Carta de James Petras ao general norte-americano Petraeus

O sociólogo norte-americano James Petras escreveu, recentemente, uma carta ao seu conterrâneo e quase homônimo general David Howell Petraeus. As semelhanças param por aí. Patraeus é o comandante da Força Multinacional do Iraque, nomeado em votação unânime pelo Senado dos estados Unidos, em janeiro de 2007.

Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Princeton, é chamado de “soldado intelectual”. O general dedica-se a atualizar o “manual militar de luta contra as insurreições”, guia para a nova estratégia norte-americana no Iraque.

Petras, o intelectual conhecido de esquerda, aproveita a semelhança de nomes e escreve uma carta ao general, tratando de “avisar-lhe” que os estados Unidos não são invencíveis nessa guerra.

Abaixo, publicamos a carta na íntegra. A tradução é de Marisa Carvalho.

Carta aberta ao general Petraeus

Por James Petras
9 de março de 2007

Soube pelos jornais Manchester Guardian, New York Times, Wall Street Journal e Washington Post que você tem impecáveis credenciais acadêmicas e no campo de batalha. Bush nomeou você “comandante das forças multinacionais no Iraque”, por isso tem o poder de implementar suas amplamente divulgadas teorias contra-insurgentes.

Você é quase meu homônimo por ter uma versão romanizada do meu nome helenizado (Petraeus/Petras). Você se intitula um “guerreiro” ou “intelectual contra-insurgente”. Eu tenho credenciais como um “intelectual insurgente” ou como diz Alex Cockburn, “um membro de cinqüenta anos na luta de classes”. Seus publicitários anunciam você como “a última boa salvação (do império) da América no Iraque”. Profeticamente os democratas do Congresso, liderados pelo senador Clinton, ajoelharam-se em louvor e apoio ao seu profissionalismo e recorde de guerra no norte do Iraque. É preciso reconhecer que você desfruta de uma vantagem: o apoio de ambos os partidos, da Casa Branca, do Congresso e da mídia. Mas, como um intelectual insurgente, não estou convencido de que você irá ou deve ser bem sucedido em salvar o Iraque para o império. Melhor dizendo: penso que você indubitavelmente falhará, porque suas estratégias militares e arrogância estão baseadas fundamentalmente em análises políticas imperfeitas, que têm conseqüências militares profundas.

Comecemos pelos seus muito vaidosos sucessos no norte do Iraque – especialmente na província de Nineveh. O norte do Iraque, particularmente Nineveh, é dominado por militares curdos, líderes tribais e chefes de partidos. A relativa estabilidade da região tem pouco ou nada a ver com a sua façanha contra-insurgente e mais a ver com o alto grau de “independência“ ou “separatismo” curdo na região. O apoio militar e financeiro dos EUA e de Israel ao separatismo curdo criou de fato um Estado curdo independente, baseado na brutal purificação étnica de amplas parcelas de cidadãos turcos e árabes. General Petraeus, ao permitir as aspirações curdas por um etnicamente purificado “Grande Curdistão”, invasor de Turquia, Irã e Síria, você resguarda a lealdade das milícias curdas e especialmente das “forças especiais” Peshmerga em eliminar a resistência à ocupação dos EUA em Nineveh. Mais ainda, o Peshmerga forneceu aos EUA unidades especiais para infiltrar em grupos da resistência iraquiana, para provocar brigas internas através de incidentes de terrorismo contra a população civil. Em outras palavras, o “sucesso” do general Petraeus no norte do Iraque não pode ser replicado no resto do país. Na verdade seu grande sucesso em “esculpir” o Iraque dominado pelos curdos agravou as hostilidades no resto do país.

Sua teoria de “segurar e resguardar” o território presume uma força militar altamente motivada e confiável, capaz de compreender a hostilidade de pelo menos 80% da população colonizada. O problema é que a moral dos soldados dos EUA no Iraque e daqueles escalados para serem enviados é muito baixa. A fila daqueles que estão procurando uma saída rápida do serviço militar agora inclui soldados de carreira e oficiais não comissionados – a espinha dorsal dos militares (Financial Times, março 3-4, 2007, p.2). Afastamentos não-autorizados cresceram rapidamente – 14 mil entre 2000 e 2005 (FT ibid). Em março, mais de mil soldados e marines na ativa e na reserva enviaram uma petição ao Congresso pela retirada dos EUA do Iraque. A oposição de generais da ativa e da reserva à escalação de tropas por Bush chega até as filas de “resmungos” de baixo, especialmente entre reservistas na ativa cujo período no Iraque tem sido repetidamente estendido. Desmoralizantes estadias prolongadas ou rápida rotação minam qualquer esforço de “consolidar laços” entre oficiais americanos e iraquianos e certamente minam a maioria dos esforços para ganhar a confiança da população local. Se as tropas dos EUA estão profundamente perturbadas pela guerra no Iraque e crescem a deserção e a desmoralização, menos confiável é o exército mercenário iraquiano. Os iraquianos recrutaram com base na fome e no desemprego (causados pela guerra dos EUA), com laços de parentesco, étnicos e nacionais por um Iraque livre e independente, o que faz dos soldados pouco confiáveis. Todo especialista sério concluiu que as divisões na sociedade iraquiana são refletidas na lealdade dos soldados.

