ANEL no Chile: ‘El maremoto estudantil’

Clara no protesto dos estudantes chilenos

Clara Saraiva, da Comissão Executiva Nacional da ANEL esteve no Chile acompanhando as mobilizações estudantis no país. Leia abaixo o relatoOntem (14) foi o dia de paro nacional: uma convocação das principais entidades dos movimentos sociais do Chile, em especial as estudantis, para que houvesse marchas em diferentes cidades. Mesmo em plenas férias, os estudantes foram às ruas defender a educação.

Creio que participei do maior ato da minha vida, e sem dúvida o mais empolgante. A sensação de estar presenciando um ascenso que toma conta do país, que atravessa a vida de toda a população, que faz com que a defesa da educação gratuita e de qualidade seja algo incontestável por todos é indescritível. Participei do ato na cidade de Valparaíso, que está também muito mobilizada, e tem uma grande tradição de luta. Havia entre 30 e 40 mil no ato, pelo que se pode contar. Valparaiso é uma cidade com menos de 1 milhão e 500 mil habitantes, cheia de casinhas que se espremem uma ao lado da outra, todas coloridas, ocupando os morros da cidade. Muita charmosa e aconchegante.

“El Maremoto Estudiantil”
O que mais chama a atenção na marcha, é sem dúvida, a criatividade e irreverência da juventude chilena, e a firmeza de seguir até o fim. Havia de tudo lá. Bonecoes de papel machê com um estudante dizendo “SOS” e o governo “lucro”, um time de chicas de topless com o corpo todo pintado como um time de futebol com o nome dos governantes e um $ atrás, seguida de um bloco de Conga (musica cubana) com paródias em defesa da educação, vários carros dos carabineros (policiais) feitos de papelão, ridicularizando a repressão. Uma coluna com os “300 guerreiros”, fazendo uma paródia do filme, lutando pela educação, um leite gigante, uma paródia dos Simpsons, meninas fantasiadas de prostitutas, tartarugas que se rastejavam, os “infectados pelo sistema” todos cheios de feridas e andando como zumbis, vários lápis gigantes, muitos palhaços, malabares e coisas de circo, caveiras que eram as “vitimas do sistema”, pipas em defesa da educação… Além, é claro, de todo tipo de faixas e dizeres, cantos dos mais criativos, especialmente dos secundaristas, que pulavam, corriam, gritavam, se sentindo num verdadeiro êxtase: “chi, chi, chi, le, le, le, secundarios de chile!”. A presença também de outras entidades e movimentos sociais, como os trabalhadores do Porto que com seus enormes caminhões ficaram buzinando em apoio a nossa luta; foi um dos momentos mais marcantes da marcha. Os representantes estudantis disseram, e eu concordo: foi uma marcha que entrou pra história.

Em Santiago, a marcha chegou, de acordo com os organizadores, a 100 mil pessoas, também cheia de criatividade juvenil. Fiquei sabendo que outras vezes, já organizaram muitos protestos reunindo uma galera numa praça pra fazer um ato lúdico. Por exemplo, uma vez cerca de 500 estudantes fazendo a coreografia do Thriller, do Michael Jackson. Outra vez, mais de 1000 fizeram o “suicídio pela educação”, quando de uma hora pra outra em uma praça no centro da cidade todos caíram no chao, se fingindo de mortos, e tinha apenas uma menina com um cartaz dizendo que todos morreram esperando as reformas educacionais. Bom, voltando à marcha de ontem… Quem acompanhou nos jornais deve ter visto que houve muita repressão em Santiago. Aqui, para fazer uma mobilização, o governo deve autorizar (!) o trajeto que a marcha vai fazer. E dessa vez, autorizaram um trajeto mais distante do centro, e obviamente os estudantes – que não estão muito preocupados com a legalidade neste momento – fizeram o ato onde sempre se faz, em frente ao palácio do governo “La Moneda”, na Plaza de Itália. Desde o comecinho do ato, os carabineiros foram pra cima dos manifestantes. Com os já conhecidos gás lacrimogêneo e jatos d`água, buscavam dispersar os manifestantes que jogavam pedras na polícia. Depois de dissolver um primeiro grupo que se enfrentava mais diretamente com a polícia, partiram para o resto do ato, que concentrava as manifestações culturais e as colunas de cada universidade e colégio. Durante duas horas, a principal rua de Santiago, Alameda, se tornou um verdadeiro campo de batalha. Uma repressão terrível do governo, em uma manifestação pacifica! Mais uma demonstração que não está disposto a qualquer dialogo e que não está disposto a ceder. Azar o dele: os estudantes também não.

