A omelete de Dilma

Faltando uma semana para o Dia Internacional da Mulher, a presidente Dilma, primeira mulher eleita para o cargo máximo do país, foi a convidada do programa Mais Você da Rede Globo, dirigido às mulheres e apresentado por Ana Maria Braga. Tentando ainda quebrar o gelo e a imagem de durona que lhe foi atribuída, a presidente falou de sua vida pessoal, seu gosto pela música e pelas artes. Para uma audiência de maioria feminina, também discorreu sobre Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, emprego e saúde. Entre uma conversa e outra, Dilma fez uma omelete.

A presidente se empenhou em destacar o papel que a mulher vai ocupar na sociedade em seu mandato. Disse: “Quando a mulher assume alguma posição de autoridade, ela é vista como estando um pouco fora de seu papel. Mas isso era até agora.” Apontou que são as mulheres que chefiam a maioria dos lares no Brasil. São elas que recebem e administram o Bolsa Família, são elas que mais têm capacidade de abrir pequenos negócios. Tudo isso está correto e poderíamos apontar inúmeras outras qualidades das trabalhadoras deste país.

Mas isso está longe de ser uma conquista de seu governo ou de seu antecessor Lula. É assim porque as mulheres são as que têm os piores empregos e ganham os menores salários. As mulheres, vítimas do machismo da sociedade, são agredidas e abandonadas, ficando com todo o peso de sustentar uma família econômica e emocionalmente. As mulheres das quais estamos falando – a maioria trabalhadora e pobre – fazem bicos na informalidade para aumentar a renda, e não “pequenos negócios”.

O otimismo da presidente caminha na contramão da realidade e daquilo que ela mesma está fazendo e promete fazer. A economia saiu do período de euforia anterior e começa a desacelerar. Dilma falou às mulheres um dia depois de o governo anunciar um corte no orçamento que chega a R$ 36 bilhões. De onde vai sair esse dinheiro? O Minha Casa Minha Vida vai perder R$ 5,1 bilhões, e a Educação, R$ 3,1 bilhões, para citar apenas duas áreas das que mais afetam as mulheres.

Já o aumento do salário mínimo não cobriu sequer a inflação. Pelo contrário, vai ter um arrocho de 1,3%. Não havia arrocho desde 1997. O preço dos alimentos inflacionou 16%. De todos que recebem o mínimo, 53% são mulheres. E a reforma da Previdência vai aumentar a idade mínima para as mulheres se aposentarem.

“Devo isso às mulheres brasileiras… de ser presidenta”. Sim, Dilma, você deve às mulheres brasileiras um salário digno. Elas não precisam de Bolsa Família. Elas precisam de emprego e salário para alimentar e vestir a si e sua família, para se divertirem.

Você deve investir no combate à violência: a Lei Maria da Penha não é suficiente. Deve a legalização e descriminalização do aborto para que as mulheres parem de morrer. Deve educação e saúde de qualidade para elas e seus filhos. Deve a garantia de que a idade para se aposentar não vai aumentar.

Porém não será possível pagar essa conta sem abalar as estruturas do que está aí, sem romper com o atual modelo capitalista. Afinal, não se faz uma omelete sem quebrar os ovos.

*Ana Luiza é servidora do Judiciário Federal. Em 2010, foi candidata ao Senado em São Paulo, pelo PSTU, e fez uma campanha contra a violência às mulheres, conquistando 109 mil votos.