General Petraeus, conte suas tropas todo dia, porque um pouco mais delas serão extraviadas e talvez no futuro você encontrará um campo de treinamento vazio ou, pior, uma revolta de caserna. As altas e contínuas taxas de perdas entre soldados americanos e civis iraquianos durante seu primeiro mês como comandante sugerem que “segurar e resguardar” Bagdá falhou em alterar a situação global.

Petraeus, seu “livro de regras” prioriza “segurança e divisão de tarefas como um meio de dar poderes a civis e incitar a reconciliação nacional”. “Segurança” é ilusório porque o que o comandante dos EUA considera “segurança” é o livre movimento das tropas americanas e seus colaboradores, baseado na insegurança da maioria iraquiana colonizada. Os iraquianos estão sujeitos a buscas arbitrárias de casa em casa, invasões e humilhantes buscas e prisões. “Dividir tarefas” com um general americano e suas forças militares é um eufemismo para a colaboração iraquiana na “administração” de suas ordens. “Dividir” envolve uma relação de poder altamente desigual: os EUA ordenam e os iraquianos obedecem. Os EUA definem a “tarefa” como informar sobre insurgentes e a população deve prover “informações” sobre suas famílias, amigos e compatriotas, em outras palavras, traindo seu próprio povo. O que parece mais praticável em seu manual do que na realidade.

“Dar poder a civis”, como você argumenta, admite que aqueles que “concedem” desistem do poder em nome de outros. Em outras palavras, os militares americanos cedem território, segurança, recursos financeiros e alocação a um povo colonizado. São precisamente essas pessoas que protegem e apóiam insurgentes e se opõem à ocupação americana e seu regime fantoche. Aliás, comandante, o que você realmente quer dizer é “dar poder” a uma pequena minoria de civis que são colaboradores de um exército invasor. A minoria civil “empossada” por você irá requerer uma pesada proteção dos militares americanos para suportar as retaliações. Até agora nada desse tipo ocorreu: a nenhuma vizinhança de colaboradores civis foi delegado real poder e aqueles que receberam estão mortos, escondidos ou em fuga.

Petraeus, seu objetivo de “reconciliação nacional” presume que o Iraque existe como uma nação soberana. Esta é uma precondição para a reconciliação entre partidos em guerra. Mas a colonização do Iraque pelos EUA é uma ruidosa negação das condições para reconciliação. Apenas quando o Iraque se libertar de você, comandante Petraeus, de seu exército e das ordens da Casa Branca os partidos em guerra poderão negociar e procurar uma “conciliação”. Apenas grupos políticos que se baseiam na soberania popular iraquiana podem ser parte desse processo. De outro modo, você estará falando de uma imposição militar de “reconciliação” entre grupos que colaboram com a guerra, sem legitimidade entre os iraquianos.

Antiga defensora de Bill Clinton, Sarah Sewall (ex-deputada assistente da secretaria de defesa e “especialista em assuntos externos” por Harvard) esteve absorta com sua nomeação. Ela alega que a “inadequada proporção de tropas” pode minar sua estratégia (Guardian, 6 de março de 2007). A “proporção de tropas” forma a base da crítica dos senadores democratas Hillary Clinton e Charles Schumers à política de Bush no Iraque. A solução deles é “mandar mais tropas”. Este argumento pede a questão: números inadequados de tropas refletem o quanto a oposição popular à ocupação americana é massiva. A necessidade de melhorar a “proporção” (maior número de tropas) está relacionada ao nível de oposição das massas e tem relação direta com o crescimento do apoio da vizinhança à resistência iraquiana. Se a maioria da população e a resistência não se opusessem aos exércitos imperiais, então qualquer proporção seria adequada – até umas poucas centenas de soldados perambulando pela “zona verde”, a embaixada americana ou alguns bordéis locais.

