As lições do fotógrafo Ródtchenko

Alexandr Ródtchenko

Está em cartaz até 1º de maio, na Pinacoteca de São Paulo, a exposição de fotos de Alexandr Ródtchenko (1891-1956), maior fotógrafo da Rússia dos primeiros anos da revolução. Ródtchenko foi um dos mais importantes artistas do construtivismo russo, num período histórico turbulento, de guerras e revoluções, e por isso também uma época fértil para as novas visões na arte e as vanguardas estéticas. Visitou diversas formas de arte: a pintura, o design, a fotomontagem e a escultura, até descobrir as possibilidades artísticas da fotografia em 1924.

Ródchenko filho de lavadeira e de um camponês. Seu pai trabalhava num teatro, preparando cenários e decoração dos bailes. Ali passou a ser de fato a casa de Ródchenko. O que o separava do palco era uma escadaria estreita, que dava direto ao vão do teatro. Dizia que a vida do teatro era a vida verdadeira. “O que tinha lá fora – eu não tinha ideia”, recordava. Mas em vez de brinquedos ou máscaras, sua atividade preferida na infância era o desenho. O ambiente das coxias, as luzes do palco e o convívio com os atores se juntaram ao desenho, despertando no rapaz a sensibilidade artística e o levando a entrar mais tarde numa escola de arte.

Seu talento na pintura rebelde e seus traços modernos logo chegaram aos círculos artísticos de vanguarda, criando laços inevitáveis com a arte moderna e uma de suas expressões na Rússia, o construtivismo. Mais tarde, Ródchenko chegou a trabalhar em dois projetos com Tátlin, arquiteto e principal fundador do movimento.

O contato com o poeta futurista Maiakovski também contribuiu para sua formação artística. Ródchenko lembra da importância de ouvir numa assembleia um discurso do poeta, que cinco anos depois viria a se tornar um de seus maiores amigos.

O construtivismo respirava a modernidade. A verticalização das cidades, as novas tecnologias, uma nova visão de mundo inspirada pela revolução socialista na Rússia em 1917. Tudo isso acabou se traduzindo numa arte repleta de movimento, não figurativa, geométrica e sem muitas decorações. Assim como a fotografia, da pintura também não se exigia qualquer representação da realidade, tornando-se uma construção. Celebravam a tecnologia e, acima de tudo, o futuro.

A fotografia construtiva
“A fotomontagem me levou à fotografia”, disse em 1935. Ródtchenko e sua esposa Varvara Stiêpanova fizeram coisas surpreendentes com a fotomontagem, como as ilustrações a pedido de Maiakovski para o Pro Eto, seu poema sobre amor. Outra famosa é a que fez para a editora estatal e também as capas da revista Novi LEF, revista criada em torno da Frente da Esquerda na Arte, da qual Maiakovski e Ródtchenko faziam parte.

Na fotografia, buscava composição em diagonal e ângulos completamente inesperados e radicais, geralmente “de cima para baixo, ou de baixo para cima”, escreveu Ródtchenko à revista Novi LEF. Tais ângulos receberam inclusive o nome de “ângulos de Ródtchenko”.

Ao passear pelas 300 fotos que vieram de Moscou e já estiveram em exposição no Rio de Janeiro, sente-se que elas nos ensinam um olhar diferente. Elas expandem nossa visão do espaço ao redor. São imagens complexas, capturadas no dia a dia, em passeios pela cidade e suas construções, avenidas e pessoas.

Suas fotografias vão do fotojornalismo até cenas do cotidiano e da cidade. Mas não se trata de registro. Ródtchenko foi um dos que sepultou de vez a ideia da fotografia como simples retrato fiel da realidade. Para ele, “a fotografia é uma arte”, como revela no título de um artigo, em 1934. Como forma de expressão artística, Ródtchenko investiga uma linguagem própria para a fotografia “impossíveis de encontrar no desenho ou na pintura”.

