Carandiru: o obscuro desejo de não ver para não mudar

Carandiru, filme de Hector Babenco, o mesmo diretor de Pixote – A Lei do Mais Fraco, vai participar da competição oficial do Festival de Cannes. É a terceira vez que Babenco disputa a Palma de Ouro – concorreu com O Beijo da Mulher Aranha (1985) e Coração Iluminado (1998). Se continuar obtendo a aceitação dos dois primeiros fins de semana (1,5 milhão de espectadores), o filme baseado no livro Estação Carandiru, de Dráuzio Varella, deve bater o recorde de bilheteria pós-Collor, que é de Cidade de Deus, com 3,2 milhões de ingressos

`FotoCarandiru não é apenas um filme. É uma obra publicitária total: trailer na TV, outdoor, livro de fotos da filmagem, entrevistas em todos os veículos possíveis antes, durante e depois das filmagens. O filme só existe, pelo menos agora, após a mensagem. Comecemos por ela: no outdoor, sobre o amontoado de presos agachados depois de “controlada” a rebelião, uma pergunta retórica — “Aqui dentro ninguém é culpado. Você acredita nisso?” Por que essa pergunta retórica no “convite” para o público assisti-lo? Uma possível resposta: para atrair gente de esquerda e de direita, gente que apoiou e que condenou a morte dos 111 (ou mais) presos naquele outubro de 1992, nada melhor que indicar uma posição conservadora ou mesmo reacionária (exigência do mundo da mercadoria). Se são de fato culpados, talvez tenham mesmo merecido o que ocorreu. O filme de Hector Babenco acaba, voluntariamente, reproduzindo o discurso de Dráuzio Varella, uma das mais conservadoras visões do massacre produzidas. Entre tantos relatos sobre a vida no Carandiru (a música épico-trágica dos Racionais, Diário de um Detento, o livro homônimo de Jocenir, autor da letra, o conto Pavilhão 9, de Hosmany Ramos, as autobiografias de presos como Sobrevivente André du Rap), Babenco escolheu o de Dráuzio. Direito inequívoco seu. Pena que não conseguiu superá-lo. Dráuzio parte de uma interpretação supostamente darwinista, de que os homens tendem a se comportar como primatas, e em grupo, acabam criando mecanismos de controle social que nada mais são do que registros ancestrais de comportamento regulados pela transmissão hereditária (genes). Isso explicaria tudo, mas, especialmente, o fato de aqueles 7.000 homens aceitarem a privação de liberdade e não romperem os portões da cadeira encravada na cidade. Embora demonstre simpatia pela trajetória particular de cada preso e se comova com o fato de o Estado não dar a assistência necessária, Dráuzio nunca questiona o Estado, o sistema prisional, seu real significado. Babenco deixa a ciência e os macacos de lado, mas também trata esse universo como algo “natural”. Desde os anos 1980, com a chegada ao poder de vários regimes neoliberais (Thatcher, Reagan e similares latino-americanos), o suposto “Estado-mínimo” neoliberal, na verdade, como defende o húngaro Isztván Mészáros, um Estado cada vez mais forte em defesa e proveito do capital, teve como contrapartida um fortalecimento do discurso da segurança e uma ampliação das condutas “criminalizáveis”. A conseqüência direta disso foi uma ampliação desproporcional do número de detentos. Num livro sobre como essa política foi gestada, e que tem no programa Tolerância Zero de Nova York seu mais forte “garoto-propaganda”, o francês Loïc Wacquant acredita que caminhamos para “uma ditadura sobre os pobres”. O aprisionamento como política de Estado reforçaria, na sua opinião, a pressão para que os mais pobres aceitassem empregos e condições de trabalho aviltantes. O Carandiru estava neste contexto em 1992, quando houve a rebelião, e no ano passado, quando foi demolido. Nada melhor que uma má narrativa para criar um tipo ideal. Em Gisele (1980), Denise Dumont vivia uma personagem que fazia uma viagem em direção ao “exotismo” do mundo rural brasileiro (a primeira cena é a de um cavalo cobrindo uma égua). Nessa trajetória, ela (perdoem qualquer exagero, cito de memória): 1. é seduzida por um parente; 2. transa com a tia; 3. transa com dois homens; 4. presencia uma chacina; 5. é estuprada; 6. transa com dois gays; 7. arruma uma namorada; 8. a namorada, politizada, é assassinada pela ditadura; 9. vê a cena em que o tio, grande proprietário rural, entra num banheiro com um menino — a insinuação é clara. Passa por tudo isso e nem muda o penteado. O Dráuzio do livro e o Dráuzio do filme são assim, uma espécie de Gisele passeando pelo Carandiru. A cada barbaridade que encontra, cometida pelo Estado ou pela ausência aparente e proposital dele, apenas repete a própria cara. As cenas finais, dele pegando o metrô com um leve sorriso depois do massacre, beiram o revoltante (além desse sorriso cínico, uma frase do livro ao final volta a insinuar que a “versão dos presos” não é totalmente digna de confiança, o que incrivelmente quase coloca em dúvida a própria existência desse holocausto; a ela, se segue a informação de que o Carandiru foi “finalmente” desativado, como se os problemas prisionais no país se limitassem a esse presídio e, portanto, estivessem resolvidos). Dráuzio encarna no livro e no filme o desejo de uma parcela supostamente “esclarecida” da sociedade brasileira, um desejo de se manter à distância do que ocorre dentro dos muros das prisões, ao mesmo tempo em que faz uma crítica oca do país. Essa visão tem de ser combatida, porque ela não leva nem mesmo ao respeito aos direitos humanos dos presos, quanto mais a mudanças substanciais na sociedade“

SAIBA MAIS SOBRE O MASSACRE

Na manhã do dia 2 de outubro de 1992 na Casa de Detenção do Carandiru, dois presos iniciam uma briga em um jogo de futebol. Agentes tentam apartar, mas são detidos. A briga dá início a um tumulto generalizado e os guardas perdem o controle do presídio. Na gíria carcerária, “a casa virou”.

O alarme é acionado e a PM chamada. Não há ameaça de fuga nem reivindicações. Com a chegada da polícia, presos começam a jogar estiletes para fora, mostrando que não resistiriam. Alguns prendem faixas pedindo trégua. O Coronel da PM Ubiratan Guimarães conversa com o Secretário de Segurança, que fala com o governador, Luis Antônio Fleury Filho. A tropa de choque invade com metralhadoras e fuzis. Ao final, 111 detentos estavam mortos.

Em 2002, o coronel Ubiratan Guimarães foi condenado a 632 anos de prisão pela morte de 102 pessoas. Ubiratan, que aguarda a decisão do recurso em liberdade e foi eleito deputado estadual, soltou a seguinte pérola: “Se minha intenção fosse matar, teriam morrido muito mais de 111”.

FONTE: DHnet – Rede de Direitos Humanos & Cultura

Post author Alexandra Collontini,
de São Paulo (SP)
Publication Date