Aí vem a crise

O Opinião Socialista está retomando as atividades em 2008. E o principal fato político deste início de ano é a crise econômica internacional.

Uma das contradições marcantes de Lula é que o primeiro governo de “esquerda” da história brasileira (na verdade um governo burguês com “cara de trabalhador”) foi até agora beneficiado pelo crescimento econômico capitalista.

Lula e o PT, espertamente, têm tirado proveito político do crescimento, como se ele fosse produto de sua “preocupação social”. A distribuição de migalhas – como a “Bolsa Família” e o reajuste do salário mínimo acima da inflação – foram transformados, na consciência dos trabalhadores, em demonstrações de que Lula se importa com o povo “porque veio de baixo”. E é inegável que, até agora, essa manobra política vinha dando certo.

O ano começou mal para o governo. As notícias indicam que a crise econômica já começou em nível internacional. E os propagandistas do governo saíram a campo para afirmar que o Brasil escapará da crise. Dizem, com ar de “cientistas”, que os “fundamentos da economia são sólidos”. Com isso, estão afirmando que Lula trabalhou bem para o capital internacional e que deu continuidade ao plano neoliberal dos governos do PSDB. Por ter “feito o dever de casa”, Lula teria agora condições de “escapar da crise”, porque tem o apoio dos grandes bancos e uma alta reserva internacional.

O problema é que são exatamente os grandes bancos (os maiores beneficiários do neoliberalismo) que estão em crise. É o governo dos EUA – que dita através do FMI, receitas econômicas neoliberais para os países semicoloniais imporem superávits primários – que, neste momento, tem o maior déficit de sua história.

E, como sempre, eles vão buscar descarregar a crise nos ombros dos trabalhadores e dos países dominados. Por isso, o imperialismo não hesitará em detonar também o seu “amigo Lula”.

Essa idéia de que o Brasil vai escapar da crise ainda tem eco entre os trabalhadores porque a economia brasileira segue crescendo. Como reflexo do período de crescimento mundial que agora está se esgotando, o Brasil ainda crescerá por alguns meses. Depois, essas ideologias se chocarão contra parede.

O segundo mandato de Lula já vinha sendo marcado por diferenças políticas em relação ao primeiro. Agora, existem mais rupturas com o governo nos movimentos sindical, estudantil e popular, que se expressam majoritariamente através da Conlutas. Foi isso que possibilitou o plano de lutas desenvolvido em 2007, com o Dia Nacional de Mobilizações (em 23 de maio) e a Marcha sobre Brasília, em outubro.

Agora, com a perspectiva de que o segundo mandato seja marcado pela crise econômica, as diferenças com o primeiro mandato vão se ampliar. Abre-se a possibilidade de novas e sérias crises políticas e de novas rupturas com o governo.

O governo e a burguesia têm suas cartas. A burguesia buscará lançar o fantasma do desemprego para bloquear as mobilizações. As direções pelegas (CUT e UNE) vão dizer que a culpa não é de Lula, mas da crise internacional (as “vitórias” são de Lula, os problemas são culpa dos “outros”).

Mas, é evidente que a crise econômica terá reflexos profundos no Brasil. Decididamente, o inicio de 2008 confirma que o segundo mandato de Lula não será como o primeiro.

Post author Editorial do Opinião Socialista nº 326
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