Carta Aberta aos Companheiros(as) do Comitê Baiano da Campanha contra a ALCA Salvador, 29 de ag

Companheiros(as),
Recorro a este espaço não para estabelecer um debate em torno dos
encaminhamentos da Campanha Contra a ALCA na Bahia, mas para fazer um
protesto quanto à condução do plebiscito, especialmente no que tange a
vitoriosa passeata que realizamos ontem à tarde pelas ruas de Salvador.
Em primeiro lugar gostaria de salientar que participo da Coordenação
Estadual da Campanha contra a ALCA não apenas como dirigente sindical do
ANDES-SN, que fui até junho deste ano, ou da ADUNEB-Ssind, mas
principalmente como militante e dirigente do PSTU que me deu a tarefa de
junto com outros companheiros do partido ajudar na organização do plebiscito
no nosso estado. Para que todos saibam, o PSTU foi o único partido que
esteve presente em todo o período de construção da campanha, quer seja nas
plenárias nacionais, estaduais, ou nas diversas reuniões de militantes e
lideranças que em cada canto do país firmaram o compromisso de dizer não a
ALCA. Ao contrário do PT que se retirou da campanha por discordar das
perguntas ou do PC do B que se saiu e depois retornou à Coordenação do
plebiscito, o nosso partido, em unidade na luta com outras correntes e
organização diversas, inclusive do PT, sempre primou pela compreensão de que
a luta contra a ALCA é um pressuposto essencial da luta contra o
imperialismo. Ainda que muitos companheiros discordem que tais lutas devam
ensejar também a idéia do socialismo, não podemos ser acusados de
desrespeito aos fóruns legítimos da Coordenação que definiram os rumos da
campanha e produziram o material de divulgação. Apesar disso, ainda fomos
vetados em diversos eventos sob o pretexto de que éramos candidatos, ou,
pasmem vocês, por defendermos o socialismo ou discordarmos de Lula em
relação às suas posições quanto à dívida externa, o FMI ou a própria ALCA
que o candidato admite “em outros termos“. Ora, no dia em que ao utilizarmos
a fala não pudermos discordar de um companheiro quanto às suas posturas de
capitulação perante a burguesia e o capital internacional, então preferimos
não falar. De outro lado seria impossível para qualquer pessoa tratar de um
tema e não expressar sua visão de mundo e a nossa visão de mundo é
socialista, por isso defenderemos essa bandeira até o fim. Apesar disso,
muitos companheiros candidatos, ou com mandatos, seguiram fazendo palestras
diversas sobre a ALCA sem sequer passar pela Coordenação da Campanha.
Queremos deixar bem claro que não somos contra qualquer pessoa falar ou
proferir palestra contra a ALCA. Muito pelo contrário, gostaríamos
sinceramente que todos os candidatos do PT e do PC do B fizessem isso,
inclusive os majoritários deste partido que nunca passaram na Coordenação
nem sequer para saudar aos militantes que tocam a Campanha. O que lamentamos
é que os pesos e as medidas eram diferentes para nós e para esses partidos,
pois nós não podíamos falar, sendo sistematicamente boicotados, enquanto os
outros companheiros seguiam fazendo inúmeras palestras com seus candidatos e
seu material de campanha em diversos espaços sem o conhecimento da
Coordenação que nem sequer podia aproveitar dessas ocasiões para criar
comitês e possibilitar a realização do plebiscito. Por isso registramos os
nossos protestos e assim pudemos fazer algumas palestras sobre a ALCA, mesmo
sendo candidato. Apesar disso, quem quer que tenha presenciado uma palestra
nossa não poderá nos acusar de utilizarmos daquele espaço para fazer
campanha do PSTU, o que, diga-se de passagem, todos os companheiros de
outros partidos fizeram, o que é legítimo, apenas não fizemos nossa campanha
(não soltamos praguinhas, nosso material e nem sequer dissemos que éramos
candidatos) porque tínhamos o material da própria campanha contra a ALCA
para soltar e, como não privilegiamos a via eleitoral, senão a organização
dos trabalhadores contra o capitalismo, optamos por secundarizar as eleições
em função da luta maior contra a ALCA.
