As aparências que enganam

Os trabalhadores estão entrando nessa crise econômica com uma venda nos olhos. Acreditam que Lula é um aliado que pode evitar que sejam prejudicados. A última pesquisa divulgada indica que a popularidade do governo nunca foi tão grande, mesmo depois do início da crise.

Os trabalhadores não acreditavam que a crise chegaria ao Brasil. Agora já sabem pela amplitude das demissões que atingem todas as categorias e regiões. Mas ainda acham que o governo não tem nenhuma responsabilidade, e que Lula faz o que pode. Houve até um pequeno crescimento na popularidade do governo depois da percepção da crise pelo povo brasileiro.

Para quem Lula governa?
A verdade, no entanto, é que Lula governa para as grandes empresas e não para os trabalhadores.

Na sociedade dividida em classes sociais não existe unidade entre patrões e trabalhadores para sair da crise. Alguém tem de pagar os custos de uma crise e ninguém vai querer fazer isso. Uma hipótese é apostar numa saída burguesa e obrigar os trabalhadores a aceitarem o desemprego e a miséria. Outra é defender uma saída operária, impondo à burguesia um corte drástico de seus lucros e a expropriação de suas empresas. São duas saídas opostas.

Em geral, quando o governo e a imprensa falam que todos devem colaborar, estão querendo defender a saída da burguesia e convencer os trabalhadores a pagarem os custos da crise.

Vejam só o que já está se passando: o governo Lula já deu, ou se comprometeu a dar, mais de R$ 300 bilhões às grandes empresas, dos quais R$ 160 bilhões são para os bancos. Esse é um dinheiro público que alguém terá de pagar. Isso corresponde a mais de R$ 1.600 por pessoa no Brasil, seja homem, seja mulher, seja criança. Assim, uma família de cinco pessoas vai ter de entregar cerca de R$ 8 mil aos ricos, aos donos das grandes empresas.

E de onde sairá este dinheiro? Da redução dos salários do funcionalismo público e do corte em serviços básicos como saúde e educação. O governo já anunciou um corte de R$ 37,2 bilhões no orçamento de 2009 (o primeiro de uma série), incluindo a redução de quase R$ 1 bilhão na educação e R$ 2 bilhões na saúde.

A outra grande jogada das grandes empresas, apoiadas pelo governo, é a imposição de acordos de redução de salários e direitos dos trabalhadores para supostamente manter o emprego. Nesses acordos, os únicos que se beneficiam são as empresas. Os trabalhadores aceitariam sem lutas um arrocho maior em seus salários. Amanhã, quando se comprovar que a crise está piorando, todos serão demitidos.

O governo, através da CUT e da Força Sindical, está ajudando a impor esses acordos. As redes de televisão ajudam com uma grande campanha para todo mundo colaborar para enfrentar a crise. Os trabalhadores contribuiriam com seus salários e as empresas fariam a bondade de não demitir… por enquanto.

Com quem vamos lutar?
Um provérbio chinês ensina que não se pode lutar se não se conhece quem são nossos inimigos. O apoio a Lula é uma trava para as lutas, porque gera a expectativa de que o governo resolva os problemas sem a necessidade de greves e mobilizações.

Aqui se demonstra o papel valioso do governo Lula para o grande capital: tem uma imagem marcada pelo seu passado de dirigente sindical, mesmo que seu governo sirva essencialmente aos interesses da grande burguesia.

Os trabalhadores terão de fazer sua própria experiência com este governo. A crise econômica vai fazer com que cada erro seja pago duramente. A venda nos olhos dos trabalhadores pode custar muitos empregos e derrotas.

Mas numa crise dessa dimensão, os meses valem anos, dias valem meses. A classe trabalhadora brasileira será obrigada a tirar suas próprias conclusões ao ver que a crise se aprofunda, ao contrário das previsões oficiais. Ao sentir que as demissões aumentam mesmo com dinheiro público dado as empresas. E ao ver que esses acordos só servem aos interesses dos patrões.

Veremos se a popularidade de Lula resiste aos próximos meses de agravamento da crise.

Qual é a saída então?
Não existe outra proposta realista que não seja a luta direta dos trabalhadores contra as demissões, sem redução de salários ou direitos. É preciso unificar os trabalhadores em luta, incluindo os que acreditam em Lula e os que já fizeram sua experiência com o governo.

É possível conseguir vitórias, mesmo num momento de crise econômica? Sim, é possível.

Em termos econômicos, as empresas acumularam grandes lucros que agora devem ser aproveitados para manter os empregos e salários dos operários. Em termos políticos, a insatisfação inevitavelmente vai crescer. De uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde, os trabalhadores vão ter de sair para a luta.

Uma plenária nacional em Belém, durante o Fórum Social Mundial, que incluiu a Conlutas e outras forças sindicais e populares, marcou um dia nacional de mobilizações e paralisações para 1º de abril.

Vamos lutar empresa por empresa, categoria por categoria, contra as demissões, sem aceitar nenhuma redução de salários ou direitos. Vamos unificar essas lutas no dia 1º de abril.

Post author Editorial do Opinião Socialista nº 366
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