No entanto, vale destacar as fotografias que fazia com pessoas, na maioria das vezes com pessoas próximas, como sua companheira. Estes retratos tinham um forte caráter psicológico, em especial os com Maiakovski, tirados em 1924. Num deles, o poeta ganha presença a ponto de podermos pensar que estamos sendo analisados. Outra famosa é o retrato de sua mãe, que aprendia a ler com idade já avançada, em que exalta a força de seu caráter.

Realismo Socialista: a estética como política de Estado
Quando Stálin e a burocracia assumem definitivamente o poder, convertem o sonho de futuro numa idealização de uma cultura proletária, um monopólio estético e empobrecedor da arte, sob a justificativa de se tornar mais compreensível para as massas. Surge o Realismo Socialista, e o Estado aponta suas armas para os artistas que não assumem a política oficial.

A política do Estado para a arte e a cultura possuía ainda uma explicação material. A burocracia precisava manter seus privilégios e construiu uma padronização, na qual todos os conflitos estariam apaziguados. Nesse realismo, o equilíbrio impera sobre os desequilíbrios da natureza humana e da realidade. É negado a angústia, o medo, as inquietações, as rebeldias e desassossegos de seu tempo. Tudo é estático. Tudo segue um manual de cores e formas, e, como propaganda oficial, não é mais capaz de incomodar, de revolucionar. Desta forma, a burocracia também buscava, acima de tudo, o controle social.

O realismo socialista condenou Ródtchenko ao ostracismo, o expulsou da União dos Artistas, e ele passou a fotografar para sobreviver. Perseguido, passa a ser chamado de formalista, um termo pejorativo usado pelo stalinismo para classificar os artistas “pequeno-burgueses”. É acusado de plágio e, anos mais tarde, é obrigado a sair do Outubro, grupo de fotógrafos criado por ele, por “não renunciar ao formalismo”.

Um de seus trabalhos importantes dessa fase foram as fotos da construção do Canal Mar Branco-Báltico. Nele fotografa presos políticos que, sob trabalho forçado, carregavam expressões de dor e sofrimento. Nunca pode ter essas imagens, retidas pelo stalinismo, editadas e usadas como propaganda para uma obra tida como monumental.

Escreveu, em 1943, no seu diário: “Arte é serviço para o povo, mas o povo está sendo levado sabe Deus para onde. Eu quero levar o povo à arte, não usar a arte para levá-lo a algum lugar.”

Os últimos anos de sua vida foram duros. Voltou para a pintura e dessa vez pintando palhaços tristes, insatisfeito com seus traços: “Refaço meus esboços. Não gosto deles. Mas não tenho força para novos” lamentava.

As fotos de Ródtchenko fizeram escola, se tornaram universais e sua vida nos traz lições. Nos calorosos combates com a ideia de se criar uma cultura “pura” e “proletária”, Leon Trotsky condena a tentativa de intervenção do partido na arte. “A arte deve encontrar seu próprio caminho. Os métodos do marxismo não são seus métodos. […] O campo da arte não está na esfera em que [o partido] é chamado a comandar”, dizia o revolucionário.

Hoje a arte enfrenta problemas. É possível fazer, com ressalvas, uma comparação entre o que foi o realismo socialista e o que é a indústria cultural hoje. A uniformização da arte moldada pelo mercado, esse sufocamento das vanguardas em prol da massificação de uma arte pobre e vulgar, seu papel pacificador e a rápida incorporação ao mercado de qualquer rebeldia artística, movimentos e novas linguagens nos coloca desafios. Ródtchenko é um grande exemplo. Lutar contra o capitalismo e contra toda forma de opressão é também lutar pela libertação da arte.

GALERIA DE IMAGENS: Os trabalhos de Ródtchenko

Mais informações:
Aleksandr Ródtchenko: revolução na Fotografia
19 de fevereiro a 1º de maio
De terça a domingo, das 10h às 17h30
Pinacoteca do Estado de São Paulo (Praça da Luz, 2, São Paulo)
Preço: R$ 6,00 e R$ 3,00 – Gratuito aos sábados
Contato: (11) 3324 1000