Chile: entre a fênix e os abutres

Cena do filme

Governo e imprensa transformam resgate de mineiros em espetáculo para alavancar popularidade do presidente e esconder as más condições das minasNo filme “A montanha dos sete abutres” (Ace in the Hole, 1951) um repórter decadente presencia um acidente no Novo México. Um homem fica preso em uma antiga mina abandonada, dentro de uma montanha. O repórter percebe a oportunidade e transforma a operação de resgate em um espetáculo nacional. E, para manter a legião de curiosos e jornalistas no meio do deserto, chega a alterar a operação de salvamento, escolhendo o caminho mais demorado e arriscado.

A comparação com o espetáculo na mina San Jose, no deserto do Atacama é mais do que óbvia. Mais de 500 jornalistas desembarcaram no deserto chileno. Os visitantes transformaram a paisagem inóspita em palco de um show inédito, transmitido ao vivo para todo o mundo, onde milhares de pessoas se emocionaram com os resgates e comemoraram o desfecho, a luta e a travessia destes homens de volta à vida e para os seus.

Do lado de lá, cada um dos mineiros teve a vida vasculhada e, ao longo dos 69 dias, catapultados à condição de celebridades. A ponto de Mario Sepulveda, o mais entusiasmado dos mineiros e o segundo a escapar pelo túnel, desabafar: “não nos tratem como artistas, somos mineiros”. Contraditoriamente, foi justamente ele, com pulos e socos no ar, um dos que atraiu mais a atenção dos jornalistas.

No filme, o personagem vivido por Kirk Douglas enxerga em um drama pessoal, as condições para transformar a sua carreira e ascender profissionalmente. No controle de uma história impressionante, sem qualquer ética, ele retorna ao “primeiro time” da imprensa. No caso chileno, o drama dos mineiros ajudou a vender jornais, muitos tentam controlar suas histórias. E não apenas na imprensa.

Abutres
Era nítido que uma história dessas proporções, com tanto apelo popular, teria conseqüências. O calvário dos homens e de suas famílias poderia se transformar em um grande trunfo para os governantes, caso o resgate tivesse sucesso, como felizmente ocorreu.

O presidente Sebastián Piñera, em seu primeiro ano de mandato, após derrotar o candidato de Michelle Bachelet, deslocou ministros e gastou milhares de dólares na operação com a perfuradora T-130, que alcançou o refúgio onde estavam os mineiros e abriu o túnel a ser percorrido pela cápsula Fênix, que contou até com a ajuda da Nasa.

O presidente explorou ao máximo o feito chileno, uma conquista diante dos 600 metros sob a terra, que pareciam intransponíveis. Sebastián Piñera deu centenas de entrevistas, foi fotografado e cumprimentou cada um dos mineiros, entrevistando longamente o líder deles, o último a sair.

Como se conduzisse um programa de TV, foi filmado ao extremo, inclusive recebendo por telefone os cumprimentos de outros governantes, de Lula a Hugo Chávez.

Também surgiu ao lado do presidente Evo Morales, que não deixou de comparecer, já que o quarto mineiro a ser salvo, Carlos Mamami, é boliviano e estava em sua primeira semana de trabalho quando o acidente ocorreu. Evo pretendia levá-lo consigo e desembarcar juntos em La Paz, mas as condições de saúde do mineiro não permitiram. Mesmo sem o troféu, a viagem de Evo ajudou a contornar o princípio de crise aberta em seu país com as críticas duras feitas pela esposa do operário, que inicialmente havia acusado o governo boliviano de omissão.

Além dos líderes do continente, o presidente chileno recebeu mensagens de todo o mundo, incluindo uma declaração do presidente Barack Obama, direto dos jardins da Casa Branca. A repercussão internacional, o prestígio, animou Piñera a tal ponto dele enxergar um “novo Chile” após o resgate. “O Chile não será o mesmo após o dia de hoje”, afirmou.