Participei de uma reunião dos pais de alunos de um colégio ocupado em Valparaíso e foi incrível. Estavam presentes os pais, parentes e representantes estudantis. O nível de conscientização das famílias, e da necessidade que entrem também na luta é muito grande. Uma mãe dizia na reunião, que o governo quer que se fazer de vitima, utilizando de um discurso que está disposto a negociar, que já deu várias propostas e que o movimento que é intransigente e só quer fazer baderna. Mas o problema é que as propostas que deu não passam nem perto de solucionar os problemas! Em todas as reuniões em que estive, há uma certeza muito grande que as lutas devem se seguir, ampliar suas reivindicações e alianças com outros setores de trabalhadores. E todos tem certo que precisam enfrentar com forca a próxima semana, porque a seguinte será determinante para a continuidade ou não das lutas: as aulas vão voltar. Se se seguem as ocupações depois da volta as aulas, sem dúvida o movimento ganha uma forca muito maior.

“As veias da América Latina ainda seguem abertas”
Esses dias que passei aqui no Chile, na minha primeira viagem a algum país da América Latina, senti como nunca como somos “hermanos latino-americanos”. Esse sentimento de união entre nós, que os chilenos me fizeram sentir quando sorriam de alegria e me abraçavam com forca por saber que no Brasil tem apoio também para sua luta, é algo que temos que nos agarrar com força. Os planos do imperialismo para a educação, especialmente do Banco Mundial e do FMI, são os mesmos para o conjunto da America Latina. Dizia-lhes que passávamos pelos mesmos problemas, que havia um Plano Nacional de Educação no Brasil que iria avançar mais na privatização e que podíamos chegar a ter, como eles, todas as universidades publicas com cobrança de taxas e completamente privatizadas, e eles também nos davam incentivos para lutar.

Ficaram muito impressionados, especialmente os representantes das entidades, com a forma de organização democrática da ANEL. Um chico do centro de estudiantes do Liceo Eduardo de la Barra me disse, depois de lhe explicar o funcionamento da ANEL: “Isso é um sonho meu de ter algo assim aqui! Precisamos de uma entidade como essa.” – e eu lhe incentivei que criassem. A aliança com secundaristas e universitários e o controle pela base era o lhes chamava mais atenção, porque as entidades aqui, especialmente de universitários como a CONFECH, são extremamente burocráticas. O movimento, porém, é mais forte e está fazendo avançar uma reorganização pela base muito grande. Essa reorganização, junto com a forca das mobilizações e com a alianca cada vez maior com os trabalhadores, ainda vai fazer o governo Piñera tremer na base. Lutando para que caia o Ministro da Educação, por um Plebiscito oficial sobre a gratuidade do ensino, uma reforma estrutural na educacao e por uma mudanca constitucional, eu espero – e junto comigo todos os “chilenos libres” – que ganhe cada vez mais forca esta luta, “hasta la victoria”.

“Yo que soy americano,
no importa de que país,
quiero que mi continente
viva algún día feliz.
Que los países hermanos
de Centroamérica y sur
borren las sombras del norte
a ramalazos de luz.
Si hay que callar
no callemos,
pongámonos a cantar.
Y si hay que peliar,
peliemos,
si es el modo de triunfar.
Por toda América soplan
vientos que no han de parar.
Hasta que entierren las sombras,
no hay orden de descansar.”

Inti-Illiami,
La Segunda In