A União Soviética e o veredicto da história

Muitos “trotskistas”, depois da restauração do capitalismo na ex-URSS, abandonaram o movimento com o argumento de que Trotsky havia se equivocado. As novas gerações de marxistas de língua portuguesa agora podem ter acesso a “A Revolução Traída. O que é para onde vai a União Soviética” e fazer seu próprio julgamento, para ver se Trotsky se equivocou ou, pelo contrário, como opinamos nós, nessa questão, ele não só foi brilhante, como genial.

Renegando a revolução mundial
Fica difícil dar um marco aos fatos atuais se não os localizamos com base na polêmica que começou em 1924 entre Trotsky e Stalin. Depois da morte de Lenin, no outono de 1924, Stalin começou a falar em “socialismo num só país”. Hoje, esse tipo de teoria não surpreenderia ninguém, porque a maioria da esquerda defende alguma variante de “socialismo nacional”. No entanto, nesse momento, a teoria de Stalin significou uma lamentável novidade para o conjunto do marxismo, que só concebia o socialismo do ponto de vista internacional.

Trotsky, armado com a Teoria da Revolução Permanente, combateu desde o primeiro momento as idéias de Stalin e, por isso, foi acusado de agente do imperialismo, de não confiar na revolução, de não confiar na classe operária, nos camponeses etc.
Evidentemente, Trotsky nunca defendeu que a revolução não podia triunfar em âmbito nacional (entre outras coisas porque ele havia sido um dos máximos dirigentes da Revolução Russa). O que ele defendia era que um país atrasado, como Rússia, não podia chegar ao socialismo de forma isolada, o que é uma coisa bem diferente.

Stalin, pelo contrário, não só defendia que a URSS, de forma isolada, poderia chegar ao socialismo, como achava que ela já era socialista. Dessa forma, a teoria de Stalin não serviu apenas para justificar a política de coexistência pacífica com o imperialismo, como também para criar uma enorme confusão na cabeça da esquerda e do proletariado mundial sobre os objetivos de nossa luta, confusão que se mantém até hoje, até mesmo nas fileiras do trotskismo.

Socializando a miséria
Stalin vulgarizou o ideal socialista. Até Stalin, para todo o marxismo, o socialismo era sinônimo de um regime superior ao capitalismo em todos os terrenos. A partir de Stalin, o socialismo começou a ser identificado com a socialização da miséria.

O socialismo era entendido por Marx como a primeira fase do comunismo. Aquela em que os trabalhadores ainda não podem receber os produtos de acordo com sua necessidade, nem podem trabalhar de acordo com sua capacidade, mas que era superior em todos os terrenos ao capitalismo.

O governo de Stalin dizia: “Não nos encontramos ainda, naturalmente, no comunismo completo, mas já realizamos o socialismo, ou seja, o estágio inferior do comunismo”. Coerente com sua idéia de que o socialismo seria uma fase superior ao capitalismo, Marx não esperava que a primeira revolução triunfasse na atrasada Rússia, e sim na avançada França, mas a história nos pregou uma peça. O desenvolvimento desigual da economia mundial fez com que os países atrasados não pudessem se desenvolver mais sobre bases capitalistas. Um desses países era a Rússia, onde triunfou a primeira revolução socialista e esse fato não previsto por Marx estabeleceu uma enorme distância entre a vitória da revolução socialista e o socialismo.

Para que a Rússia chegasse ao socialismo necessitava alcançar e ultrapassar as maiores potências imperialistas. Para Trotsky, isso era impossível pela simples razão de que o mundo continuava sendo dominado pelo imperialismo. Dessa forma, a batalha pelo socialismo na URSS não dependia apenas da arena nacional, mas, sobretudo, da internacional. Por isso, considerava a teoria de Stalin de “socialismo num só país” como uma utopia reacionária.

Contra a corrente
O mais importante a ressaltar para entender a genialidade de Trotsky é que o livro “A Revolução Traída” foi escrito em 1936, num momento em que todos os dados da realidade pareciam dar razão a Stalin e não a Trotsky.

Nesses anos, o desenvolvimento da União Soviética, dirigida por Stalin, era impressionante. Trotsky fala sobre isso em “A Revolução Traída”: “nos últimos dez anos (1925-1935), a indústria pesada soviética aumentou sua produção dez vezes (…) Durante os três últimos anos, a produção metalúrgica cresceu duas vezes, a de aço e aço laminado cerca de duas vezes e meia. Em 1920, quando se decretou o primeiro plano de eletrificação, o país tinha dez estações locais com uma potência total de 253 mil kW. Em 1935, já havia 95 estações locais, com uma potência total de quatro milhões de quilowatt. Em 1925, a URSS ocupava o 110 lugar no mundo em produção de energia elétrica; em 1935, era inferior apenas à Alemanha e ao Estados Unidos. Na extração de hulha, a URSS passou do 100 ao 40 lugar. Quanto à produção de aço, passou do 60 ao 30. Na produção de tratores, ocupa o 10 lugar no mundo. O mesmo ocorre com a produção de açúcar”.

Os resultados práticos alcançados na URSS causavam uma imensa comoção em todo o mundo. Os intelectuais cantavam loas ao “guia genial dos povos”. Os partidos comunistas em todo o mundo se massificavam e inclusive muitos dos antigos opositores de Stalin se autocriticavam e se declaravam seus fiéis seguidores.

