Com todo o respeito, não somos chavistas

    A morte de Chávez é um fato que já pode ser considerado parte da história da América Latina. A comoção que se abate sobre o povo venezuelano e boa parte da vanguarda latino-americana expressa a importância que o ex-presidente venezuelano teve no continente. A maioria das correntes de esquerda já apoiava Chávez. No momento de sua morte, o coro dos apoiadores ampliou-se ainda mais.

    Respeitamos a dor e a comoção dos que apoiam Chávez. Mas não nos somamos a esse coro. Muitas vezes é necessário saber ser minoria em defesa de princípios. É a única maneira de batalhar depois pela maioria com clareza.
    Existe uma parte dos ativistas que apoia Chávez e Lula. Acham que esses governos avançaram no que é possível, com melhorias sociais que seriam impossíveis com governos da direita.
    Respeitamos a posição desses ativistas. Mas não pensamos assim. Por quê? Porque seguimos sendo socialistas e anti-imperialistas.
    A América Latina viveu um grande período de lutas no início desse século que levou a derrota por meio de rebeliões populares e eleições de boa parte dos governos da direita no continente. Nunca em nossa história houve tantos governos ditos “de esquerda” como Chávez e Lula, incluindo países como Argentina, Uruguai, Bolívia, El Salvador e Nicarágua. Já estiveram também nessa onda Paraguai e Chile, agora novamente com governos de direita.
    Com esses governos foi abaixo a eterna desculpa reformista da impossibilidade de avançar pelo “isolamento dos setores progressivos”. Caso Chávez e Lula quisessem, a América Latina teria pegado fogo em uma histórica mobilização anti-imperialista e anticapitalista. Bastaria que esses governos se recusassem a pagar a dívida externa para mudar a situação do continente. Se expropriassem as multinacionais que controlam a economia de nossos países gerariam uma onda revolucionária superior a que hoje sacode o Norte da África e Oriente Médio.  

    Mas eles se limitaram a aplicar programas sociais compensatórios – o Bolsa Família no Brasil, as Missões na Venezuela – para reduzir a pobreza. Estes planos foram sugeridos pelo Banco Mundial para compensar a brutal desigualdade que acompanhava os ajustes neoliberais. E são aplicados em toda América Latina, também pelos governos de direita.

    Não nos guiamos pelos discursos de Lula, tampouco pelos de Chávez. O Brasil continua sendo controlado pelas multinacionais que ganham lucros altíssimos no governo Lula, tanto ou mais que recebiam com FHC no governo. A Venezuela também segue controlada pelas multinacionais. A Exxon Mobil, a Chevron Texaco e a Repsol seguem produzindo o petróleo venezuelano. As grandes empresas privadas mantiveram o controle da economia mesmo com Chávez. Uma prova disso é o desabastecimento e a inflação presentes no país.
    Mas, dirá uma parte da vanguarda que “Chávez não é igual a Lula”.  Chávez sim, segundo esses companheiros, seria um verdadeiro governo anti-imperialista.
    É verdade que Chávez e Lula têm uma origem diferente. Existiu uma situação revolucionária na Venezuela ocasionada pelo Caracazo, uma insurreição popular em 1989, que dividiu as Forças Armadas. Uma situação mais avançada da luta de classes que levou a um governo nacionalista burguês de Chávez, distinto dos governos do PT abertamente pró-imperialistas surgidos de uma situação muito mais controlada da luta de classes.
    Por esse motivo, o governo Chávez realizou um pouco mais de concessões às massas e imprimiu um discurso diferente de Lula e Dilma. Na Assembleia da ONU, Chávez comparou Bush ao diabo. No mesmo período, Lula se dizia “amigo de Bush”. Sim, os discursos dos dois eram bem diferentes. Os discursos, não os atos.
    A dura verdade é que a economia venezuelana não tem diferenças em relação à brasileira no que toca ao controle das multinacionais. O nacionalismo burguês de Chávez, ao não romper com o imperialismo, não mudou a situação da Venezuela. Nessa edição, vamos demonstrar que a situação dos trabalhadores venezuelanos é bem semelhante a dos brasileiros. E o petróleo venezuelano, com as nacionalizações de Chávez que mantiveram a parceria com as multinacionais, não difere em praticamente nada da situação do petróleo brasileiro.
    Algumas correntes de esquerda no Brasil dizem que Chávez é diferente de Lula por “mobilizar as massas”. Mas a que tipo de mobilização se referem? A heróica luta das massas venezuelanas contra o golpe de 2002? Sim, se o imperialismo quiser invadir a Venezuela estaremos juntos neste tipo de mobilização. Mas essa não é a realidade hoje. Nem o imperialismo nem a oposição burguesa apostam em golpes, mas sim no desgaste do governo chavista e em eleições futuras.
    Já as mobilizações salariais, como as greves operárias, são sistematicamente reprimidas na Venezuela, com seus dirigentes presos e (não raro) mortos. Os sindicatos são em sua maioria atrelados ao Estado e imobilizados.
    Na política internacional, existem poucas diferenças reais. Mesmo em relação aos EUA, Chávez mudou o discurso e disse que “votaria em Obama” se fosse norte-americano.
    Nem o governo brasileiro nem o venezuelano apoiam as mobilizações dos trabalhadores e jovens contra os governos europeus. No Norte da África e Oriente Médio, o governo brasileiro não toma nenhuma medida realmente a favor dos povos em luta. Já Chávez apoiou vergonhosamente as ditaduras assassinas de Kadafi, na Líbia, e agora de Assad, na Síria.
    Existe uma incoerência nos que romperam com Lula, mas seguem apoiando Chávez. O governo venezuelano, nacionalista-burguês, não deixa de ser burguês. O de Lula não é nacionalista, sendo igualmente burguês.
    Nós seguimos sendo socialistas e anti-imperialistas, contra os governos burgueses de direita ou “de esquerda”. Por isso não somos lulistas e nem chavistas.
     

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