A quem serve o “apartidarismo”?

O movimento estudantil vive uma situação peculiar. Em qualquer assembléia, reunião ou plenária pipocam intervenções “contra os partidos”. Alguns se declaram “apartidários”, outros “apolíticos”. Pertencer a um partido político está, no mínimo, fora de moda. “Querem aparelhar!”, gritam alguns. “Só fala se tirar o boton!”, ameaçam outros. “Abaixa essa bandeira!” ordenam terceiros.

Nas páginas deste jornal, totalmente partidário e político, gostaríamos de dialogar sobre este importante tema.

Independente sim, mas do quê?
O marxismo defende a completa independência de sindicatos e organizações estudantis, em primeiro lugar, com relação às instituições alheias aos movimentos sociais. Ou seja, mais do que tudo, defendemos a independência das entidades com relação ao Estado.

A adaptação da CUT e da UNE ao Estado burguês acelerou enormemente sua degeneração. Ambas são hoje braços do Estado no movimento de massas. Nesse sentido, nada mais emblemático do que a nomeação de Luis Marinho, presidente da CUT, para o Ministério do Trabalho. Por sua vez, a UNE recebeu de distintos órgão estatais, somente este ano, mais de um milhão de reais para “projetos”. Está claro: não são mais organizações independentes.

Em segundo lugar, defendemos a independência dos movimentos sociais com relação à patronal, às reitorias e às direções de escolas. Não aceitamos patrões nos sindicatos em que atuamos. Nos DCEs, não recebemos ajuda de nenhuma reitoria se isso significar a restrição ao nosso direito de crítica. Com essa atitude, visamos, mais uma vez, manter a independência da entidade.

Em terceiro lugar, defendemos sim a independência organizativa das entidades com relação aos partidos políticos e combatemos o seu aparelhamento por quem quer que seja. Autonomia significa que são as instâncias das entidades que devem tomar as decisões. Nessas instâncias, todos devem ter o direito de defender suas posições: revolucionários e reformistas, organizados ou não em partido.

Por outro lado, os marxistas reconhecem que a sociedade é divida em classes sociais que lutam entre si por meio de partidos e de outras organizações. Pretender que as entidades sejam “independentes” dessa luta significa, na prática, entregá-las nas mãos da direita e da burguesia, cujo dinheiro, televisão e intelectuais influenciam o conjunto da sociedade. Por isso, a completa “independência” do movimento com relação aos partidos políticos é uma utopia que só serve aos poderosos.

O movimento estudantil deve ser amplo e democrático, mas não pode ser “neutro” em uma sociedade marcada pela luta de classes. Deve escolher um lado. Quanto mais o movimento estudantil se aproxima dos partidos e organizações da classe trabalhadora, maior é a sua verdadeira independência: a independência com relação ao Estado, à burguesia e seus agentes.

O “apartidarismo” sempre serviu à direita
Em 1923, Trotsky escrevia: “Os comunistas não temem a palavra ‘partido’ porque seu partido não tem, nem terá, nada em comum com os outros partidos. Seu partido não é um dos partidos políticos do sistema burguês (…). Por isso, os comunistas não têm nenhuma razão – nem ideológica, nem organizativa – para se esconder atrás dos sindicatos”. E mais adiante: “Mas, ao mesmo tempo, o Partido Comunista reserva-se o direito de expressar suas opiniões sobre todos os problemas do movimento operário, inclusive sobre os sindicatos, de criticar as táticas dos sindicatos e de fazer-lhes propostas definidas que estes, por seu lado, são livres para aceitar ou rejeitar. O partido trata de ganhar a confiança da classe operária e, sobretudo, do setor organizado em sindicatos”.

Como se vê, a polêmica sobre a participação dos revolucionários nos movimentos sociais não é nova. Mas a luta “contra os partidos” nunca foi uma bandeira do próprio movimento, e sim da direita.

