matar caso chegássemos até a Reta do Comperj pra fazer algum piquete. Marcão, um dos trabalhadores da obra, foi ameaçado de morte pessoalmente por dois membros da Comissão de Trabalhadores, ligada ao sindicato. Esse fato foi gravado por celular e divulgado na imprensa. Marcão passou a ser duramente perseguido e vigiado por carros suspeitos.

Há uma forte militarização do sindicato, com a participação de muitos policiais. Em uma das assembleias, quando conseguimos sair do cerco de provocadores pagos pelo sindicato, fomos abordados por policiais por sermos “lideranças da greve”.


Tropa de Choque reprime grevistas nesse dia 12 de março

Assembleia vota pela manutenção da greve
No dia 10 de março foi realizada uma nova assembleia. O pelego do sindicato tentou, novamente, fazer que todos voltassem a trabalhar. Ele alegava que não seria possível enfrentar a Justiça. Durante a votação, Manoel Vas, presidente do sindicato, propôs o fim da greve. Neste momento um silêncio tomou conta da assembléia. Todos se olharam e sabiam que a decisão de manter a greve era unânime.

Em seguida, foi votada a proposta sobre a manutenção da greve. Uma enorme explosão de  comemoração ecoou pela assembleia. Os dirigentes da CUT tentaram refazer a proposta, mas as vaias não os deixaram falar. O peso da vitória do garis nos fortaleceu muito. Agora somos nós que vamos ao Rio de Janeiro para a sede da Petrobrás. Está na hora de Sérgio Cabral (PMDB), Graça Foster (Presidente da Petrobrás) e a presidente Dilma sentirem o tsunami de peão.

RÁDIO PEÃO
Confiança e mobilização

Os primeiros sinais de mobilização no Comperj começaram no dia nacional de luta do dia 30 de agosto. Cerca de 300 trabalhadores de uma empresa que não receberam pagamento resolveram parar no dia 26 de agosto. Nos dias 29 e 30, os 30 mil operários da Comperj pararam em solidariedade a eles. A paralisação deu confiança na força dos trabalhadores.

Armadinhas
Em outubro, durante uma festa patrocinada pela categoria, o sindicato mandou fazer uma bandeira do partido e destacou um capanga para segurá-la. A idéia era atrair os supostos “agitadores” para descobrir que eram.

CSP-Conlutas na greve
A CSP-Conlutas está apoiando a greve desde o início. Uma comissão de cerca de 20 operários organiza, pela base, a resistência da greve e as exigências ao sindicato que a toda hora tentar acabar com o movimento. A central está pedindo que os sindicatos enviem moções, mensagens de solidariedade para a luta desses operários que estão seguindo o exemplo de seus companheiros de classe, os garis, e esperam conquistar a merecida vitória.

SAIBA MAIS
Quais são reivindicações dos operários 

Os trabalhadores exigem 15% de reajuste nos salários, aumento do valor do ticket alimentação, dos atuais R$ 300,00 para R$ 500,00, o pagamento diário de 2 horas in tinere (tempo gasto no trajeto casa-trabalho-casa, nos ônibus contratados pelas construtoras), a classificação dos ajudantes que exercem serviço de profissionais no canteiro há mais de seis meses (o que é desvio de função), equiparação dos salários para profissionais de mesma função (há empresas que pagam salários diferenciados), a “folga de campo” (período para visitar as famílias em outras regiões) a cada 90 dias trabalhados, bem como o pagamento pelas empreiteiras das despesas com a viagem, pagamento de adicional 150% no valor das horas extras, entre outras demandas.

Publicado no Opinião Socialista 476