Caixas-pretas não provam falha do piloto

Com base em suposições e possibilidades, a burguesia e o governo federal, muito bem assessorados pela grande imprensa, decretaram que a culpa pela tragédia com o Airbus 320 da TAM, que deixou 199 mortos, foi do piloto. A acusação é baseada na posição dos manetes – equipamento que define a potência das turbinas – que, segundo informações contidas na caixa-preta da aeronave, entregue ao Congresso Nacional na terça-feira, 31 de julho, não estariam na posição correta na hora do pouso. A partir daí, a conclusão nem tão óbvia foi de que o erro foi humano.

Entretanto, sequer os investigadores descartaram a hipótese de falha técnica. Segundo divulgou o jornal Folha de São Paulo, o brigadeiro Jorge Kersul, responsável pela investigação, disse que a indicação sobre a posição do manete poderia ter sido falha eletrônica. Ele também revela que, na caixa que registrou as vozes, podia-se “ouvir algo que o manete não sai do lugar, está enroscado”.

Tudo que Lula e as companhias aéreas queriam
Um réu morto: esta seria a melhor saída para uma tragédia que se dá em meio há uma crise do setor aéreo que já tem quase um ano e parece estar longe de se resolver. As coisas não são tão simples, contudo.

Da mesma forma que a caixa-preta indica a posição errada do manete, diversos fatos da realidade indicam que a possibilidade de falha técnica continua sendo grande. Isso se combina com o desprezo completo pela prevenção de acidentes aéreos.

O mesmo problema que causou a tragédia em São Paulo já aconteceu em pelo menos três outras situações: em Bacolod, Filipinas, em 1998; em Phoenix, Estados Unidos, em 2002; e em Taipei, Taiwan, em 2004. Apenas três pessoas morreram nestes acidentes, todas em Bacolod, atropeladas pela aeronave em solo. O fator determinante para minimizar os estragos dos acidentes foram as condições da pista e a área de escape no entorno da mesma.

Em Congonhas, nenhum desses fatores esteve presente. Uma coisa, porém, é certa: a pista abriu sem plenas condições de funcionamento, antes do fim da reforma que estava em curso, para beneficiar as companhias aéreas na alta temporada de inverno. Também se sabe que a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) recomendou o pouso sem um dos reversos em pistas molhadas quando até mesmo uma grande companhia, a Gol, havia proibido seus pilotos de fazerem essa operação.

No mesmo dia do acidente outros pilotos relataram à Torre de Controle de Congonhas que a pista estava escorregadia. A transcrição das gravações da caixa-preta mostram que a torre estava ciente do problema: ” TAM 3054, três cinco à esquerda [número da pista principal, 35], livre para pousar; a pista está molhada, e escorregadia…”

Ainda que possa ter tido qualquer falha humana, tem de se levar em conta a sobrecarga dos trabalhadores do setor e todas as pressões que sofrem. Umas das principais preocupações de pilotos e comissários é justamente a falta de segurança das empresas, cujo único interesse é aumentar o número de vôos e, logo, os lucros. Outro dado grave é o fato de os manuais das aeronaves, especialmente da Airbus, não orientarem claramente os pilotos sobre o sistema de freios, como informou o especialista britânico Peter K. Ladkin à Folha de S. Paulo.

Os culpados estão vivos
Os principais responsáveis pela tragédia estão bem vivos, costurando um acordo para livrarem-se da crise. De um lado, o governo muda algumas moscas, mas mantêm o mesmo sistema sujo, que favorece as companhias aéreas, além de aproveitar o momento para tentar vender a Infraero. De outro lado, as companhias aéreas tentam escapar de qualquer jeito da responsabilidade sem abrir mão dos lucros, ou seja, não querem reduzir os vôos nem observar regras de segurança, como, por exemplo, não utilizar uma aeronave com defeito mecânico, como o Airbus 320 da TAM.

Como já afirmamos inúmeras vezes, somente uma investigação independente, feita por representantes dos familiares das vítimas e por entidades dos trabalhadores do setor, apontará os verdadeiros responsáveis, que devem ser punidos com a prisão e terem seus bens confiscados. As cúpulas dos órgãos responsáveis pelo setor aéreo estão infectadas pela corrupção e não podem garantir nenhuma segurança para a população.

Também as companhias aéreas não podem cumprir esta tarefa. Como diz o primeiro mandamento da TAM, “nada substitui o lucro”. assim, a única saída é a estatização das companhias. Os trabalhadores aéreos são os que podem, de fato, assumir o controle do s órgãos do setor, mostrando que o lucro não só pode como deve ser substituído.

LEIA TAMBÉM::