No Brasil, foi a ditadura militar quem mais utilizou o discurso “apartidário” para combater o movimento estudantil. Os militares acusavam os ativistas de “partidarizar os CAs” e exigiam medidas concretas dos reitores contra a atuação dos partidos nas universidades. Na tentativa de desarticular o movimento, a ditadura perseguia os estudantes filiados a partidos. Somente esse fato bastaria para se entender o enorme desserviço prestado ao movimento pelos defensores do “apartidarismo”, cujo discurso é igual àqueles pronunciados por generais e reitores durante os piores anos de nossa História.

Mas tudo muda. Os anos 80 foram anos de grandes liberdades democráticas. O país saía da ditadura, fora declarada anistia. Nesse período, a forma de organização do ativismo passou a ser não só os CAs e DCEs, mas também os partidos políticos de esquerda. Depois de um período de “militância independente”, a maioria dos ativistas ingressava em um partido político para defender de forma organizada suas posições. Naqueles anos, nada parecia mais óbvio. As organizações de esquerda disputavam os espaços nas universidades e escolas: vendiam seus jornais, organizavam debates, buscavam atrair novos membros. O movimento estudantil vivia uma enorme efervescência e a organização política era o caminho natural de todo lutador.

O muro de Berlim e o “apartidarismo”
Em 1989, cai o muro de Berlim. O imperialismo utilizou-se desse fato para desencadear uma enorme ofensiva ideológica em todo o mundo. Começou a se falar em “morte do socialismo”, “fim da luta de classes”, “fim da História”. Para uma parte importante da esquerda, era como se o muro de Berlim tivesse caído sobre suas cabeças. Desiludidas com o “socialismo real”, essas organizações absorveram os argumentos do imperialismo e aos poucos foram abandonando a luta social para adotar, cada vez mais, uma estratégia puramente eleitoral. Todos repetiam em coro: “o stalinismo é a continuação do leninismo”, “é preciso repensar a esquerda” etc.

Com isso, essa esquerda, antes revolucionária e marxista, se tornou de fato muito parecida com os partidos burgueses, já desgastados perante as massas pela corrupção e roubalheira em que sempre estiveram envolvidos.

As organizações de esquerda foram vítimas de um vendaval oportunista que correu o mundo a partir do início dos anos 90 e adaptaram-se ao recuo na consciência das massas, negando suas próprias bases e passando a defender bandeiras que levaram à sua crise. Assim, perdeu-se a tradição da atuação em partidos de esquerda no movimento estudantil.

O P-SOL: “apartidarismo” e eleitoralismo
Com a virada do milênio, inicia-se um processo de retomada das lutas no mundo inteiro: Equador, Palestina, Argentina, Bolívia, Venezuela, Iraque. As massas saem às ruas novamente e protagonizam processos revolucionários nesses e em outros países.

Infelizmente, a esquerda mundial não conseguiu relocalizar-se no novo momento e mesmo as novas organizações que surgem, já carregam os velhos vícios dos anos 90. Um exemplo disso é o P-SOL.

O P-SOL é um dos maiores defensores do “apartidarismo” no movimento estudantil. Juram de pés juntos que sua atuação nas entidades nada tem a ver com sua filiação partidária. Olhando superficialmente, até parece assim, mas não é. O P-SOL é um partido de tendências, em que cada corrente interna pode defender a sua política no movimento sem consultar os organismos do partido. Assim, os militantes do P-SOL diversas vezes atuam de forma distinta uns dos outros, passando uma falsa idéia de “atuação independente” no movimento. Nada mais falso.

O que unifica o P-SOL no movimento estudantil é sua estratégia de salvar a UNE e manter seu cargo na diretoria executiva da entidade, cargo esse, diga-se de passagem, conseguido pela concessão feita pelo PCdoB no último CONUNE. Por isso, o P-SOL é um dos maiores inimigos da ruptura com a UNE. Também por isso o P-SOL é forçado a combater o PSTU, que defende a ruptura com a UNE e a construção de uma nova alternativa de direção para o movimento estudantil: a CONLUTE. Assim, quando o P-SOL denuncia o “aparelhismo” e o “rupturismo” do PSTU, se aproxima do PCdoB, de cujas mãos recebeu o cargo na executiva da UNE, e se coloca a serviço de sua política, política essa, naturalmente, “apartidária”.