As regras do seu manual tomam emprestado da era da Guerra do Vietnã, especialmente a doutrina contra-insurgente do general Creighton Abrams. Ele ordenou uma vasta campanha de agressão química contaminando milhares de hectares com o mortal “agente laranja” para “limpar” o terreno contestado. Ele aprovou o “Plano Phoenix” – o assassinato sistemático de 25 mil líderes para “limpar” os insurgentes locais. Abrams implementou o programa de “lugarejos estratégicos”, a re-alocação forçada de milhões de camponeses vietnamitas em campos de concentração. Ao final os planos de Abram’s de “limpar e segurar” falharam porque cada medida estendeu e aprofundou a hostilidade popular e aumentou o número de recrutas do exército vietnamita de liberação nacional.

Petraeus, você está seguindo a doutrina de Abrams. Bombardeios em larga escala nas densamente povoadas vizinhanças de Sunni aconteceram entre 5 e 7 de março; prisões em massa de líderes locais suspeitos são acompanhadas de cercos militares a vizinhanças inteiras, enquanto arbitrárias e abusivas buscas de casa em casa transformam Bagdá em um grande campo de concentração. Como o seu antecessor, general Creighton Abrams, você quer destruir Bagdá para salvá-la. Na verdade sua política é meramente punir os civis e aprofundar a hostilidade da população da capital, enquanto os insurgentes misturam-se à população ou chegam às províncias próximas de Al-Anbar, Diyala e Salah e Din. Petraeus, você esquece que pode “segurar” um povo refém com veículos blindados, mas você não pode estabelecer normas com armas. A falha do general Abrams não foi exatamente por causa da falta de “desejo político” nos EUA, como ele reclamou, mas porque “limpar” a região é temporário, porque a resistência é fundada em sua capacidade de se misturar ao povo.

Suas fundamentais (e falsas) suposições são de que o “povo” e os “insurgentes” são dois grupos distintos e opostos, que suas forças terrestres e os mercenários iraquianos podem distinguir e explorar essa divergência e “limpar” os insurgentes” e “segurar” o povo. A história de quatro anos da invasão, ocupação e guerra imperial dos EUA propicia uma ampla evidência do contrário. Com mais de 140 mil soldados americanos e quase 200 mil iraquianos e 50 mil mercenários estrangeiros inaptos a derrotar a resistência durante os quatros anos de guerra colonial, a evidência é de um apoio muito forte, extensivo e sustentado dos civis à resistência. A alta proporção de civis mortos como insurgentes pela combinação dos exércitos mercenário e americano sugere que suas próprias tropas não têm sido aptas em distinguir (ou não estão interessadas na diferença) entre civis e insurgentes. A resistência tem forte apoio de extensos laços de parentesco, amigos e vizinhos, líderes religiosos, nacionalistas e patriotas: estes primários, secundários e terciários laços atam a resistência à população de uma maneira que não pode ser repetida pelos militares americanos ou seus políticos fantoches.

General, você já reconheceu depois de apenas um mês como comandante que o seu plano de “proteger e defender” a população civil está falhando. Enquanto você inunda as ruas de Bagdá com veículos blindados, você admite que as “forças antigoverno estão se reagrupando no norte da capital”. Você está condenado a fazer o que o general Robert Gaid chamou sem poesia de “eliminar uma verruga: os insurgentes serão retirados de uma área apenas para ressurgir em outro lugar”.

É presunção assumir, general, que a população civil iraquiana não sabe que as forças de “operações especiais” da ocupação, com as quais você está intimamente ligado, são responsáveis por muito do conflito étnico e religioso. Em seu detalhado exame de documentos, o jornalista investigativo Max Fuller insiste que a vasta maioria das atrocidades atribuídas às “más” milícias xiitas e sunitas “foram na verdade trabalho dos comandos das ‘forças especiais’, controladas pelo governo e treinadas pelos americanos, planejadas pelos americanos e executadas amplamente por antigos agentes da CIA” (Chris Floyd, Ulster no Eufrates: a guerra suja anglo-americana, www.truthout.org/docs.2006/021307J.sthml). Suas tentativas de jogar “bom tira/mau tira” no lugar de “dividir e ordenar” não foram bem, nem serão sucedidas agora.

