Assassinatos de trabalhadores rurais apontam avanço do agronegócio

'Dinho', sobrevivente de Corumbiara, morto dia 27

Governo e o Congresso tem responsabilidade nas execuções de ativistas nos últimos diasNa semana em que a Câmara dos Deputados aprovou o novo Código Florestal, beneficiando latifundiários e garantindo anistia aos desmatadores, uma onda de assassinatos de líderes camponeses percorreu a região Norte do país. Em apenas três dias foram registradas a execução de quatro pessoas, três delas já jurada de morte por madeireiros há anos.

Primeiro foi a bárbara execução do casal de castanheiros José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, na manhã de 24 de maio. O casal, assentados do Projeto Agroextrativista Praialta-Piranheira, na cidade de Nova Ipixuna, sul do Pará, foram mortos com disparos na cabeça em uma emboscada. José Cláudio teve um pedaço da orelha decepado, procedimento típico de pistoleiros para provarem a execução do serviço aos mandantes.

O casal vinha sofrendo sucessivas ameaças de morte desde 2008. Dois dias depois, moradores do mesmo assentamento notaram o desaparecimento de Herenilton Pereira dos Santos, de apenas 25 anos. O corpo do jovem camponês foi encontrado no dia 28, sábado, a 7 km do local onde o casal havia sido assassinado. Segundo a Comissão Pastoral da Terra de Marabá, Herenilton teria visto dois motoqueiros no dia anterior, possíveis responsáveis pela execução de José Cláudio e Maria do Espírito Santo.

Já no dia 27, o agricultor Adelino Ramos, presidente do Movimento Camponeses Corumbiara de Rondônia e da Associação dos Camponeses do Amazonas, foi assassinado. Adelino, conhecido como “Dinho” era um dos sobreviventes do Massacre de Corumbiara, de agosto de 1995, que deixou 13 camponeses mortos. Ele vivia atualmente em um assentamento do Incra e foi atacado no município de Lábrea, no Amazonas. Levou seis tiros. Ele também vinha sofrendo ameaças.

A responsabilidade do governo
Diante da escalada de execuções, o governo Dilma convocou uma reunião emergencial no Planalto e anunciou medidas que se limitam a uma espécie de intervenção nos municípios da região que separa os estados do Amazonas, Acre e Rondônia, considerada uma região de risco. De acordo com o Secretário da Presidência, o ministro Gilberto Carvalho, o foco são as pessoas “marcadas para morrer”.

O governo tenta assim mostrar ação e desviar a atenção para o verdadeiro motivo da onda de violência no campo. E ele é só um. O agronegócio, sentindo-se fortalecido com a ampla aliança política formada em torno do setor, que se expressa principalmente no Congresso, resolveu partir para cima. Não é coincidência que os assassinatos tenham ocorrido na esteira da aprovação do Código Florestal na Câmara, poucas horas após a execução do casal paraense.

O Governo Federal, por sua vez, prorroga por sucessivas vezes a anistia aos desmatadores, seguindo uma política do governo Lula. O agronegócio, assim, se sente fortalecido de um lado e tem a certeza da impunidade de outro. E não só por desmatar ilegalmente. Não se trata, portanto, de uma situação específica com o governo quer parecer.

Crimes no campo avançam
Os quatro assassinatos nos últimos dias é o ápice de uma tendência que já vem ocorrendo. Relatório da CPT revela que 2010 marcou um crescimento do número de trabalhadores rurais assassinados no país. Foram 34 assassinados, frente aos 26 registrados no ano anterior, um aumento de 30%.

Com a omissão do governo e amparado pelo Congresso, o agronegócio tenta mandar um recado claro aos sem-terras e ativistas que tentam se colocar sobre seu caminho. Se depender do governo, as notícias que estamparam os jornais nos últimos dias vai se tornar cada vez mais rotina.