Algumas notas sobre as polêmicas surgidas com as mobilizações de junho

As jornadas de junho de 2013 abriram uma nova situação da luta de classes no Brasil, que pode ser chamada de pré-revolucionária. As gigantescas passeatas da juventude, com seus cartazes escritos à mão, causaram uma modificação brusca na relação de forças entre as classes. Milhões de pessoas que nunca tinham se mobilizado tomaram as ruas e gostaram do que fizeram.

Depois, as passeatas refluíram, mas nada ficou como antes. As mobilizações que seguiram trouxeram uma radicalidade e politização inexistentes antes de junho. Greves políticas como a dos petroleiros contra o leilão do Pré-sal, como a dos professores do Rio que assumiram o “Fora Cabral” como bandeira de luta. As ocupações de câmaras e assembleias legislativas se tornaram comuns.

Abriu-se um novo momento na realidade brasileira, que sacudiu toda a institucionalidade do país. De repente, os governos ficaram acuados e na defensiva.

Mas nada está garantido. O grande risco é que a burguesia e seus representantes reformistas consigam reabsorver as tensões abertas. Eles têm a possibilidade da canalização de toda a crise pela via eleitoral.

Podem também derrotar o movimento pela combinação: exaustão + repressão. Estão em plena contraofensiva, buscando retomar o controle repressivo das ruas, se utilizando de leis da ditadura militar, como a Lei de Segurança Nacional sob o pretexto de combater  “vandalismo”. Contarão com a ajuda inestimável da mídia e o apoio de instituições com peso no movimento como PT, CUT e UNE.

Mas a luta está em curso. Abriu-se um novo momento na história brasileira, que tanto pode evoluir para uma situação revolucionária como refluir para a estabilidade de antes. O novo e instigante é que a evolução de todo esse processo está ainda em aberto, um processo vivo e em disputa.

Isso traz para o primeiro plano a necessidade da discussão estratégica para toda a esquerda revolucionária brasileira. Esse desafio inclui os quadros antigos que tem de sacudir a rotina sindical parlamentar com a qual se acostumaram por muitos anos. Inclui também os novos ativistas que vieram com as passeatas de junho.

Para todos esses está colocado um debate estratégico que não pode ser ignorado, sob pena de que se perca uma oportunidade histórica. Alguns se perguntarão: “para que debater coisas abstratas?”. Não seria melhor elogiar todas as correntes presentes nas mobilizações, ignorando os debates que se iniciam? Ou ainda buscar acordos sobre as táticas?

Nós queremos assumir outra postura. A dimensão histórica dos acontecimentos de junho nos obriga a encarar as polêmicas estratégicas com a seriedade necessária. Discutir estratégia revolucionária pressupõe assumir polêmicas. É preciso ousadia para discutir estratégia, e seriedade para encarar as polêmicas.

I- As revoluções são ainda possíveis?
Existe uma primeira discussão necessária. As revoluções socialistas são ainda possíveis? Não estariam ultrapassadas pela história?

Muitos anos de estabilidade burguesa desacostumaram muitos setores da esquerda a pensar a revolução. Menos ainda a revolução socialista, tida como já ultrapassada. A eclosão das grandes mobilizações no Norte da África e Oriente Médio acendeu uma luz. De repente, novamente, tudo que era aparentemente sólido- como a ditadura egípcia- se dissolvia no ar. A ação política de milhões de pessoas, antes inativas, mostrava mais uma vez sua força. Tornou-se de novo atual a definição de Trotsky sobre as revoluções:

O traço característico mais indiscutível das revoluções é a intervenção direta das massas nos acontecimentos históricos (…) nos momentos decisivos, quando a ordem estabelecida se faz insuportável para as massas, elas rompem as barreiras que as separam da discussão política, derrubam seus representantes tradicionais,  e , com sua intervenção, criam um ponto de partida para o novo regime (…) A história das revoluções é para nós, acima de tudo, a história da irrupção violenta das massas no governo de seus próprios destinos” (Trotsky, História da Revolução Russa)

A gigantesca crise econômica, social e política instalada na Europa foi outro choque. Foi uma espécie de “queda do muro de Berlim” para a imagem vitoriosa do capitalismo pós-leste europeu. Acabou-se a estabilidade em países chaves do velho continente. O grande capital abriu uma guerra contra as conquistas do “estado de bem estar social”. Países antes imperialistas, como Portugal e Grécia, caminham para trás, para serem semicolônias do império alemão. Uma crise sem saída nos próximos anos está instalada na Europa: uma instabilidade crescente e a possibilidade da reedição de novas situações revolucionárias como o maio de 68 na França ou mesmo a revolução portuguesa de 1974. O proletariado europeu, o de maior tradição de lutas da história, está de novo em movimento.

