Capitalismo, crise social e barbárie

Médicos cubanos são hostilizados ao desembarcarem no Brasil

Os episódios de xenofobia e racismo contra os médicos cubanos devem ser combatidos com todas as forças

Realizavan la labor

De desunir nossas mãos
E fazer com que os irmãos
Se mirassem com temor

(Pablo Milanés/Chico Buarque)

Que o programa “Mais Médicos” do governo Dilma não vai resolver o complexo drama vivido pela saúde pública no Brasil é um fato que qualquer mente mais esclarecida já deve ter percebido. Sem romper com a banca internacional e sem direcionar 10% do Orçamento para saúde pública, não há como começar a equacionar esse problema que, em primeiro lugar, afeta as famílias trabalhadoras que não dispõem de plano de saúde e se afogam nos “piscinões” de hospitais públicos sucateados e abarrotados. De feito, as mobilizações de junho, julho e agosto levantaram essas questões com absoluta clareza.

Aqui, no entanto, não pretendemos abordar uma vez mais esse tema, que tem sido objeto de inumeráveis controvérsias. Interessa-nos examinar um desdobramento desse processo, assinalando, em vermelho vivo, o seu caráter contraditório. É indiscutível que as entidades médicas (e não só elas) devem denunciar as manobras políticas do governo Dilma no que toca ao tema da saúde. Milhares de mulheres e homens de branco ganharam as ruas para revelar os limites e o oportunismo das propostas governamentais, episódio que deve ser devidamente registrado e saudado. Colateralmente, no entanto, surgiram manifestações de xenofobia, racismo e preconceito de classe que nenhum revolucionário pode tomar como uma coisa menor, sem importância, anotadas em curtas e secundárias linhas. Isso porque elas sugerem elementos de barbárie que devem ser rigorosamente combatidos.

Antes de mais nada, precisamos recordar que em momentos de crise social, não só sobressaem aspectos de bestialidade, mas eles tendem a se tornar mais agudos. Ora, o capitalismo é um sistema de produção internacionalmente organizado e, como tal, é responsável por uma brutal guerra social contra os trabalhadores e os pobres. Nesse contexto, a barbárie tende a ganhar muitos pontos e se inserir nos poros da sociedade com uma violência despida de qualquer piedade. É disso que se trata.

Nomear médicos cubanos, ou de qualquer outra parte do planeta, como “escravos”, “incompetentes” (como ocorreu no Ceará) ou dizer – como o fez uma jornalista do Rio Grande do Norte – que as médicas cubanas “tem uma cara de empregadas domésticas” sugerem não apenas xenofobia (por si só, algo muito grave), mas racismo e severa discriminação social. Assim como rejeitamos o servilismo ante os governos e os patrões (e por isso lutamos ao lado dos profissionais de saúde), refutamos igualmente a arrogância praticada contra trabalhadores. Nesses termos, estamos com Marx quando este afirmava que “um povo que oprime outro jamais será livre”.

Mais ainda: na medida em que a crise social se alastre, a tendência dos governos e dos patrões é de atirarem trabalhador contra trabalhador, dividindo-os e tornando mais fácil a vida dos seus inimigos. Estamos somente no começo de uma travessia. Desafios maiores e mais difíceis estão por vir. Esse horizonte exige a unidade e não a divisão dos trabalhadores. Exige igualmente o combate a todas as formas de exploração e opressão. Esse é um princípio cardinal. Nesse sentido, os episódios racistas, xenófobos e de hostilidade de classe contra trabalhadores negros, sobretudo, apontam em uma direção insensatamente errática.

Não podemos descartar o caráter reacionário de certas posturas que se direcionam particularmente contra a presença de médicos cubanos. Haveria atitude análoga em vista de uma migração provisória de médicos escandinavos ou norte-americanos? Pelo menos, não haveria aí certas nuances que agora não são observadas? Ideologicamente, não seria a imagem em inércia de uma Cuba “socialista” (constituída massivamente por negros e negras) que teria o poder de despertar regressões históricas traduzidas em uma ira retrógrada? Neste caso, boa parte dessa atitude tem o dom de travar o embate, menos com a sombra de um corpo vivo do que com o fantasma de um corpo já morto. A Cuba “socialista” é um espectro de um passado histórico que dorme entre escombros. Ao lutar contra o espírito de um corpo morto, no entanto, não estariam esses estratos sociais médios lutando contra os fantasmas que sempre os importunaram em noites de insônia? Sem acertar contas com a visão aterradora do seu próprio passado, esses setores dificilmente poderão vislumbrar as tarefas que estão colocadas. Já se disse que a história não dá nada gratuitamente. Está na hora de se pagar essa conta.

Trata-se de um problema complexo e vital, visto que os preconceitos típicos de camadas médias da sociedade, em momentos de polarização social intensa, tendem a se expressar com enorme força e visibilidade e tais tendências, se prosperam, podem representar um retrocesso ideológico dos mais repugnantes, até porque auxiliaria a barbárie imperialista em suas múltiplas encarnações. São modos cotidianos de uma sociedade capitalista apodrecida e que conduz essa putrefação para as diversas artérias da vida. Os elementos mais politicamente ativos da classe trabalhadora não podem aceitar a imposição de tais práticas; inversamente, devem enfrentá-las e apontar em outra direção em que a solidariedade entre os que lutam seja um princípio inquebrantável. Do contrário, seria endossar a barbárie capitalista em meio a uma crise social que só se aprofunda e da qual a crise da saúde é uma imagem dura, mas ainda assim parcial, de uma totalidade amplamente bruta: a do domínio do capital sobre os trabalhadores e o povo pobre.

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