“Assalto ao céu” e assalto ao seu direito de informação

    Reprodução de trecho do artigo de Demétrio publicado na Folha de São Paulo

    Zé Maria responde artigo de Demétrio Magnoli publicado na Folha de São Paulo

    O jornalista Demétrio Magnoli publicou, na Folha de São Paulo deste sábado (23), o artigo “Zé Maria na telinha” onde se esmera em tentar desqualificar as ideias e práticas minhas e do partido em que milito, o PSTU (Veja texto neste link).

    Conheci Demétrio há muito tempo, nos anos finais da década de 70 e início dos 80. Neste período eu militava na Convergência Socialista (que juntamente com outras organizações deu origem ao PSTU em 1994), e ele na OSI – Organização Socialista Internacionalista (que editava o jornal O Trabalho), organizações de bases ideológicas próximas naquele momento. Lutávamos contra a Ditadura Militar e, para além disso, contra o sistema capitalista que concentrava toda a renda e a riqueza do país nas mãos do grande empresariado, condenando a maioria da população a uma vida cada vez mais precária.
     

    Defendíamos um programa operário e socialista que apontava para mudanças na estrutura econômica, social e política do país. Queríamos que, tanto os recursos naturais do Brasil como a riqueza produzida pelo trabalho do povo pudessem ser utilizados para assegurar vida digna aos que trabalham, ao invés de engordar os cofres dos bancos, multinacionais e grandes empresas que controlam a política e os governos em nosso país. Bem, a Ditadura acabou, mas o capitalismo segue de vento em popa. O país está cada vez mais rico, mas o povo trabalhador vive cada vez pior. Desculpe Demétrio, espero que não se ofenda por te fazer lembrar estas coisas, mas eu e o PSTU seguimos na luta contra este sistema.

    Em seu artigo, de uma forma jocosa e desrespeitosa, Demétrio diz que estas ideias (que defendíamos juntos antes e sigo defendendo agora), não constituem um programa de governo e sim um convite a um “assalto ao céu”. Pois é, meu caro, naquela época eu e você defendíamos isso porque o programa aplicado pelos governos controlados pelos banqueiros e grandes empresários era de “assalto ao povo”. Isso não mudou e, apesar de não me surpreender, lamento que você tenha se somado aos que defendem este outro tipo de “assalto”.

    Mas, indo ao problema mais sério do artigo, acho que os ataques (não são críticas porque não são sérias) que ele faz ao PSTU depõem contra o bom jornalismo. Ao tratar do Fundo Partidário, ou da necessidade da “desestatização dos partidos políticos”, Demétrio falta com a verdade aos seus leitores, afirmando que nenhum partido propõe acabar com o referido Fundo. O PSTU, desde que foi fundado, defende o fim do Fundo Partidário. Consideramos errado financiar partidos com dinheiro público, achamos que devem ser financiados pelas pessoas que os apoiam. E é assim que deve ser, pois é a única forma dos partidos terem independência política frente ao Estado que, para nós, é um princípio fundamental.

    O PSTU é um partido socialista que organiza trabalhadores, trabalhadoras e jovens que querem lutar para mudar nosso país, para acabar com toda forma de exploração e opressão. É um partido ideológico. Por que Demétrio nos mistura às dezenas de partidos (pequenos e grandes) que se organizam para defender e fazer negócios escusos, alugar sua legenda e tempo de TV?

    Apesar da distância ideológica que hoje nos separa, tenho dificuldade de acreditar que isso tenha sido feito por má-fé do jornalista. Então fico dividido entre duas alternativas: mau jornalismo ou falta de memória. O mau jornalista escreve sobre um assunto sem ter conhecimento sobre ele, conspirando contra o direito do leitor a uma informação minimamente fiel aos fatos. Ou falta de memória, porque Demétrio conhece nossa organização desde muitos anos, sabe como funcionamos e sabe muito bem que não dependemos de dinheiro do Estado para existirmos.

    O que sim defendemos é o financiamento público das campanhas eleitorais. Somos contra o financiamento dos partidos e de suas campanhas pelas grandes empresas e bancos. Não só pela corrupção que se origina aí, mas também porque é assim que se estabelece a relação de lealdade do político eleito com as empresas que o financiaram e não com os eleitores que votaram nele.  Achamos que o Estado tem de definir uma quantia de recursos – igual para todos os partidos que inscreverem candidatos – para o financiamento de suas campanhas. Uma quantia pequena, pois tem de acabar com essa verdadeira indústria em que se transformaram as campanhas eleitorais, com agências publicitárias contratadas a peso de ouro para vender mentiras à população. E deve definir tempo igual nas redes de TV para cada candidato expressar suas opiniões. Só assim haverá um mínimo de democracia nas eleições.

    Demétrio não diz, em seu artigo, o que defende. Por acaso defende o sistema atual? Onde os bancos, empreiteiras e multinacionais, em conluio com as grandes redes de mídia definem, de fato, quem é que vai ganhar as eleições? Será que é isso que ele chama de democracia?

    Bem, talvez Demétrio preferisse mesmo que, ao respondê-lo, o chamasse de agente da CIA, da Santa Sé ou da Mossad. Não vou fazê-lo, porque não acho que ele seja isso. Demétrio é só mais um cara que mudou de lado, que se cansou de lutar contra a desigualdade e a injustiça, de lutar para melhorar a vida do povo. Resolveu cuidar apenas de si próprio, de melhorar a sua própria vida. Para isso mudou de trincheira e passou a servir àqueles que antes combatia, e o faz defendendo na mídia as ideias de seus patrões. Infelizmente, ele não está só nesta escolha, há vários outros por aí… Precisam provar lealdade aos novos senhores. Por isso precisam bater duro nos que continuam a defender as ideias que antes também defendiam. Fazer o que?

    Como Demétrio sabe, eu não tenho espaço para defender minhas ideias no jornal onde ele escreve, por isso respondo pelas redes sociais (compartilhe, ajude a fazer esta resposta chegar até ele). Peço desculpas pela demora em responder, mas estava em uma tarefa militante muito importante todo este final de semana. Pois é, meu caro, eu não mudei. Continuo o mesmo sonhador e revolucionário que você conheceu quarenta anos atrás. Felizmente há cada vez mais gente como eu. E não desconfie, tenha certeza, serei um “ardoroso revolucionário” até o fim dos meus dias. Não vou abandonar o sonho de ver um dia este país livre de toda forma de exploração e de opressão e onde todos possamos viver plenamente como seres humanos e não como escravos dos bancos, das multinacionais e grandes empresas. Pena não poder dizer o mesmo de você.

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