Campanha contra a transposição terá conferência nacional

Ato em Brasília contra a transposição
José Cruz / ABR

O novo curso das águas: as perspectivas da luta contra a transposição do rio São Francisco após o jejum de dom Luiz CappioA luta de dom Luiz Cappio foi uma importante batalha para derrotar o projeto de transposição do rio São Francisco. O jejum de 23 dias, no fim do ano passado, conseguiu romper barreiras, conquistou uma grande repercussão política e colocou novamente em pauta (contra a vontade do governo) a luta contra a transposição.

Lula tentou demonstrar que o jejum era fruto de um ato isolado e até debochou do frei. Devido à intolerância, o presidente colocou a possibilidade real de a greve causar o falecimento de dom Luiz Cappio. Em 2005, o tom do governo foi mais cuidadoso pela proximidade das eleições.

A grande imprensa, por outro lado, não divulgou, por vários dias, o protesto do frei, nem as mobilizações de ribeirinhos que ocorriam em Sobradinho (BA). Só passaram a divulgar os fatos quando manifestações de solidariedade surgiram de todas as partes do Brasil e do mundo.

O governo insiste no projeto não para matar a sede do povo do Nordeste, mas para beneficiar empreiteiras e produtores agrícolas. Uma das favorecidas é a empresa Camargo Correa, vencedora da licitação do segundo lote de obras da transposição, no valor de R$ 213 milhões. A Camargo Correa foi a segunda maior doadora da campanha de Lula em 2006, com R$ 3,5 milhões.

Apesar de o governo não ter desistido das obras, a vitória do jejum está na experiência vivenciada com o governo por parte de dom Luiz Cappio e pelo movimento contra a transposição. A conclusão fundamental que deve ser tirada é sobre o papel reacionário cumprido pelo governo federal durante a greve de fome. Não há mais condições políticas e morais de confiar em Lula. Por isso, é necessário romper com o governo. Lula não vai negociar por vontade própria. Não vai suspender as obras, nem retirar o exército dos eixos. Só arquivará o projeto se for derrotado pelo movimento nas ruas, com mobilizações unitárias.

Há um imenso apoio à luta contra a transposição, mas é necessário transformar isso em ações que pressionem o governo e o façam recuar.

Conferência dos Povos do São Francisco e do Semi-Árido: que estratégia de luta deve ser adotada?
A ofensiva do governo com o início das obras e o envio de tropas do Exército no ano passado foi respondida com mobilizações e ações diretas organizadas pela Articulação Popular pelo São Francisco. São essas ações que efetivamente têm o poder de derrotar o projeto e é por isso que elas devem ser desenvolvidas, priorizadas e ampliadas.

A Articulação Popular tem realizado um grande trabalho de base com o desenvolvimento dos comitês populares de luta e a priorização das mobilizações para lutar contra o projeto. Esse caminho deve ser a prioridade do movimento contra a transposição.

Apesar da importância da batalha jurídica contra o projeto, seria um erro que ela tivesse mais importância nesse momento que a organização popular. A Justiça, assim como o Congresso e o Executivo, estão a serviço da burguesia e temos o exemplo concreto de que todas as ações nesses lugares foram derrotadas. Algo que ficou demonstrado no conjunto de processos que a Promotoria do São Francisco moveu durante todos esses anos para barrar o projeto. Todas foram derrubadas em última instância no Supremo Tribunal Federal, que liberou as obras no fim de 2007.

A audiência pública ocorrida no Senado Federal, no último dia 15, mostra mais uma vez o caráter de classe que possui esta instituição. Apesar da importante oposição feita pelo frei Luiz Cappio, pela atriz Letícia Sabatella e pelos atores Osmar Prado e Carlos Vereza, além de representantes da Articulação Popular, é preciso admitir que a audiência não terá efeito prático.

Na conferência da Articulação Popular a ser realizada de 25 a 27 de fevereiro em Pirapora (MG), é preciso ampliar a unidade existente pelo São Francisco, buscando organizar o imenso no Brasil gerado pelo gesto de dom Cappio e transformá-lo em ação prática através da expansão dos comitês de base nas universidades, nos sindicatos, nos movimentos sociais, etc.

Como estratégia de pressão popular sobre o governo, achamos fundamental iniciar a convocatória de um acampamento em Brasília, aos moldes do que foi realizado em janeiro de 2006, com a ampla participação das bases dos movimentos envolvidos. Em abril está previsto um dia de luta unificado de diversos movimentos populares e entidades sindicais contra as reformas do governo Lula, assim como o tradicional Abril Vermelho do MST. Acreditamos que essa data é uma grande oportunidade para impulsionar a campanha contra a transposição do São Francisco em todo o país.

A farsa da revitalização de Lula e do PSDB
Todos defendem a revitalização do rio São Francisco, até mesmo os defensores da transposição. No entanto, por trás de algumas posições expressadas contra o projeto, aparentemente em nome da revitalização, esconde-se uma armadilha para nosso movimento. A revitalização dos trabalhadores ribeirinhos e povos do semi-árido é bem diferente da proposta do governo, defendida pelo PSDB.

Governadores do PSDB como Aécio Neves (Minas Gerais) e Teotônio Vilela (Alagoas) têm se pronunciado contra a transposição somente no discurso, dizendo que desejam, em primeiro, lugar a revitalização para depois discutir a transposição. Na verdade, o que eles querem é negociar mais verbas do governo federal para seus governos, para depois se pronunciarem favoráveis ao projeto.

Se de um lado o governo Aécio exige a revitalização do rio, de outro favorece os verdadeiros culpados pela degradação ambiental do São Francisco. O governador implementa uma política de destruição ambiental completa do cerrado, assim como acaba aceitando os crimes ambientais causados por metalúrgicas, siderúrgicas, indústrias têxteis e produtores agrícolas da região.

Os projetos da revitalização defendido tanto pelo PSDB como pelo PT não servem para a população ribeirinha salvar as águas do Velho Chico. Ambos são apenas ações de pesquisas, atividades pontuais de educação ambiental e eternos diagnósticos da situação do rio.

Esses projetos não tocam nos verdadeiros culpados pela degradação do rio e não permitem a menor participação efetiva dos que vivem do São Francisco.

Post author Zé Andrade e Ana Thé, de Pirapora (MG)
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