A revolta dos meninos em Salvador

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No final de agosto e início de setembro, os olhares de todo o país se voltaram para o levante juvenil de Salvador contra o aumento da passagem de ônibus. Seguindo a “lógica suprema” do capitalismo, de que os serviços básicos prestados à população devem dar lucro, a tarifa do transporte coletivo em Salvador teve um aumento acima de 15%. A passagem do “buzu” aumentou de R$ 1,30 para R$ 1,50.

Este aumento, casado com a situação de crise social generalizada no país, fez explodir uma das maiores mobilizações da juventude dos últimos tempos. Por duas semanas, as ruas de Salvador foram completamente tomadas pelos secundaristas. Foram mais de 40 bloqueios simultâneos que chegaram a somar mais de 20 mil pessoas fechando ruas.

Ora organizados pelos grêmios, ou por sua própria conta, os secundaristas se reuniam nas escolas e tomavam as ruas. Em um ritmo frenético, bloqueavam os principais pontos da cidade durante o dia todo. Não raro os bloqueios se encerravam depois das 22h.

Quando não reuniam um contingente suficiente para um bloqueio, subiam e desciam as ladeiras de Salvador à procura de outros grupos ou de um bloqueio que já estivesse ocorrendo. Este vai e vem dos estudantes por toda a cidade produzia um clima fantástico de mobilização constante.

Ao final dos bloqueios, os piqueteiros implementavam o “passe-livre”, os passageiros entravam pela porta de saída dos ônibus e no dia seguinte, o ritual da mobilização se repetia.

A mobilização contou com um enorme apoio da população. As passeatas eram recebidas com “buzinaços” e aplausos. Pesquisa de um jornal local comprovou que mais de 80% da população depositavam suas esperanças na mobilização estudantil.

Outro fato importante é que, fruto da dimensão da luta e do imenso apoio popular, a polícia de Salvador, uma das mais violentas do país, se limitava a observar os bloqueios.

Entre as diversas ações, vale ressaltar o grande bloqueio do Iguatemi (centro financeiro e principal entroncamento de avenidas da cidade) que reuniu mais de dez mil pessoas, os bloqueios constantes do terminal da Lapa (principal terminal urbano) e a paralisação do desfile de Sete de Setembro por uma “marcha da juventude”, que reuniu mais de 3.000 estudantes e estragou a “festa cívica” do prefeito Imbassay (PFL) e de ACM.

CRONOLOGIA

29/8 – Primeira passeata dos estudantes.
1/9 –Aumento da tarifa de ônibus de 1,30 para 1,50. Os estudantes começam a paralisar o trânsito na estação da Lapa.
2/9 – Mobilização estudantil pára vários pontos. Pela primeira vez o trânsito em frente ao Iguatemi é paralisado, fechando as vias de acesso do centro aos demais bairros.
`Manifestação
3/9 – Pressão no Palácio Tomé de Souza. Mais de 15 mil estudantes saem às ruas. Conquista da meia-passagem para o ano inteiro. UBES e UNE dão golpe na comissão de negociação eleita em plenária na qual haviam sido excluídas. Montam nova comissão e fecham acordo com o prefeito mantendo a tarifa a 1,50 e se comprometendo a por fim à luta.
4/9 – Plenária com mais de mil estudantes repudia acordo e desautoriza comissão. UNE e UBES são impedidas de conduzir a plenária, militante do PC do B tem camisa rasgada e os estudantes voltam às ruas.
5/9 – Na TV, a UBES chama os estudantes a não saírem das escolas. Mesmo assim os estudantes voltam às ruas parando o trânsito.
7/9 – Estudantes invadem desfile da pátria.
8/9 – Após orientação do PT e PC do B e forte repressão, estudantes não têm força para continuar com os protestos de rua.

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