A impunidade que segue

Logo após o assassinato de Dorothy Stang, o governo Lula tentou mostrar serviço para encobrir sua passividade em relação à reforma agrária. Foram deslocados ministros, autoridades e foram presos os assassinos imediatos. Até o momento, as pessoas, que acompanham mais atentamente as lutas no campo, tinham razão em achar que isso era só jogo de cena, e que o governo poderia apurar a morte da missionária pela grande repercussão internacional do caso, mas não se empenharia em resolver o problema da reforma agrária e tampouco o da violência.

Passados já alguns dias, com o noticiário sobre o tema bastante atenuado, as suspeitas confirmam-se. Em primeiro lugar, só foram presos os assassinos de Dorothy. Não se identificaram com a mesma rapidez (e muito menos se prenderam) os assassinos dos três ativistas rurais mortos, que infelizmente não são cidadãos norte-americanos como a freira.

Em segundo lugar, até o momento em que fechávamos esta edição, nenhum dos mandantes do assassinato de Dorothy tinha sido preso. Só estava presa a “arraia miúda”, quando todos falam de um consórcio de vários empresários da região para arrecadar o dinheiro que pagaria o assassinato. Aí se incluem, além de Vitalmiro Bastos de Moura (o Bida), até o prefeito da cidade, Luiz dos Reis Carvalho, do PTB, um dos partidos da base de apoio do governo. Mais ainda, existem ligações políticas, até agora não exploradas na investigação, entre esse grupo e o deputado Jader Barbalho, do PMDB, outro partido da base de apoio do governo.

Caso isso se confirme, significaria que o governo não só não vai avançar na solução dos problemas de fundo (a reforma agrária e o enfrentamento da violência no campo como um todo), como tampouco vai levar até o fim sequer a apuração do assassinato de Dorothy Stang.

Isso só demonstra, uma vez mais, que o compromisso do governo Lula em relação ao campo é com os grandes empresários do agronegócio. Os movimentos sociais ligados à luta pela reforma agrária, como o MST, devem romper com esse governo. Esta é a única forma de avançar com seriedade na luta social, ao não confundir um inimigo com um aliado.

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