Trotsky deu uma enorme importância a esses números: “Os imensos resultados obtidos pela indústria, o início promissor de um florescimento da agricultura, o crescimento extraordinário das velhas cidades industriais, a criação de outras novas, o rápido crescimento do número de operários, a elevação do nível cultural e das necessidades, são os resultados indiscutíveis da Revolução de Outubro, na qual os profetas do velho mundo acreditavam ver a tumba da civilização. Já não há necessidade de discutir com os senhores economistas burgueses: o socialismo demonstrou seu direito à vitória, não nas páginas de O Capital, mas numa arena econômica que engloba a sexta parte da superfície do globo; não na linguagem da dialética, mas na do ferro, do cimento e da eletricidade. Mesmo no caso de que a URSS, por culpa de seus dirigentes, sucumbisse aos golpes do exterior – coisa que esperamos firmemente não ver – ficaria, como prenda do futuro, o fato indestrutível de que a revolução proletária foi o única que permitiu a um país atrasado obter, em menos de vinte anos, resultados sem precedentes na História”.

Trotsky contudo não se deixou enganar por esses números: “Caracterizar o êxito da industrialização só pelos índices quantitativos é o mesmo que querer definir a anatomia de um homem valendo-se unicamente de sua estatura, sem indicar o diâmetro do peito (…) Apesar de seu marasmo e prostração, o capitalismo possui uma enorme superioridade na técnica, na organização e na cultura do trabalho”. E agregava: “Os coeficientes dinâmicos da indústria soviética não têm precedentes. Mas não bastarão para resolver o problema nem hoje, nem amanhã. A URSS sobe partindo de um nível espantosamente baixo enquanto os países capitalistas, pelo contrário, descem a partir de um nível muito elevado”. Como prova, dava vários exemplos, entre eles, um muito significativo: “O consumo de papel é um dos índices culturais mais importantes. Em 1935, eram fabricados na URSS menos de quatro quilos de papel por habitante; nos Estados Unidos, mais de 34 (contra 48 em 1928); na Alemanha, mais de 47 quilos”.

Isolamento e restauração capitalista

Depois de expor esses dados, Trotsky dizia: “o regime soviético atravessa atualmente uma fase preparatória em que importa, assimila, se apodera das conquistas técnicas e culturais do Ocidente. Os coeficientes relativos à produção e ao consumo atestam que esta fase preparatória está longe de encerrar-se; mesmo admitindo a hipótese pouco provável de um marasmo completo do capitalismo, esta fase durará ainda todo um período histórico. Essa é a primeira conclusão de extrema importância a que chegamos”. Mas, para Trotsky, essa enorme desigualdade entre as grandes potências capitalistas e a URSS, que obrigava a esta a apoderar-se dos avanços daquelas, faria o Estado operário pagar um alto preço: “Quanto mais tempo a URSS fique cercada de capitalismo, tanto mais profunda será a degeneração dos tecidos sociais. Um isolamento indefinido deve trazer, inevitavelmente, não o estabelecimento de um comunismo nacional, mas a restauração do capitalismo”.

Por esse tipo de declaração, Trotsky foi atacado violentamente. Segundo seus críticos, ele não estaria confiando no socialismo. Esses ataques não passavam de calúnias. Trotsky não confiava era na burocracia. Por isso, punha uma condição para a vitória: “a classe operária terá, em sua luta pelo socialismo, que expropriar a burocracia, e sobre sua sepultura poderá colocar este epitáfio: ‘Aqui jaz a teoria do socialismo em só país’”. A classe operária russa não conseguiu expropriar a burocracia e, por isso, o que Trotsky anunciava em 1936, como sendo inevitável, se transformou, nos anos 80, em realidade. O capitalismo foi restaurado.

A remoção de um obstáculo
Trotsky, inimigo mortal da burocracia, soube diferenciar entre o Estado operário burocratizado e sua direção. Por isso, chamou a fazer uma revolução política para preservar as conquistas de Outubro (a propriedade nacionalizada, a planificação econômica central e o monopólio do comércio exterior) e expulsar a burocracia do poder. Insistiu em que, se fosse restaurado o capitalismo, isso provocaria “uma queda catastrófica na economia e na cultura”. Esse prognóstico de Trotsky se confirmou totalmente e dessa forma desmentiu aos não poucos “trotskistas” que depois da restauração chegaram à conclusão de que os trabalhadores não tinham nada a defender no Estado operário burocratizado. Por responsabilidade direta da burocracia, a classe operária mundial perdeu as últimas conquistas que sobraram da Revolução de Outubro de 1917.

No entanto, é preciso ver que a burocracia soviética pagou um alto preço por sua traição. O aparato stalinista foi ferido de morte. Dessa forma, a classe operária mundial livrou-se do maior obstáculo que tinha para avançar em direção a sua liberação.

Hoje vivemos uma nova etapa de grande ascenso: Iraque, Venezuela, Equador, Bolívia, Palestina e muitos países são prova do que dizemos, e esse novo ascenso não está mais diante da necessidade de enfrentar o poderoso aparato stalinista. Mas não estamos defronte de um “caminho de rosas”. Na cabeça dos novos lutadores, apresenta-se uma enorme confusão e todo tipo de preconceitos que vêm dos processos do Leste, e isso dificulta a tarefa de construir a direção revolucionária. Mas ainda existem novas organizações, com novas direções, que encarnam essas posições e se transformam em importantes obstáculos para que as ações revolucionárias das massas continuem avançando. Poderão as massas vencer esses novos obstáculos? Não podemos saber. A História não está escrita de antemão. Há uma batalha em curso e o tema é: quais são as condições em que daremos essa batalha? E essa pergunta precisa ser respondida sem ambigüidade. As condições, sem o aparato stalinista pela frente, são extremamente mais favoráveis para a classe operária e as massas. Então, sem dúvida, podemos dizer: temos direito de ser otimistas.

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