Não se trata só de revoluções em geral, portanto. A realidade mundial está trazendo de volta, como tema de debate, a atualidade da revolução socialista. Isso nos traz, necessariamente, a necessidade de discutir se os acontecimentos de junho no Brasil tem algo a ver com isso.

A nossa resposta é categórica: sim, tem a ver. Iniciou-se um processo revolucionário no Brasil que pode apontar para uma revolução socialista. Pode também retroceder para a normalidade da dominação burguesa. Mas só a existência dessa possibilidade nos coloca um desafio inédito.

II- Qual a estratégia? Radicalização da democracia ou revolução socialista?
Essa é uma pergunta chave para a definição da estratégia . Muitos ativistas enxergam no futuro apenas uma democracia melhorada, com preocupações sociais: a chamada “radicalização da democracia”.

É como se a democracia fosse elástica. Caso se ampliasse indefinidamente poderia, através dela, se impor a vontade das massas (ou da “multidão” de indivíduos). Assim se conseguiria expurgar os políticos corruptos, conseguir saúde e educação de qualidade, etc.

Mas a “democracia” em que vivemos tem um caráter de classe. Trata-se de uma democracia burguesa. A burguesia, proprietária das grandes empresas multinacionais e nacionais controla o regime.

O povo vota, mas não decide. As grandes empresas financiam os partidos majoritários, suas campanhas eleitorais e os grandes meios de comunicação. No Brasil, por exemplo, controlam os blocos políticos dirigidos pelo PT e pelo PSDB, assim como a “nova alternativa” de Marina e o PSB. O grande capital é sempre vitorioso, ganhe quem ganhe as eleições.

A justiça não é igual “para todos”. O pobre que rouba um pão vai preso e começa a apanhar de imediato. Um rico ladrão e corrupto tem a seu dispor grandes advogados e juízes corruptos. Quase nunca é preso, nem tem os bens roubados confiscados.

A polícia reprime as mobilizações e age com violência contra as comunidades carentes, contra os bairros pobres  e negros. Mas protege os ricos (mesmo os criminosos) e suas propriedades.

Não vai haver saúde e educação de qualidade enquanto as grandes empresas mandarem no país porque o plano econômico é definido por elas. Palavras de ordem simples como “saúde pública com padrão Fifa” são irrealizáveis sob o capitalismo.

Com o cinismo de sempre, os blocos políticos dominantes (com Dilma, Lula, Aécio Neves, Eduardo Campos ou Marina como candidatos)  vão prometer o paraíso nas campanhas eleitorais e manter o inferno atual em seus governos. Na verdade, o estado burguês é uma ditadura de classe, ainda que sob a forma de uma democracia burguesa. De conteúdo, quem decide são as grandes empresas.

A corrupção é parte constituinte da “democracia burguesa”. Não vai acabar nem com o PT, nem com o PSDB, nem com o PSB. A corrupção está presente em todos os regimes que escapam ao controle da base, seja a democracias burguesas, as ditaduras militares burguesas, as ditaduras stalinistas.

E isso não é por que “todos são corruptos”. Não é verdade que a maioria dos trabalhadores é corrupta. Quando existe um controle da base é possível evitar a corrupção. Os militares ou os burocratas que controlam as ditaduras se corrompem facilmente. Mas a democracia burguesa elege representantes a cada quatro anos que permanecem sem nenhum controle de base nesse tempo manejando grandes somas de dinheiro. Essa é uma receita pronta para a corrupção.

Só acabando com a dominação das grandes empresas e sua “democracia” é que poderemos mudar o país. Por isso chamamos esse regime atual de “democracia dos ricos”.

Nós não somos, evidentemente, contra lutar por “mais democracia”. Propomos que os parlamentares recebam salários semelhantes aos de um professor.  Defendemos a prisão e expropriação dos corruptos e corruptores. Da mesma forma, lutamos por melhorias na saúde e educação. Em outro terreno, estamos juntos em todas as lutas por melhores salários no movimento sindical.

