A quase falência da indústria automobilística nos EUA

Números recentes apontam uma possível depressão. Montadoras tentarão atacar salários e direitos em todo o mundo para superar a crise.Estamos no início de uma crise econômica internacional que pode evoluir para uma depressão semelhante à de 1929. A produção de países centrais pode cair de 15% a 20% (e não o que é usual, de 1% a 4%), com falências e desemprego em proporções gigantescas.

A situação da indústria automobilística é uma dura demonstração dessa realidade. Simplesmente o setor de ponta da indústria da principal potência imperialista – os EUA – está falido. A GM, a Ford e a Chrysler só escaparão da falência por uma ajuda direta do estado norte-americano.

Possível depressão
A GM teve queda de 45,1% nas vendas em outubro, acompanhada da Chrysler (34,9%) e Ford (30,2%). Entre janeiro e outubro, a queda geral foi de 14,5%. O prejuízo da GM no terceiro trimestre foi de 2,5 bilhões de dólares, e o da Ford foi ainda maior: 2,6 bilhões.

As perspectivas são de chegar ao fim do ano com 10,6 milhões de carros vendidos (foram 16,1 em 2007), bem abaixo das piores recessões na década de 90 (12 milhões). A GM já declarou que só tem dinheiro em caixa para chegar ao fim do ano. As três montadoras reivindicam um auxílio de 25 a 30 bilhões de dólares do governo dos EUA.

O retrocesso da GM é impressionante: vendeu em outubro nos EUA um número de veículos semelhante ao que atingira logo depois da segunda guerra mundial. Suas ações caíram de 33,6 dólares em outubro do ano passado para 1,7 dólar na semana passada, ou seja, uma queda de 95%. Com esse preço nas ações, a GM tem hoje um valor semelhante (cerca de 1 bilhão de dólares) ao que tinha logo após a crise de 1929. A GM vale hoje menos que a Natura (empresa nacional de cosméticos).

São números que apontam para uma depressão e não de uma simples recessão. Isso não significa que já esteja definido o curso da crise. Isso ainda está em aberto. Mas é um dado importante da dimensão da crise que o setor de ponta da indústria ianque, assim como todo o capital bancário, necessite da intervenção estatal para sobreviver.

O verdadeiro caráter da crise
A crise das automobilísticas desmente categoricamente todos os que caracterizavam essa como uma crise financeira. Nem se pode dizer que agora as fábricas estão diminuindo suas vendas por falta de crédito. Esse é um fator que agrava a crise, mas não a origina.

Trata-se de uma crise de superprodução clara. A produção mundial deu um salto desde a crise de 2001 para cá, com um plano de crescimento ainda maior, de 12,6 milhões de automóveis entre 2006 e 2012. A China produzia 2,3 milhões de veículos em 2001, chegando a 8,8 milhões em 2007, e deve chegar a 10 milhões em 2008. No Brasil, a produção passou de 1,7 milhões em 2002 para 2,97 milhões em 2007, cerca de 3,5 milhões em 2008, com uma capacidade de produção instalada que poderia chegar aos 4 milhões em 2009. Essa reprodução ampliada do capital não se sustentou perante uma taxa de lucros em queda. É isto que está na origem da crise.

A partir daí, pode-se entender o agravamento da crise pelo crack financeiro. Tanto pela diminuição do crédito para novos consumidores, como pelas dificuldades das empresas em refinanciar suas dívidas. Sem contar que as próprias montadoras eram parte das aventuras especulativas no mercado financeiro.

A “solução Obama”
Já foi amplamente divulgada as falências, na prática, da GM e da Chrysler, com a Ford vindo logo atrás. A discussão que existe entre os distintos setores da burguesia ianque é sobre o que fazer a partir daí.

Enquanto o Partido Democrata apóia o auxílio de 25 bilhões de dólares, um setor importante da burguesia, expressa principalmente nos republicanos e em setores do partido democrata, propõe simplesmente deixar as empresas falirem. Em uma jogada de marketing, filmaram e divulgaram na TV as imagens dos gerentes dessas fábricas embarcando em jatinhos particulares, a um custo de 20 mil dólares (cerca R$ 43 mil) por cabeça, para irem a Washington pedir ajuda ao Congresso.

Alguns parlamentares perguntaram então a esses gerentes se estavam dispostos a voltar em aviões de carreira, tendo respostas negativas. Outros perguntaram se estavam dispostos a receber salários menores como parte do esforço para enfrentar a crise.

Não se enganem os que acham que os parlamentares que fizeram essas perguntas eram de esquerda. Trata-se de parte da luta política entre setores da burguesia sobre quem paga os custos da crise. Esses mesmos deputados não questionaram os executivos dos bancos que receberam 700 bilhões de dólares do governo.

Obama agora propõe uma saída de condicionar a ajuda a um acordo prévio entre as empresas e os sindicatos de reestruturação, que vai incluir seguramente duros golpes aos trabalhadores. Vai colocar o proletariado dos EUA perante a ameaça de falência das empresas ou a aceitação de uma redução maior de seus salários e direitos. Para complicar tudo, na direção dos sindicatos está uma das burocracias mais corruptas e vendidas de todo o planeta. Para enfrentar a burguesia, os trabalhadores terão de encarar também suas direções sindicais.

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