Mais do que isso: ao defender a “independência” do movimento com relação aos partidos, o P-SOL deixa sem resposta a seguinte pergunta: Se a tarefa de um partido de esquerda não é atuar de forma organizada nos movimentos sociais, então qual é? Acaso seria pedir votos nas eleições? Aí poderíamos ter uma atuação franca e aberta como partido político? Aí poderíamos declarar abertamente que somos “partidários”? Como se vê, por detrás do discurso “amplo e democrático” que tem o P-SOL, esconde-se uma concepção eleitoralista e reformista. Para o P-SOL, partido é para disputar eleições. Nada mais.

O anarquismo: autoritarismo e paralisia no movimento estudantil
O discurso “apartidário” tem ajudado os setores ligados ao anarquismo a se fortalecer em algumas entidades. Infelizmente esse novo anarquismo não tem relação com a honrada tradição anarquista do início do século XX. O novo anarquismo é burocrático e autoritário no trato com as entidades. Não raros são os casos de aliança desses setores com a direita “apartidária” ou mesmo com as reitorias para combater “os partidos”. Nas passeatas e atos, em vez do enfrentamento com a polícia, alguns setores anarquistas preferem o enfrentamento com os ativistas que carregam bandeiras de partidos. A “autogestão”, ou seja, a ausência de uma diretoria eleita, implementada em algumas entidades é um desastre: tem levado, na prática, à ditadura anarquista, à paralisia das entidades e à desmoralização completa. Cada ano de autogestão é um ano de caos e inoperância no movimento e prepara a retomada das entidades pela direita reacionária.

A verdadeira relação partido–movimento
A relação aparelhista que o PCdoB estabeleceu com a UNE e com a UBES traumatizou toda uma geração que hoje nega qualquer organização partidária. No entanto, essa deformação criada pelo stalinismo não deve nos desviar de uma concepção marxista de atuação nas entidades.

Se a atuação “independente” no movimento é uma bandeira tão ampla e democrática, por que quase não vemos entidades que não sejam, em maior ou menos grau, influenciadas por partidos? Por que os chamados “independentes” sempre acabam se alinhando com uma ou outra organização política para defender suas posições? Por que os CAs e grêmios, em cujo seio não há nenhuma disputa política, são, em geral, os mais despolitizados e mais atrelados às direções das escolas e faculdades?
Isso se dá porque a luta no movimento leva naturalmente ao enfileiramento por posições políticas. É por isso que existem “grupos de independentes”, “correntes de independentes” (chegaremos a ver “partidos de independentes”?). A organização política é natural, progressiva e inevitável.

A esse respeito, Trotsky escrevia em 1929: “O Partido Comunista (…) diz claramente à classe operária: eis meu programa, minhas táticas e minha política. É o que proponho aos sindicatos. O proletariado não deve acreditar às cegas em nada. Deve julgar cada partido e cada organização por seu trabalho. Os operários devem desconfiar duplamente dos aspirantes a dirigentes que atuam disfarçadamente, pretendendo lhes fazer acreditar que não necessitam de nenhuma direção”.

Assim, os militantes do PSTU continuarão erguendo suas bandeiras, defendendo de forma clara sua política e disputando a direção das entidades com o programa que julgamos correto. Nesse marco, sempre que possível, marcharemos juntos com organizações, partidos e ativistas independentes de esquerda.

A atuação no movimento para nós não é uma mera tática, como querem fazer parecer nossos adversários. É parte fundamental de nossa estratégia: a mobilização permanente das massas e a construção de uma ferramenta revolucionária. Mas nosso objetivo final não se resume à atuação no movimento estudantil e sindical, por maior que seja sua importância. Somos socialistas e revolucionários. Nosso fim é a libertação completa da humanidade do jugo do capitalismo, a construção do comunismo no mundo inteiro. Esse é nosso “interesse político-partidário” e somos orgulhosos dele.

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