Assim seguimos fazendo a campanha contra a ALCA junto com a Coordenação e
com todas as organizações que se dispuseram a organizar a consulta. Acontece
que organizamos uma passeata contra a ALCA para o dia 23/08, que depois foi
adiada para o dia 28/08. Esperávamos que este fosse o ponto culminante da
campanha, o que realmente foi, apesar dos furos na divulgação e do número
reduzido de pessoas, cerca de 1.000. Na organização da passeata o PSTU
também esteve presente, mas na condução do carro de som não nos importamos
que outros companheiros de outros partidos e organizações fizessem o uso da
palavra e por isso não disputamos aquele espaço com ninguém. Ocorre que,
como tem sido praxe em diversas manifestações, fomos sendo “cozinhados“ na
passeata e a nossa fala foi sendo protelada. Registre-se que os únicos
candidatos presentes para cargos majoritários no estado (salvo algum
engano), éramos eu e o companheiros França, candidato ao senado pelo PSTU.
Aguardávamos a chegada à Praça da Sé para faze uso da palavra, quando
finalmente fomos informados que apenas as entidades nacionais poderiam
falar. Eu poderia me alongar em muitas outras linhas para provar como tem
sido prática dos nossos “companheiros“ tomarem esses procedimentos. Apenas
para citar dois casos, lembro da passeata pela cassação de ACM, em que
estivemos presentes e no último momento, na passeata até a Praça Castro
Alves com um trio elétrico, tivemos a palavra cassada, mesmo estando
representando uma entidade nacional, o ANDES-SN e estando em cima do trio
elétrico. Alguns dias antes o companheiro Barela, do Rio Grande do Sul,
enviado da Coordenação Nacional dos SPF`s, também havia sido impedido de
falar na passeata até a Barra. Portanto não foi a primeira e nem será a
última vez que teremos nossa voz calada, mas ela continuará a ecoar, pela
boca daqueles que exigem a presença do PT na Campanha contra a ALCA, ou
daqueles que a cada dia abrem os olhos para a capitulação de suas direções e
se dispões a ingressar no PSTU. Gostaríamos de saber se caso o candidato
majoritário do PT estivesse presente, se ele não falaria? É claro que
falaria e nós mesmos defenderíamos o seu direito de falar como legítimo
postulante a um cargo público como representante da classe trabalhadora.
Entretanto o tratamento que temos dado aos companheiros do PT ou do PC do B,
não é o mesmo que temos recebido, pois já fomos impedidos de falar em
diversas ocasiões e quando colocamos isso para a base, há um profundo mal
estar perante suas direções burocráticas. Apesar de discordamos por
princípio da posição que tomaram nesta eleição de se aliar com setores da
grande burguesia no Brasil, e de rebaixar profundamente seu programa
eleitoral, isso para não falar da aceitação dos apoios de adesistas
históricos como Itamar Franco (ex-vice de Collor) ou José Sarney (lembram
dele?), não confundimos suas direções com a base, que seguem lutando pelo
socialismo e presentes nos espaços da ação direta e da luta política mais
geral.
Desconfiamos mesmo que a postura desses partidos de isolar o PSTU visa
cessar o debate que temos travado no interior dos movimentos sociais. Debate
este que transformado em denúncia expõe para os trabalhadores os riscos de
acreditarmos que os “pactos sociais“ ou a “grande conciliação nacional“
interessa à maioria dos explorados. Os argentinos e o restante da América
Latina já descobriram que os governos de Frente Popular só lhes trarão o
agravamento das situações a que estão sendo submetidos. E o pior de tudo
isso é que apesar da revolução que vive a Argentina, a esquerda
revolucionária é muito pequena para dar conseqüência aos anseios das massas
e as burocracias estão sucumbindo perante a falência de suas políticas
entreguistas. Não achamos que somos os únicos revolucionários e por isso
chamamos todos os companheiros da esquerda a romperem com o PT e com o PC do
B e construírem um partido socialista e revolucionário. O PSTU seguirá na
luta, apesar das burocracias, apesar dos reformistas, afirmando que um mundo
socialista é possível, sem medo de errar!

Carlos Zacarias F. de Seana Júnior