Essas são lutas parciais importantes, mas limitadas. Podem servir para aumentar a capacidade de luta e organização dos trabalhadores, mas não para chegar por elas mesmas ao nosso objetivo.  Lutamos por aumentos salariais e não achamos que ganhando um reajuste hoje, outro amanhã, chegaremos um dia à superação da exploração capitalista. Mas porque, através das lutas concretas dos trabalhadores podemos nos organizar e poder um dia acabar com a dominação burguesa.

A democracia burguesa não pode ser “esticada”, “ampliada” para se impor através dela a vontade das massas. Por trás do regime democrático existe o estado burguês, com suas forças armadas como base de segurança para a manutenção da propriedade privada das grandes empresas, caso esteja ameaçada. .

A alternativa, portanto, não é “a radicalização da democracia” burguesa. Mas acabar com a dominação das grandes empresas através de uma revolução socialista.

Desde a queda das ditaduras do Leste Europeu e restauração do capitalismo nesses países uma gigantesca campanha de propaganda imperialista fez desaparecer a estratégia da revolução socialista do horizonte da vanguarda. É hora de rediscutir com clareza esse tema.

As ditaduras stalinistas não tinham nada de socialismo. Eram regimes controlados autoritariamente por burocracias que se aproveitavam dos estados para garantirem seus privilégios materiais.

É possível expropriar as grandes empresas e utilizar todo o potencial da produção para satisfazer as necessidades do povo trabalhador e não para aumentar os lucros da burguesia. É possível já hoje ter um mundo sem fome, com as pessoas tendo saúde, educação e moradia decentes.

E isso pode ser feito com uma democracia muito superior à democracia burguesa. A democracia operária, apoiada nos organismos dos trabalhadores é muito superior. Os trabalhadores elegem  seus representantes e podem destituí-los na hora que quiserem, sem ter de esperar quatro anos como na democracia burguesa. Os temas mais importantes como os planos econômicos podem ser debatidos e decididos diretamente pelos trabalhadores e não nos parlamentos como na democracia burguesa.

A revolução russa em 1917 foi um exemplo para a humanidade nos seus sete primeiros anos, antes da burocratização stalinista. Havia uma democracia muito mais ampla que a mais democrática das repúblicas burguesas. Os trabalhadores debatiam e decidiam nos sovietes as questões mais importantes do país. As artes floresciam livremente e se produziram obras magistrais que ainda hoje são referencias culturais como a poesia de Maiakovsky e os filmes de Eisenstein.

Não se pode na realidade mudar o país com “mais democracia”. Só uma revolução socialista pode acabar com a dominação das grandes empresas e levar a um novo estado.

III- Via eleitoral para… uma democracia ampliada?
Os que apostam na ampliação da democracia poderiam observar a história da América Latina. Trata-se de uma retomada, com nova face, da chamada “via eleitoral”. Antes era a “via eleitoral para o socialismo”. Agora é a via eleitoral para mais democracia mesmo.

No século passado existia um debate estratégico intenso na vanguarda de esquerda no passado sobre o caminho para chegar ao socialismo. Uma parte da esquerda socialista assumia a estratégia socialdemocrata de uma via eleitoral para o socialismo. Bastaria acumular deputados, ou ainda ganhar eleições presidenciais para impor reformas e, aos poucos, chegar ao socialismo.

Essa alternativa se demonstrou historicamente um fracasso. A socialdemocracia europeia se encarregou de deixar de lado qualquer veleidade socialista na administração do estado burguês em todas as inúmeras vezes em que chegou ao governo. Depois do Leste Europeu, conscientemente, assumiram a defesa do neoliberalismo, abandonando inclusive a antiga postura reformista.

Por outro lado, quando esses governos perdiam o controle das massas, um  golpe militar mostrava que a via eleitoral sempre esteve fechada. Foi assim na experiência parcial e limitada, bem distante de qualquer perspectiva revolucionária, de Allende no Chile, ou no ainda mais limitado governo João Goulart no Brasil. As multinacionais não vão perder o controle da economia sem uma contra revolução violenta. Por isso, a estratégia para mudar o país por eleições se demonstrou errada.

