Caso Vargas: Sai ou não sai?

Vargas é acusado de envolvimento ilícito com o doleiro Youssef para enriquecer através de fraudes em contratos com o Governo

O “Caso Vargas” é um exemplo de como a corrupção da burocracia que administra os negócios do Estado é parte carnal do sistema capitalista

Depois de anunciar sua renúncia da Câmara dos Deputados, André Vargas aparamente mudou de idéia. Poucas horas depois, dizia a imprensa que iria ficar no Congresso. O deputado está no centro de mais um escândalo de corrupção envolvendo deputados petistas. Dessa vez, Vargas é acusado de favorecimento ao doleiro Alberto Youssef.
Um quadro ascendente do partido e vice-presidente da Câmara, Vargas frustrou  as esperanças do governo de encurtar o escândalo que ameaça seriamente desgastar o PT.Lembremos que o partido já se encontra enrolado com outro escândalo, os das maracutais da Petrobras.
 
O “Caso Vargas” começou com um passeio de jatinho emprestado pelo doleiro ao deputado. Youssef é empresário, dono de hotéis e empresas com contratos firmados com a Petrobras que, acredita-se, sejam fraudados. Ou seja, o caso Vargas poderia dar ainda mais dor de cabeça ao governo Dilma, enrolada com as explicações sobre a compra superfaturada da refinaria de Pasadena. Interceptações da Polícia Federal também mostram relações de favorecimento de Vargas a Youssef em contratos junto ao Ministério da Saúde. O doleiro foi preso pela “operação lava a jato” da PF.
 
O “Caso Vargas” revela muito das transformações que o PT enfrentou nos últimos anos, especialmente após chegar ao governo federal há 11 anos.  Uma vez no Estado, muitos dos quadros do partido tornaram-se elos entre lucrativos contratos públicos entre empresários e os mais diversos órgão e níveis do Estado capitalista. Em troca, garantem vultuosos financiamentos dessas empresas às campanhas eleitorais.  A velha corrupção que imperava nos governos anteriores, como nos tempos de FHC, é agora administrada por quadros do Partido dos Trabalhadores. Mas as transformações do PT e de seus quadros não param por aí.
 
Muitos dirigentes do partido se aproveitaram de suas novas posições no Estado para também se associar a negócios capitalistas ou montar suas próprias empresas. É bastante conhecido, por exemplo, o caso dos Fundos de Pensão, hoje, administrados por dirigentes do PT. Ex- sindicalistas comanda fundos como a Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobras), entre outros.  Tais fundos têm uma presença significativa no mercado financeiro e também compõe os conselhos administrativos de inúmeras empresas de suma importância, inclusive antigas estatais como a Vale, onde a Previ tem quase 15% das ações. Ao todo são 46 empresas em que a Previ investe. Entre elas estão a CPFL Energia (31,01%), BRF alimentos (12,19%), Forjas Taurus, armamentos (24,4%), Fiago, uma Holding com grande participação na Telemar Participações S/A (51%); Suípe, Administra a Costa do Sauípe, um dos maiores resorts brasileiros no litoral norte da Bahia (100%); Embraer (7,83%); Tupy, referência no mercado mundial de componentes em ferro fundido (35,6%); Invepar, empresa de infraestrutura rodoviária e de transporte. Administra, entre outras concessões, o Metrô Rio (RJ) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP). (25,56%).
 
O aparelhamento dos fundos de pensão pelo PT explicita o aprofundamento de um processo que ocorre há alguns anos: a transformação de sindicalistas burocratas em gestores diretos do capital. Mas a gestão dos fundos de pensão é apenas uma das pontas deste processo. Outra delas são empresas de consultorias e de serviços montadas por dirigentes do partido. Um exemplo clássico foi a empresa de consultoria criada por Luis Gushiken, ex-ministro de Lula que faleceu em 2013. O histórico quadro da “Articulação” se destacou em fazer com que a Previ aderisse a consórcios de corporações estrangeiras em leilões do setor siderúrgico, elétrico e de telefonia nos tempos da privataria tucana.  Outro exemplo foi José Dirceu que, uma vez fora do governo, se tornou um mega lobista atuando em mediações entre empresários e contratos com empresas estatais.
 
Também há outros exemplos menores. Em entrevista ao Opinião Socialista no ano passado, o ex-diretor da Petrobras, Ildo Sauer, sugeriu que muitas das empresas que terceirizam mão de obra na Petrobras são de petistas.
 
Todo este processo nos leva a uma comparação inevitável com o surgimento da chamada “boliburguesia” venezuelana. Na Venezuela, não só as multinacionais do petróleo seguem mandando na economia, como surgiram novos setores que compõe a classe dominante: a “boliburguesia”. Esse setor surge a partir de ações parasitas e da corrupção do Estado, agindo como intermediários dos seus negócios com empresas privadas e multinacionais. Outros ainda enriquecem a partir da especulação da crise inflacionária vivida no país. O PT ainda não criou sua “boliburguesia”. Todavia, muitos de seus quadros não sobrevivem apenas dos salários que recebem nos cargos que ocupam no Estado ou nos gabinetes parlamentares. Muitos já se associaram naquilo que podemos denominar de PT S.A. 
 
O “Caso Vargas” é um exemplo de como a corrupção da burocracia que administra os negócios do Estado é parte carnal do sistema capitalista.  Ao optar em administrar esse Estado e fazer parte de tudo isso que está aí, o resultado para o PT não poderia ser diferente.