Cazuza: um pouco família demais

`FotoCoincidência ou não, o tema da família também está no centro da polêmica em torno do filme Cazuza: o tempo não pára, dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho. O filme narra a trajetória de Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, entre 1981, quando ele começa a fazer sucesso como líder da banda Barão Vermelho e 1990, quando morre, aos 32 anos, em decorrência da Aids.

No filme, a “questão familiar” entra, em primeiro lugar, pelas opções feitas pela diretora. Como declarou na imprensa, Werneck optou por fazer um filme que pudesse ser visto pela “família inteira”, ou seja, que não fosse restrito para menores de 18 anos. Essa opção – ou seja, esse exercício um tanto absurdo de auto-censura – resultou num Cazuza “um pouco família demais”, o que chega a ser uma contradição em termos, se levarmos em conta a personalidade e a trajetória do cantor.

Por outro lado, o tema da família também está no centro da trama, na medida em que o filme foi baseado no relato de Lucinha Araújo, mãe do cantor, e, de certa forma, privilegia este aspecto de sua vida.

Não é o caso de dizer que o filme mente ou tenta amenizar as muitas que o cantor – que se definia como “um pequeno burguês sem-vergonha” – aprontou. Pelo contrário. Há muito álcool, drogas e sexo nas telas. Mas principalmente o sexo é apresentado de uma forma quase casta. Totalmente distante do que acontecia entre uma parte significativa dos jovens no início dos anos 80, marcados pela efervescência libertária que acompanhava a derrocada da ditadura e pela inexistência (pelo menos de forma pública) da epidemia da Aids.

Além disso, foram muitos os que apontaram para a ausência de relacionamentos importantes na vida do cantor, como o namoro com Ney Matogrosso, que foi totalmente deletado da história.

Retrato de uma geração, em ritmo de urgência

À frente de uma das principais bandas do “rock” brasileiro e, depois, protagonista de uma bem-sucedida carreira solo, Cazuza, de qualquer forma, merecia ter sua história contada nas telas. Não só pela figura que foi, mas principalmente por ter sido expressão, distorcida, de toda uma geração.

Não por acaso, a primeira cena que vemos no filme é a do Circo Voador, a tenda que abrigou jovens que vivendo entre o chamado “desbunde” e o questionamento dos valores políticos e comportamentais da época rompeu com padrões, fez circular idéias de mudanças estéticas e políticas e, na sua maioria, viu seus sonhos se desfazerem no final dos anos 80, com a campanha “do fim das ideologias” que acompanhou a queda do Muro de Berlim, a derrota de Lula para Collor, em 1989, a rápida propagação da Aids e o giro conservador que acompanhou tudo isso.

Talvez o aspecto mais positivo do filme seja o ritmo de urgência que os diretores deram ao seu relato. Tudo é muito acelerado. A câmera se move como num documentário. As músicas se sucedem como num show, indo desde os primeiros sucessos como Um dia nascer feliz, passando pela explosão no Rock in Rio de 1985, até sucessos como Bete Balanço e Exagerado.

Criando versos que marcaram época, Cazuza foi fruto e vítima de uma época marcada pelas buscas, por descobertas, por uma paixão meio desenfreada e irresponsável à vida. E, talvez, seja um pouco mais de paixão e menos família que falte ao filme de Werneck e Carvalho.

Post author Wilson H. Silva, da redação
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