A via eleitoral hoje
A esquerda eleitoral hoje não se coloca uma perspectiva revolucionária, se parecendo em muito com a socialdemocracia antiga. Só fala em eleições.  E nem sequer se preocupa em estabelecer com clareza como poderá chegar ao socialismo. Porque seu horizonte estratégico não é mais o socialismo, e sim a radicalização da democracia.

O caso do PT é emblemático. Em sua origem,  assumia uma estratégia de um governo “democrático e popular”, sem nunca clarificar como chegar ao socialismo a partir daí. A maioria da direção, cuidadosamente, sempre manteve a discussão estratégica em segundo plano, e impunha na prática a estratégia eleitoral. Quando foi ao governo, se distanciou de qualquer perspectiva socialista, e passou a ser o que é hoje: principal garantia da dominação burguesa no país.

Os  governos petistas assumem, na prática, todas as características dos governos burgueses, inclusive a corrupção. Ao contrário do que pensa a maioria dos trabalhadores, não são governos dos trabalhadores. São governos burgueses, com uma forma mais aceitável para os trabalhadores, para poder impor melhor os mesmos planos neoliberais.

Não por acaso, as grandes mobilizações de junho se chocaram com o governo nacional do PT, assim como governos estaduais do PSDB, PMDB, PT, etc.

O PSOL, infelizmente, aponta uma estratégia puramente eleitoral que reproduz passos do PT. Mesmo tendo revolucionários socialistas honestos em seu interior (como existe até hoje na base petista), o PSOL não tem uma definição por uma revolução socialista. O objetivo seria um governo “democrático e popular”, e não uma revolução socialista. Ou seja, o PSOL para no limite da radicalização da democracia, que aplicaria um programa de reformas populares. Trata-se de uma reprodução do mesmo “governo democrático e popular” que tinha a direção do PT em suas origens.

No documento para o Congresso de 2013 da corrente majoritária de sua direção, a conclusão fundamental que se tira das mobilizações de junho é preparar as eleições de 2014.

Algumas correntes que têm métodos de ação ultraesquerdista, como muitos dos anarquistas e “Black Bloc’s”, também têm seu horizonte estratégico na ampliação da democracia. Contraditoriamente, mesmo sem clareza, podem acabar assumindo a mesma estratégia eleitoral que tanto negam.

IV- Indivíduo ou classes sociais?
Antes de mais nada, é importante discutir uma ideologia que se difundiu mesmo no terreno da esquerda nos longos anos de refluxo do movimento de massas da década de 90 do século passado. Trata-se do individualismo, o culto do predomínio do indivíduo sobre o coletivo.

Essa é uma das bases ideológicas mais fortes do neoliberalismo que deu origem aos planos econômicos que se aplicam até hoje, por exemplo, aqui no Brasil. Mas também de muitas das ideologias hegemônicas em setores da juventude hoje.

O neoliberalismo cultua o individualismo, disseminando a ideia de que basta se esforçar pelo bem da empresa que o empregado pode progredir na vida. Os trabalhadores são estimulados a competir com os outros trabalhadores, porque “os melhores podem ganhar mais”. Com isso se nega o coletivo das assembleias, das greves que ameaçavam o capital. O resultado é óbvio: o reforço da dominação da burguesia sobre os trabalhadores desunidos.

Não se trata só de uma negação do coletivo, mas também das classes sociais. O operário não precisa se identificar enquanto classe operária, e muito menos localizar a burguesia como classe inimiga. Um trabalhador sozinho não pode enfrentar o patrão, não pode parar uma fábrica. Ao contrário, deve se entender como um indivíduo e se aliar com a empresa para “progredirem juntos”.

Muitas ideologias que cresceram durante os anos de refluxo do movimento de massas reforçaram esse culto do indivíduo. O pós-modernismo faz questão de rejeitar o coletivo, as classes sociais. O rechaço às ditaduras stalinistas, as burocracias sindicais, aos partidos burgueses e reformistas só fez reforçar o individualismo como alternativa.

Uma parte dos movimentos anarquistas se soma a esse culto do individualismo. Nesse sentido, se distanciam do anarquismo clássico que- apesar de seus equívocos estratégicos- tinha uma estratégia de revolução social e estreita relação com a classe operária. Agora, uma boa parte dos movimentos anarquistas não tem nenhuma estratégia de revolução nem referência de classe, e param na defesa da ampliação da democracia e do horizontalismo. Inconscientemente, apesar de serem contra a dominação capitalista, acabam por reforçar todas as ideologias individualistas.

