A violência contra homossexuais prossegue na capital paulista

O final do ano de 2010 está por uma onda ininterrupta de ataques contra homossexuais, principalmente na capital de São Paulo. Sucessivas notícias nos jornais têm mostrado uma onda de agressões físicas nas últimas semanas. A maior parte delas ocorre nas imediações da Av. Paulista.

Paralelamente o governo Lula anunciou a criação do Conselho Nacional de Combate à Discriminação. O objetivo do conselho é “debater” e “sugerir” formas de aplicação das 166 medidas propostas pelo Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos LGBT, definido pela Conferência nacional LGBT em 2008.

O avanço da violência
No Brasil um homossexual é assassinado a cada dois dias segundo dados do Grupo Gay da Bahia – GGB. Neste ano, além dos recentes casos de agressão no centro de São Paulo, diversas travestis e transexuais foram assassinadas violentamente na grande São Paulo e em Campinas.

Nos casos registrados nos últimos dias os agressores são, geralmente, playboys da classe média ou skinheads e neofascistas de toda ordem. O perfil dos ataques é de uma covardia imensa. Na maioria dos casos são ataques de grupos de carecas contra gays em menos número, utilizando armas brancas como bastões, lâmpadas fluorescentes, soco-inglês e outros instrumentos típicos de gangues de marginais.

Mas os crimes também acontecem no terreno virtual. Segundo estudo realizado pela ONG SaferNet, os crimes de ódio na internet contra homossexuais aumentaram 88% entre 2009 e 2010. O aumento chama mais a atenção se comparado com crimes de racismo e xenofobia, que diminuíram no mesmo período, o que sugere que a evolução da homofobia segue uma lógica distinta das demais formas de preconceito.

Outro estudo interessante realizado pelo Centro de Combate a Homofobia – (CCH) e pela Coordenadoria de Diversidade Sexual (Cads) traz mais um dado revelador. Entre 2006 e 2009 os casos de denúncia de agressões físicas revelam que 20% são em casa, 2% no trabalho e 78% no espaço público. Ou seja, é na rua que a população GLBT está mais ameaçada.

Cumplicidade e incentivo – mídia, igrejas e presidenciáveis
Ao contrário de outras formas de discriminação, a homofobia possui um componente ideológico mais forte. Falsas idéias como a de que ser gay ou lésbica é uma opção, de que a homossexualidade é uma doença, um desvio de comportamento ou um pecado mortal e uma ofensa a deus fazem parte do entendimento da maioria das pessoas. Esse é o contexto que encoraja e legitima o preconceito e a violência.

Nessa situação, devemos nos perguntar quem difunde tais ideologias? A resposta não é difícil de ser encontrada. A mídia é a primeira delas. Com programas humorísticos de quinta categoria ajudam a disseminar piadas e a ridicularizar GLBTs de todas as formas possíveis. Seu papel é tornar algo natural e corriqueiro a interiorização de gays e lésbicas, associar a idéia de fragilidade e apresentá-los de forma caricatural.

Além da mídia e juntamente com ela vemos as igrejas evangélicas e católica. A reação fundamentalista dos setores religiosos é a mais explicita. Como procuradores de deus, pastores que não passam de mercadores da fé declaram guerra aberta aos GLBTs. Por travarem a discussão na base da fé cega manipulam as pessoas e impedem qualquer argumento racional. A igreja católica, por sua vez, a cada novo escândalo de pedofilia entre seus membros, joga a culpa nos homossexuais. Tanto num caso como em outro nos apresentam como inimigos da sociedade, da família, da propriedade privada, de deus e da ordem capitalista em geral.

Outro ponto de difusão pouco comentado é o sistema de ensino. Para os marxistas e os revolucionários em geral, as escolas nada mais são do que aparelhos de reprodução das ideologias necessárias para manter a ordem. O problema é que as escolas e universidades recobrem seu preconceito de cientificismo e falsa neutralidade. Seguem difundindo modelos de comportamento que são oriundos das igrejas e continuam fugindo dos temas “tabus”. O melhor exemplo foi a recente declaração da Universidade Presbiteriana Mackenzie, contra a criminalização da homofobia.

Por fim, e como síntese, não podemos deixar de denunciar o papel lamentável dos presidenciáveis nesta última eleição. Enquanto a Argentina acaba de aprovar a união civil e o direito de adoção, Serra e Dilma, no grande mercado de votos, abraçaram as reivindicações mais reacionárias das igrejas e se comprometeram a não tocar no aborto e nos direitos dos homossexuais. A manutenção do preconceito, no segundo semestre de 2010, ganhou tratamento político e tornou-se preocupação de Estado. Ou seja, a camarilha que ocupa os postos chave da democracia burguesa garantiu que as instituições do Estado burguês continuarão a serviço da reprodução da ordem de exploração e opressão.

Com isso, fica mais fácil compreender a atual onda de violência. Agora, os skinheds, neonazistas, carecas e bandidos homofóbicos de toda sorte podem contar com o apoio e o respaldo de Deus, pátria e da família (burguesa).

O governo e o movimento GLBT, um eterno debate
Nessa mesma semana, o governo anunciou a criação do Conselho Nacional de Combate a Discriminação. O problema é que o objetivo do conselho é debater o que já foi debatido no Plano Nacional de Direitos Humanos, que debatia o que foi debatido na Conferência Nacional GLBT, que debateu o que foi debatido no programa Brasil sem Homofobia. E lá se vão 8 anos de governo Lula.

Enquanto as declarações de boa vontade do governo para com o movimento se multiplicam tal como o milagre do pão e do peixe, a violência aumenta descaradamente. Ao mesmo tempo, os principais grupos do movimento seguem defendendo este governo demagogo e pedindo paciência à população GLBT.

Para nós do PSTU é preciso que o movimento deixe de ser refém da frente popular e adote uma postura combativa de verdade. Os limites a que a violência está chegando exigem, por motivos de sobrevivência, que façamos nossa luta por fora dos corredores de Brasília, nas ruas, nos sindicatos, nas escolas e universidades.

Nosso caminho é a luta
O Brasil está presenciando uma escalada de homofobia. Não podemos esperar pelo governo de Lula e de Dilma, que está muito ocupada tentando realizar uma nova reforma da previdência contra os trabalhadores e aposentados. É preciso retomar o espírito de Stonewall que deu origem ao movimento gay moderno. É preciso ir às ruas lutar pela criminalização da homofobia, pela união civil e por igualdade de direitos. É preciso enfrentar os covardes skinheads e demais homofóbicos com ação direta e politizada. É preciso retomar o orgulho GLBT.