“Eu sou uma pergunta”, afirmou a escritora e jornalista Clarice Lispector sobre si mesma. Em 2007 completam-se 30 anos de sua morte e da publicação de seu livro mais conhecido, “A hora da estrela”. E nesses 30 anos, a ‘pergunta’ que Clarice é não está respondida.

Isso porque sua literatura é algo além da narrativa, é convite para que o leitor adentre seus pensamentos, vivendo e sentindo suas impressões. E a ‘resposta’ a esta literatura depende muito de como cada leitor adentra o universo de Clarice.

Ela escreveu romances, contos, crônicas, poesias, literatura infantil e textos para jornais. A prosa foi seu principal instrumento. Nela, a linearidade, o tempo cronológico, o enredo são secundarizados, abrindo espaço para o fluxo de pensamento dos personagens.

Como nasce a estrela
Esta grande representante da literatura brasileira não nasceu no Brasil, mas em Tchelchenik, na Ucrânia, em 1920. Clarice chegou ao Brasil com dois meses de idade, com os pais e as duas irmãs. Sua infância em Recife (PE) foi de grandes percalços, com problemas financeiros e a morte da mãe quando ela tinha apenas nove anos.

No Rio de Janeiro, Clarice trabalhou como professora de português, estudou Direito, trabalhou na Agência Nacional como redatora. A partir do trabalho jornalístico, ela faz amizade com outros escritores e jornalistas como Antônio Callado, Hélio Pelegrino, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Alberto Dines e Rubem Braga.
Em 1943, ela se casa com o colega de faculdade e futuro diplomata Maury Gurgel Valente.

A descoberta do mundo
“Perto do Coração Selvagem” é publicado em 1944 e impressiona os críticos literários. Já neste primeiro livro, o estilo pessoal de Clarice fica marcado através de uma prosa quase poética que explora a solidão humana, centrada na personagem Joana. Em um período em que a literatura brasileira possuía características regionalistas, Clarice Lispector surpreendeu com sua temática existencial, seu estilo solto e inovador, que foi comparado pelos críticos a James Joyce e Virginia Woolf.

Ela e o marido moram durante algum tempo na Europa, devido ao trabalho dele. É na Europa que Clarice termina seu segundo livro, “O Lustre”, que seria publicado em 1946. Em “O Lustre”, a personagem principal Virgínia mantém um relacionamento incestuoso com o irmão Daniel.

Pulsações
Na Suíça, a escritora passa por dificuldades em escrever. Ela afirma que sua vida lá foi salva pelo nascimento do filho Pedro e por ter escrito “Cidade Sitiada”.
Clarice passa pelo Brasil e trabalha em jornais entre maio e setembro de 52. Depois, fica oito anos nos Estados Unidos, onde nasce o segundo filho, Paulo, em 1953.

Em 1959, Clarice e o marido se separam e ela volta ao Rio de Janeiro. Lá, passa por dificuldades financeiras, pois a pensão e os recursos arrecadados com direitos autorais não eram suficientes. Clarice retorna ao jornalismo, escrevendo para Correio da Manhã, Diário da Noite, Jornal do Brasil, entre outros.

A publicação de “Laços de Família”, “A Maçã no Escuro”, “A Legião Estrangeira” e “A Paixão Segundo G.H.” se dá no início dos anos 60. Depois disso, ela passa por novas dificuldades, que se somam aos problemas financeiros. O filho Pedro tem esquizofrenia, exigindo cuidados especiais. Em setembro de 1967, ocorre um incêndio no quarto da escritora que a deixa entre a vida e a morte durante três dias.

A última década de sua vida foi de intensa produção literária, com a publicação de livros importantes como “Felicidade Clandestina” e “Água Viva”. Clarice morre de câncer, em 9 de dezembro de 1977.

“A hora da estrela” foi o último livro publicado antes de sua morte. Macabéa, personagem principal da obra, é uma alagoana que vai para o Rio de Janeiro e tem sua vida descrita por um escritor fictício chamado Rodrigo S.M.

Respostas?
“Marcada pela solidão. Marcada pelo grande amor de sua vida. Marcada pela luta constante contra a quase miséria material. Marcada pelas mãos maceradas pelo fogo, em defesa da vida de um filho, e pela sombra da insanidade rondando a vida do outro“. Assim o escritor Alceu Amoroso Lima, mais conhecido como Tristão de Athayde, definiu Clarice Lispector.

Manuel Bandeira o fez de forma menos dramática, mais singela: “Você tem peixinhos nos olhos, você é bissexta. Faça versos, Clarice, e se lembre de mim. Você nunca é falante, barulhenta. O que você escreve nunca dói nem fere os ouvidos. Você sabe escrever baixo. E sua assinatura, Clarice, é você inteirinha: Clara… Clarinha… Clarice”.

Já o escritor Lúcio Cardoso falou: “Em toda obra dessa grande escritora alguma coisa íntima está sempre queimando: suas luzes nos chegam variadas e exatas, mas são luzes de um incêndio que está sendo continuamente elaborado por trás de sua contenção. Esse fogo é o segredo íntimo e derradeiro de Clarice”.

Clarice se autodefinia como uma pergunta, um enigma, um mistério, talvez assim para ela mesma. E se este enigma não se revela para os leitores, apenas se insinua, apresenta suas luzes para que cada um o absorva, para ela seus próprios enigmas foram latentes até o fim da vida, sendo fonte energética de sua obra. “Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas, continuarei a escrever”, afirmou.

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