A ideia desses setores é rejeitar o controle burocrático negando toda forma de atuação coletiva. Cada um por cada um. Essa ideologia esteve presente com força entre os ativistas das grandes mobilizações de junho. Não se deve ter nenhuma organização, porque todas elas levam à burocracia. Os cartazes individuais escritos à mão eram, por este motivo, a maior forma de expressão nas passeatas.

Essa característica foi, contraditoriamente, uma das maiores fortalezas das mobilizações no seu início e uma de suas maiores debilidades depois. Foi progressivo no começo, porque assim passaram por fora da CUT e do PT e sacudiram o país. Isso foi extremamente positivo para o despertar do processo revolucionário. Mas para que siga adiante, a espontaneidade inicial se transformou em uma das maiores fraquezas. Para avançar, é preciso ir construindo uma nova direção. Se isso não for superado, não vai haver uma modificação real no país.

Um indivíduo pode não se reconhecer como parte de uma classe, e tampouco entender a situação política a partir da luta de classes. Isso não vai mudar a realidade que vai continuar sendo determinada pela luta de classes, independente de ser ou não entendida por esse indivíduo. Mais precisamente a classe dominante- a burguesia- vai continuar dominando a sociedade.

A dominação burguesa não se faz com a clareza da dominação monárquica, mas com o engano da “justiça para todos”,  do “voto universal”, “governar para todos”. A burguesia, minoria absoluta da sociedade, domina através das instituições da democracia burguesa, em nome do bem “de todos”, com o “voto de todos”.

A exaltação do “indivíduo” para se contrapor às práticas detestáveis das burocracias sindicais ou dos partidos burgueses não tem a mínima possibilidade de destruir a dominação da classe burguesa. Ao contrário, termina por ajudar essa dominação por negar a necessidade de uma alternativa coletiva. No caso, uma alternativa dos trabalhadores, de uma classe social oposta à classe burguesa. É preciso construir uma alternativa coletiva, revolucionária, dos trabalhadores e estudantes para dar um novo rumo ao país.

V-É preciso organizar ou basta a atividade espontânea?
A discussão começa pela necessidade ou não de se organizar. O individualismo vem associado muitas vezes a uma defesa do espontaneísmo. Em um debate no Fórum de Lutas do Rio de Janeiro, no meio das mobilizações de junho,  uma ativista perguntava para que se organizar. Segundo ela, bastava resolver na hora da passeata como se fazer. Mais uma vez, predominava a desconfiança de qualquer organização como um entrave, uma burocracia. É a expressão de um movimento “horizontal”, formado apenas por indivíduos. Não seriam necessários partidos ou sindicatos, nenhuma organização.

Isso pode ser muito simpático, mas é um erro grave. Estamos em uma luta, e nossos inimigos- a burguesia e seu estado- não agem assim.

A burguesia tem inúmeras organizações profissionais, altamente treinadas e equipadas para enfrentar as massas. As Forças Armadas, os serviços de inteligência, a imprensa, os partidos burgueses e reformistas, as burocracias sindicais existem… e têm muita força.

Como entrar nessa luta sem organização? É como enfrentar uma partida de futebol contra o Barcelona com um time improvisado, amador e que nem se dispõe a discutir a definição da posição em campo de cada um, a tática de jogo, etc. Não existe nenhuma possibilidade de vitória.


É preciso preparar e organizar os atos, passeatas e greves para se enfrentar com os governos, com a polícia, etc. Se as organizações atualmente majoritárias não servem, é preciso criar outras que sirvam. Negar a direção dos sindicatos, não significa negar a necessidade dos sindicatos, mas construir uma nova direção para eles, através das oposições sindicais. Negar a CUT e a Força Sindical nos levou a construir a CSP-Conlutas, como uma central oposicionista e antiburocrática.

É isso que propomos: negar o PT, o PSDB assim como os partidos burgueses e reformistas. Mas não negar todos os partidos. Para isso existem os partidos de oposição de esquerda como PSOL, PCB e PSTU. Nós, do PSTU, estamos nos construindo como um partido revolucionário, oposto a tudo que está aí.