Guardadas as proporções, o desfecho teve significado semelhante ao do 11 de Setembro do EUA ou de uma conquista de Copa do Mundo na política interna do Chile. Do alto dos escombros, sob os holofotes, Piñera falou de união e superação. O presidente conservador navega no orgulho e na felicidade de todos os chilenos diante do grande feito das equipes de resgate e engenharia, para catapultar a sua aprovação e popularidade, embalado ainda pelas comemorações dos 200 anos do país.

Sob a poeira
Toda a merecida alegria ameaça ocultar os responsáveis pelo acidente e pela tragédia que foi por pouco evitada. A começar pelos próprios governantes, que protagonizaram o espetáculo nas TVs. O ministro da Mineração, Laurence Golborne, é um dos tidos como “heróis” após o resgate. Em uma pesquisa divulgada pela Universidade Central do Chile no dia 11, às vésperas do resgate, Golborne era apontado por 31% dos entrevistados como o personagem principal do processo de resgate, atrás apenas dos próprios mineiros e à frente até mesmo do presidente Piñera, com 9%.

Um reconhecimento que ofusca a culpa do ministro nas causas do acidente. A mina San Jose é marcada por acidentes, e, em 2008, após a morte de três trabalhadores, foi fechada. Sem que ela garantisse as condições de segurança necessárias, seus donos receberam a autorização para a reabertura da mina, no final de 2009. A autorização foi concedida pelo Serviço Nacional de Geologia e Mineração (Sernageomin), subordinado ao governo do Chile e ao ministro.

Todos os protestos dos sindicatos, que exigiam o fechamento da mina, foram ignorados. Até mesmo um grave acidente duas semanas antes, onde uma trabalhadora perdeu uma perna, não serviu para sensibilizar as autoridades. As mesmas que agora surgem diante das câmeras, explorando o alívio das famílias e exaltando um “novo Chile”.

Em nome do lucro
Mais do que a responsabilidade de governantes ou dos donos da mina, é necessário destacar a cruel engrenagem que faz com que tantas vidas se percam. Apenas neste ano, 31 mineiros morreram no Chile, em 28 acidentes.

A desgraça dos mineiros em nosso continente, nas minas da Bolívia ou do Chile, já despertou a revolta de escritores e de revolucionários, como o jovem Che Guevara. O que se esconde agora é que, em nome do crescimento econômico e do lucro das empresas, as veias de nosso continente continuam abertas e todas as condições mínimas de segurança e de condições de trabalho são ignoradas. Só isso é o que pode explicar que acidentes assim se repitam com tanta freqüência na mineração, seja nas minas de cobre do Chile, ou nas de ferro da Vale, no Brasil. Repetindo o que ocorre nas minas de carvão da China, onde mais de 2.600 mil trabalhadores morreram enterrados em minas no ano passado, em uma estimativa oficial, questionada por representantes dos trabalhadores.

Após o auge da crise econômica mundial, essa situação parece piorar ainda mais em todas as economias. Para recuperar os níveis das taxas de lucros anteriores, as empresas aumentam o ritmo e as metas de trabalho, provocando doenças de todo tipo; ignoram normas de segurança, e aumentam a terceirização, sem oferecer treinamento ou se responsabilizar por estes trabalhadores. No Chile, sob o Atacama, os 33 mineiros presos trabalhavam em quatro empresas diferentes. Ao todo, cerca de 23% dos mineiros do país são terceirizados.

Essa é a verdadeira explicação para que acidentes como esse ainda ocorram. Para o capitalismo, mais do que a natureza, mais do que a vida, o que importa é o lucro. No Atacama, a tecnologia e o esforço dos trabalhadores chilenos nos deram uma grande alegria, evitando uma tragédia. Mas isso não altera, infelizmente, a regra: o capitalismo mata. Para que novas vidas não se percam, é preciso enterrar esse sistema.