Brics: uma alternativa ao domínio imperialista?

A presidente Dilma Roussef e o presidente da Rússia, Vladimir Putin
Ag Brasil

 

Começa nesta terça-feira, 15, em Fortaleza (CE), a reunião dos Brics, sigla do bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Desta vez, o governo Dilma será o anfitrião da reunião que irá pautar a proposta da criação de um novo banco em alternativa ao Banco Mundial. A instituição começaria a operar em 2016 com um capital inicial de US$ 50 bilhões para financiar projetos de infraestrutura. Pra efeito de comparação, o Banco Mundial empresta em média algo em torno de US$ 170 bilhões por ano.

Mais uma vez, o governo brasileiro pretende apresentar os Brics como uma alternativa soberana aos países imperialistas e aos organismos do capital financeiro mundial, como o já referido Banco Mundial e o FMI. Mas será que os Brics realmente são uma opção independente ao imperialismo? Poderão avançar como uma solução contra–hegemônica ao domínio das potências dominantes, como tenta fazer crer a propaganda petista?

Essas questões ganharam força especialmente após a crise econômica mundial que explodiu nos países centrais em 2008. Diferente dos EUA e da União Europeia, os anos iniciais da crise pouco afetaram as economias dos Brics. Basta lembrar que, enquanto Europa e EUA amargavam a recessão e desemprego, países como Brasil e China mantiveram uma dinâmica de crescimento. Tal dinâmica alentou entre os defensores do governo a hipóteses de que as chamadas “economias em desenvolvimento” pudessem estar imunes à crise. Falava-se até em “superar” os países centrais do capitalismo.  Contudo, a realidade do último período demonstrou que os Brics nem superaram os países imperialistas, nem estiveram imunes aos efeitos da crise, como explicaremos mais adiante.

O que são os Brics?
As economias dos países que compõem os Brics apresentam grandes diferenças entre si, ao mesmo tempo em que possuem características muito particulares que têm tido uma importância especial na divisão mundial de trabalho e na crise recente.

A evolução da economia capitalista de cada um destes países obedeceu a processos históricos distintos. No entanto, o imperialismo se aproveita das características peculiares destas economias para explorá-los a partir das multinacionais instaladas.  Assim, o imperialismo desloca para esses países uma parte importante de suas empresas (em particular as industriais) para se aproveitar dos baixos salários pagos aos trabalhadores. Como consequência, os Brics foram afetados de forma diferenciada pela crise econômica de 2008. Enquanto os países centrais eram arrastados pela recessão ou desaceleração, as multinacionais continuaram investindo nos Brics para contrabalançar a crises de suas matrizes e recompor sua taxa de lucros.

Dessa forma, os Brics serviram como plataformas de produção e exportação das multinacionais, que se aproveitam da mão de obra barata e das matérias-primas destes países para exportar mercadorias para países da América Latina, Ásia, Europa e América do Norte. Portanto, não há nada de “independente” no que se refere à economia dos Brics. São países controlados diretamente pelas grandes empresas multinacionais aí instaladas, que os utilizam como plataforma de exportação. São países economicamente dependentes do imperialismo, mas que exercem um papel combinado de semicolônia e de submetrópole “regional”, ou seja, de agentes das multinacionais em uma determinada região do planeta (América do Sul, Leste Europeu, Sudeste Asiático etc.). No entanto, cada um dos Brics ocupam papéis diferenciados dentro da divisão mundial do trabalho definida pelas multinacionais.

O Brasil, por exemplo, produz matérias primas ou produtos com pequeno grau de industrialização (as chamadas commodities) para o mercado mundial, além de automóveis e eletrodomésticos para a América Latina. As multinacionais também ocupam nosso mercado interno com suas empresas instaladas aqui.  Já a Rússia se destaca por ser uma das mais importantes produtoras de petróleo e gás, do qual a União Europeia é particularmente muito dependente. A Índia, por sua vez, proporciona serviços financeiros e tecnologia da informação.

Neste grupo, a China tem características especiais, sendo uma espécie particular de submetrópole. O terceiro maior país do mundo, com 20% da população mundial, deixou para trás sua economia agrária para se tornar uma nação industrializada e urbanizada. Isso ocorreu após a restauração do capitalismo no país, conduzida pelas mãos de uma ditadura brutal do Partido Comunista Chinês, que levou o país a atrair os investimentos das multinacionais em razão de uma mão de obra superexplorada.

As multinacionais ocuparam o país exportando para todo o mundo, mas especialmente para os EUA. Extraem uma gigantesca quantidade de mais-valia pagando salários miseráveis ao proletariado chinês e reenviam uma parte considerável dessa mais-valia sob a forma de exportação de lucros para suas matrizes. Outra parte importante da mais-valia é enviada para os EUA através da compra pelo tesouro chinês de títulos do governo norte-americano. O governo chinês tem cerca de um trilhão de dólares do tesouro norte-americano. Portanto, há profundos elos de dependência entre a economia destes dois países. A China depende do mercado dos EUA, e o governo dos EUA depende do capital vindo da China para financiar seus débitos.

A economia do Brasil também apresenta dependência da dinâmica da economia chinesa, pois fornece diretamente commodities para esse país. Desde 2009, a China é o maior parceiro comercial do Brasil.

Sem imunidade
No início da crise econômica mundial, as multinacionais investiram nos Brics para contrabalançar a crises de suas matrizes e retomar seus lucros. Essa situação impediu que estes países acompanhassem a dinâmica de recessão e desaceleração econômica visto nos EUA e na UE Contudo, hoje o cenário é bem diferente. Há uma dinâmica de recuperação da economia dos países imperialistas. Nos EUA, por exemplo, o governo de Barack Obama já planeja terminar com as políticas de reativação econômica.

Enquanto isso, os preços dos produtos primários estão caindo. Nos últimos dois anos, o preço do cobre caiu 35%, o de ferro 40% e o de ouro 36%. Ainda que em menor medida, os preços dos alimentos também têm uma tendência de baixa: o preço da soja baixou de 610 dólares, em julho de 2012, para US$ 520 na atualidade; o do trigo (que era US$ 360) caiu para US$ 320; e o milho, caiu de US$ 340 a US$ 300.

Mudança da política financeira dos EUA, como o aumento das taxas de juros para os bônus do tesouro norte-americano, também provocam uma retração dos investimentos e do fluxo de capitais para os Brics.  A China, por sua vez, deixou pra trás os tempos em que crescia com índices de dois dígitos do PIB. Desde 2011 a economia do país começou a sofrer quedas sucessivas, chegando a 7,6% em 2013. Naturalmente, isso vai afetar os demais países dos Brics, em particular o Brasil.

Prevendo um futuro turbulento no próximo período, a reunião dos Brics vai se concentrar muito mais em resposta a sua desaceleração econômica do que qualquer suposta proposta de “alternativa” ao domínio imperialista ou uma redesenho “equitativo” da geopolítica mundial. Mesmo a proposta de criar um “Banco dos Brics” revela menos uma alternativa contra- hegemônica, mas sim a dura realidade de que estes países não estão imunes à crise mundial. Entre a retórica e a realidade, a orientação dos Brics passa longe de qualquer desafio sério ao imperialismo.