VI- Consenso ou democracia operária?
Nos debates que ocorrem desde junho nos Fóruns de Luta, uma questão veio à tona com frequência: como se resolvem as diferenças? A democracia do movimento pressupõe a possibilidade de diferenças, que são praticamente inevitáveis. Aliás, não só inevitáveis como positivas. O acordo completo em tudo é mais típico da imposição das ditaduras do que de um movimento vivo, rico em sensibilidades e experiências distintas.

As polêmicas devem ser bem vindas. Mas se mantém a questão: como resolver as diferenças? Muitas vezes, os que defendem o horizontalismo pregam a necessidade do consenso. Isso seria a expressão de um movimento, sem líderes nem burocracias.

Na verdade, o “consenso” não existe, porque o debate revela que as diferenças continuam presentes. A imposição de um “consenso” como pré-condição para que uma decisão seja tomada, pode até parecer mais democrático, mas na prática impede a democracia, porque impede que uma maioria seja respeitada. É a imposição de uma minoria.

É na diversidade, no embate de idéias e posições diversas que se constrói a democracia. Evidentemente, para que uma discussão seja democrática é preciso ter tempo de discussão e espaço igual para que as todas as posições se expressem, sejam elas minoritárias ou majoritárias. Mas depois da discussão é preciso decidir por algumas das posições em debate. E é democrático que a maioria da base seja respeitada.

O consenso não evita de forma nenhuma que as burocracias se imponham. Evita sim que as bases possam lutar contra as burocracias. Um método muito mais eficaz é a democracia operária: as bases se reúnem em assembléias e votam por maioria. É assim que as bases passam por cima de muitas burocracias sindicais e impõem greves contra direções de sindicatos. O “consenso” impediria isso, porque um setor (a burocracia sindical, por exemplo) estaria contra a greve e por isso ela não poderia ocorrer.

Esse debate ocorreu em diversos fóruns surgidos no país desde junho, como a Assembléia Popular Horizontal de BH, o Bloco de Lutas de Porto Alegre, o Fórum do Transporte no Rio, etc. Alguns deles desapareceram, outros não. A necessidade de tomar decisões práticas, como fazer ou não fazer um ato, ocupar ou desocupar um espaço, defender uma ou outra bandeira, etc., mostrou que o método da democracia operária, ou seja, a votação democrática, foi aplicado em todos esses espaços contra o “consenso”.

VII- Autodefesa do movimento? Ou ação de pequenos grupos dos Black Blocs?
Os Black Blocs surgiram no Brasil com as mobilizações de junho. Esses grupos atraem ativistas pela radicalização dos seus métodos de ação, com as depredações de bancos e lojas ou enfrentamentos com a polícia. Defendem a “propaganda pela ação”, a utilização das depredações das fachadas de bancos, empresas e lojas de grifes porque assim estariam enfraquecendo o sistema.

Seu peso na juventude é a atração do método radicalizado. Atraem pela “coragem”, porque “alguma coisa tem de ser feita contra a polícia”. Frequentemente criticam os que se opõem a eles como se não tivessem a “coragem” de fazer o que fazem.

O tema fundamental, que deve ser localizado com clareza e rigor é que essa é uma discussão política e programática bem mais séria que ter ou não ter coragem física. Aliás, também nesse terreno, existiria uma polêmica interessante: o que exige mais coragem? Se disfarçar com uma máscara, quebrar vitrines e sair correndo? Ou parar uma fábrica e enfrentar sem máscaras seu dono e a polícia, colocando em risco seu emprego?

Mas voltemos ao tema central, que é programático e político: um indivíduo por mais corajoso que seja não conseguirá derrotar a classe burguesa, sua polícia, suas Forças Armadas. Ou colocamos em movimento a classe trabalhadora ou seremos derrotados. Esse é o tema fundamental dessa polêmica, que  passa longe da preocupação desses grupos.

A ação direta das massas é a base fundamental para a evolução da luta de classes. Mas é a ação das massas, e não de um pequeno grupo que quer substituir as ações dos trabalhadores.