Você reconheceu o amplo contexto político da guerra! “Não há solução militar para um problema como o do Iraque, para a resistência… No Iraque, a ação militar é necessária para ajudar a melhorar a segurança… mas não é suficiente. É preciso haver um aspecto político” (BBC, 8/3/2007). Mas o “aspecto político”, tal como você coloca, é a redução, não a escalada das tropas americanas, o fim dos infindáveis assaltos a vizinhanças civis, o término das operações especiais e dos assassinatos planejados para fomentar o conflito étnico-religioso, e acima de tudo um cronograma para a retirada das tropas e o desmonte das bases militares americanas. General Petraeus, você não deseja ou está em condições de implementar ou planejar o apropriado contexto político para acabar com o conflito. Sua referência à “necessidade de conversar com alguns grupos de insurgentes” irá cair em ouvidos moucos, ou será visto como uma continuação das táticas de dividir e conquistar, que já falharam em atrair qualquer setor da resistência. Ao contrário de suas impecáveis credenciais acadêmicas contra-insurgentes de Princeton/West Point, você é sobretudo um especialista em táticas, sábio na técnica, mas um pouco medíocre para enfrentar seriamente a “descolonização” político na qual suas táticas podem funcionar.

Comandante Petraeus, você é rápido para compreender a dificuldade de sua missão colonial. Apenas um mês depois de assumir o comando, você está engajado no mesmo sofismo e duplo discurso de qualquer coronel “bush”. Para manter o fluxo de fundos e tropas de Washington, você fala em “redução de assassinatos e descontentes em Bagdá”, habilmente omitindo o aumento de mortes de civis e americanos em todos os lugares. Você menciona uns “poucos sinais encorajadores”, mas também admite que é “muito cedo para discernir tendências significantes” (Al-Jazeera, 8/3/2007). Em outras palavras, os “sinais encorajadores” não têm nenhuma importância!

Você já deu a si mesmo uma missão sem final preciso, ao prolongar o tempo necessário para impor suas medidas de segurança em Bagdá, que de dias e semanas passou a meses (ou quem sabe anos?). Por acaso não se trata de uma tímida maneira de preparar os políticos dos EUA para uma longa guerra… com poucos resultados positivos? Não há nada de mau em que um filósofo guerreiro se proteja prevendo seu fracasso.

General, estou seguro de que como intelectual militar você tenha lido 1984, de George Orwell, porque você é um especialista em duplo sentido. Em um suspiro diz que “não existe uma necessidade imediata de pedir que se enviem mais tropas americanas ao Iraque” (sem contar as 21.500 que já estão a caminho) e, no seguinte, pede 2.200 militares adicionais para que assumam as próximas prisões massivas de suspeitos civis em Bagdá.

Enquanto fala “com franqueza” no presente do indicativo sobre o número de soldados em sua guerra, prepara terreno para uma escalada maior no futuro: “Neste momento não vemos a necessidade de mais tropas. Mas isso não quer dizer que não façam falta para alguma missão que se apresente ou alguma tarefa que apareça e, se é assim, as pediremos” (Al-Jazeera, 8/3/2007). Primeiro algo se apresentará, logo fará falta uma missão e, antes de nos darmos conta, haverá outros 50 mil soldados sobre o terreno neste moinho de carne que é o Iraque.

Sim, general, você é um mestre em duplo sentido, mas acima de tudo isso, está condenado a transitar, junto com seus colegas da Casa Branca e do Congresso, pelo mesmo caminho da derrota político-militar de seus antecessores no Vietnã. Sua polícia militar prenderá milhares de civis e talvez muitos mais. Serão interrogados, torturados e é possível que algum diga o que não deveria. Mas muitos mais ocuparão seus lugares. Sua política de segurança através da intimidação só poderá manter-se enquanto os carros blindados apontem com seus canhões para cada edifício. Mas por quanto essa situação poderá se manter? Tão rapidamente como se deslocam, os membros da resistência regressarão: podem agüentar meses e anos, porque vivem e trabalham ali. Você não pode, general. Você dirige um custoso exército colonial, que sofre baixas intermináveis. Cedo ou tarde, o povo americano o obrigará a ir-se.

Sua ambição, general Petraeus, é maior que sua capacidade. Mas lhe seria útil começar a preparar seu adeus às armas e procurar um posto de maior importância em Washington. Lembre que suas oportunidades são escassas: apenas os generais vencedores ou aqueles que fogem do serviço militar chegam a presidentes. Mas haverá sempre um posto de professor na Kennedy School de Harvard para o “guerreiro intelectual” que é bom com os livros, porém um desastre no campo de batalha.