A ação dos Black Blocs afasta a massa dos trabalhadores das mobilizações. Os trabalhadores repudiam, nos dias de hoje, esse tipo de quebra-quebra. Uma pesquisa sobre o tema indicou 93% de rejeição do povo contra os Black Blocs, outra apontou ainda mais: 95%. A consequência da presença dos Black Blocs é o afastamento das massas e redução do tamanho das mobilizações.

Para esses grupos, isso não significa nada, na medida em que eles se propõem a substituir a ação das massas. No entanto, para a evolução real da luta de classes, o efeito é enorme, e muito nocivo. Muitas vezes, quando as manifestações terminam bem, as próximas são maiores. Quando terminam em quebra-quebra, as seguintes são menores.

Por outro lado, a burguesia utiliza conscientemente os Black Blocs para criminalizar o movimento:  filmam as depredações, divulgam com muita importância nas TV’s e na imprensa burguesa. Assim, se legitima a repressão policial contra o “vandalismo”. Atribuem a responsabilidade das depredações às mobilizações, às entidades e sindicatos, e não aos Black Bloc’s. Depois prendem, reprimem e processam a todos, sejam ou não Black Bloc’s.

Isso não tem importância para esses grupos, que passam longe de entender a importância da ação de massas. Para eles, basta ser corajoso e quebrar uma vitrine de bancos para que durmam felizes, mesmo que sua ação tenha enfraquecido o movimento.  Aliás, boa parte da esquerda é também responsável: existe uma indulgência, uma postura acrítica e simpática de muitos setores que beira a irresponsabilidade. Não é o que pensamos. Para nós, é útil o que fortalece o movimento de massas, e errado o que o enfraquece. Por isso, a ação dos Black Bloc’s é nociva.

Estamos, evidentemente, na linha de frente da defesa desses grupos contra a polícia e todas as repressões que sofrerem. Para nós é um princípio defender todos os que lutam contra a repressão do estado burguês. Mesmo considerando seus métodos completamente equivocados, achamos que esse é um debate que deve ser feito no interior do movimento. É um absurdo que a polícia reprima os Black Bloc’s por sua “violência”. Em comparação com a polícia, os Black Bloc’s parecem anjos de inocência.

Existem também críticas aos Black Bloc’s vindas  de setores pacifistas, que rejeitam a violência quase como um princípio. Não é nosso caso. Defendemos a violência quando ela é assumida pelas massas, não por pequenos grupos. Somos parte dos críticos que estão nas mobilizações em confronto com a polícia, nas mesmas mobilizações em que estão os Blacks Bloc’s. E os criticamos porque dificultam a luta dos trabalhadores contra a repressão policial.

O movimento de massas no Brasil pós-junho vai ter de discutir a autodefesa de suas lutas contra a repressão policial. Já está mais que comprovado que a polícia usa de violência indiscriminada como ocorreu com a greve dos professores do Rio de Janeiro. As ocupações de terras tiveram a experiência da desocupação violenta do Pinheirinho no ano passado, e as ocupações atuais sofrem ameaças semelhantes.

A violência legítima é aquela que é assumida pelas massas. Não existem condições para que um pequeno grupo consiga derrotar a ação repressiva da polícia. Mas as massas em ação podem fazê-lo.

Esses grupos fazem o que querem, na hora que querem.  Depredam bancos e prédios públicos, mesmo que as categorias em luta não aceitem esse tipo de ação. Enfrentam a polícia sem que haja qualquer preparação ou autorização dos trabalhadores. Não respondem às categorias em movimento nem às suas entidades.

A autodefesa dos movimentos contra a polícia é um tipo de luta militar, uma extensão da luta sindical e política. Como pode um determinado grupo, de repente, querer se impor como direção de uma categoria em luta- no terreno militar como em qualquer outro- , sem ter autorização da base para que faça isso?

É isso que os Black Bloc’s querem fazer. E que tentam impor na marra, chegando a ameaçar os trabalhadores para que aceitem essa imposição. Em uma assembleia dos professores estaduais do Rio foram além: tentaram intimidar fisicamente professores para votar na proposta que eles defendiam, mesmo sem ser da categoria.

O pacifismo não é uma alternativa estratégica válida. Mas é a violência das massas e não de um pequeno grupo que poderá fazer a revolução. Por isso defendemos a autodefesa das massas e não a inconsequência dos Black Bloc’s.

Qual o programa dos Black Bloc’s?
Esses grupos são só “radicais” na metodologia, mas não têm um programa revolucionário. Qual é o programa defendido pelos Black Bloc’s?  Isso não é respondido por nenhum dos sites em que estão agrupados esses grupos.  Só se pode entender como um desprezo pelo programa, como se bastasse quebrar uma loja para derrotar o capital.

Os Black Bloc’s não defendem a revolução socialista. Muitos deles param na radicalização da democracia como horizonte político. Ou seja, no programa são reformistas, moderados.

Alguns dos grupos que compõem os Black Bloc’s são anarquistas, outros maoistas. Não mudam em nada o conjunto da ação desses grupos, que não é determinada por um programa revolucionário, mas pelas ações radicalizadas, despolitizadas e desligadas das massas.

Os Black Bloc’s defendem a depredação das fachadas de bancos, empresas e lojas de grifes porque assim estariam enfraquecendo o sistema.  Nós não temos nenhum apreço por essas instituições, muito pelo contrário. Mas consideramos que esses métodos não enfraquecem os grandes empresários. No máximo lhes causam um pequeno prejuízo para substituir as vitrines quebradas. No entanto, isso lhes dá um argumento para jogar a opinião pública contras as manifestações e preparar a repressão.

Nós não somos reformistas e nem pacifistas. Defendemos o programa da revolução socialista. Somos defensores da violência revolucionária, como parte da luta das massas e não de grupos de vanguarda. Não serão os acordos por cima ou as eleições que irão mudar o país. Entretanto, a verdadeira ação revolucionária é a ação das massas e não de pequenos grupos.

Para usar um exemplo concreto: o que mais causa prejuízo aos banqueiros? Uma greve ou algumas vitrines quebradas? Os métodos de luta e as ações radicalizadas das massas como as greves, os piquetes, as ocupações são muito mais eficazes e revolucionários que quebrar vitrines e lojas.  Assim como, defender um programa de ruptura com os banqueiros, a suspensão do pagamento da dívida e a estatização sistema financeiro para verdadeiramente destruir os bancos.

A história também nos ensina sobre isso…
A ação de pequenos grupos por sobre o movimento de massas e o culto à “coragem” não surgiram com os Black Bloc’s. Nas últimas décadas do século passado a grande defensora dessa metodologia era a guerrilha.

Inúmeros fracassos das alternativas guerrilheiras demonstraram que não tem nenhum futuro pensar a revolução como resultado de uma ação apenas de um setor de vanguarda, sem apoio das massas. Gerações e gerações de vanguarda foram dizimadas pelas forças armadas burguesas na América Latina, inclusive aqui no Brasil, por assumirem a tática da guerrilha, a luta armada como uma ação isolada das massas.

O imperialismo também aprende, não reproduzindo os erros cometidos em Cuba. Durante a revolução, o governo dos EUA empurrou Fidel Castro para a esquerda com seus boicotes. Um governo que em seus inícios não tinha nada de socialista teve de optar entre expropriar as empresas capitalistas ou ser derrotado. Isso nunca mais se repetiu.

Uma revolução é, necessariamente, violenta. Não existe forma de se combater a violência da burguesia e suas forças armadas sem violência das massas. E as massas já demonstraram que podem fazer maravilhas nesse terreno. Os negros haitianos derrotaram os exércitos dos principais impérios (Espanha, Inglaterra e França) da época na única revolução vitoriosa dos escravos da história. Os trabalhadores russos enfrentaram uma guerra civil promovida pelos exércitos de todas as potências imperialistas da época e venceram. O povo vietnamita impôs a primeira derrota ao poderoso exército norte-americano.

Mas a violência revolucionária legítima das massas não pode ser substituída por ações de vanguarda. Essa é a razão do fracasso das concepções guerrilheiras. Mais dia, menos dia, esses grupos tornam-se alvos fáceis da repressão policial.

Basta ver o resultado concreto das ações para definir sua legitimidade. As ditaduras foram derrubadas em todo o continente latino-americano, mas não pelas guerrilhas. Caíram pelas lutas das massas, como a campanha das diretas no Brasil.

Foram as grandes manifestações de massas de junho que começaram a mudar o Brasil e não a depredações de fachadas e vidraças dos Black Bloc’s.  Só uma revolução socialista, produto da ação das massas poderá mudar verdadeiramente o Brasil.