A encruzilhada venezuelana

AMÉRICO GOMES,
de São Paulo

Seis meses depois da derrota do golpe militar, a Venezuela é tomada por novas manifestações contra seu presidente, Hugo Chávez. No último dia 10, saíram às ruas milhares de pessoas exigindo a renúncia de Chávez ou a antecipação das eleições. Caso isso não ocorra, uma Greve Geral seria convocada para 21 de outubro.
Em resposta, Chávez convocou marchas que também reuniram milhares de pessoas, mas demonstra-se cada vez mais incapaz de atacar as graves contradições que levaram à divisão do país.

Intolerância imperialista

O imperialismo norte-americano deixa claro que não aceitará nenhum movimento de insubordinação nacional contra ele. Tudo que Chávez fez para provocar a ira do governo dos Estados Unidos foi dar algumas declarações de apoio a Sadam Hussein, Yasser Arafat e Anuar Kadafi, além de cultivar uma sólida amizade com Fidel e fornecer petróleo subsidiado à Cuba.
No mais, praticamente nada mudou dentro da Venezuela, o petróleo continua fluindo tranqüilamente para os Estados Unidos, a divida externa esta sendo paga pontualmente, as bases militares continuam instaladas no país.
O pior é que os pobres, que seriam defendidos pelo presidente, estão mais pobres. A miséria se espalha pelas cidades, o desemprego está por volta de 18%, salários estagnados e os planos previdenciários destruídos.
Os banqueiros lucraram bilhões. O governo prossegue com o plano de cortar 7% do Orçamento de 2002 para cumprir as metas do FMI e se dispõe até a elevar esse percentual para 20%. A inflação acumulada entre janeiro e agosto é de 19,7%, 140% maior que a do ano passado. A desvalorização da moeda local, o Bolívar, frente ao dólar é de 83%.
Estes simples dados servem para explicar como e porquê as forças reacionárias da burguesia e do imperia-lismo encontram base social para atacar o governo.
O imperialismo diretamente, através de seu embaixador Charles Shapiro, articulou uma aliança contra-revolucionária que incluí desde os setores mais reacionários da sociedade; a Fedecamaras (a Fiesp de lá); o arqui-pelego Carlos Ortega, presidente da Central dos Trabalhadores de Venezuela (CTV); a alta burocracia da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA); militares ligados às antigas oligarquias; burocratas da Ação Democrática (AD) e COPEI varridos dos aparatos do Estado; a alta hierarquia da igreja católica, na figura de Monsenhor Baltazar Porras, presidente da Conferência Episcopal da Venezuela; o ex-presidente Carlos Andrés Pérez (responsável por milhares de mortos no Caracazo); e magnatas da comunicação, como Gustavo Cisneros.
Esta “frente” convocou a greve geral de 9 de abril, a marcha ao palácio Miraflores no dia 11 e desencadeou o golpe de Estado derrotado pelas massas em 13 de abril.

Chávez na direção contrária das massas

A grande imprensa tentou passar a história que Chavez voltou ao poder através de um contragolpe militar. A verdade é que Chavez nunca assinou sua renúncia, mas também nunca resistiu, nem chamou a resistência popular ou militar.
As massas ao contrário, reagiram espontaneamente. Na noite do dia 12 começaram os protestos em Caracas. No dia 13 se generalizaram por todo o país. Eram milhares de pessoas nas ruas.
Os principais quartéis se encontravam cercados pela população, principalmente em Caracas, Maracaibo, Maturín, Maracay e Valência. Isto fez os soldados penderem para o lado da insurreição popular. Os canais de TV foram cercados e exigia-se que falassem a verdade. Milhares desciam das favelas nas encostas dos morros e fechavam rodovias, com barricadas de madeira e pneus em chamas.
Chavez seguiu o caminho inverso ao das massas. Criou um Conselho Federal de Governo, para a suposta participação de todos os setores na vida nacional, e prometeu aos EUA que o país será uma fonte estável de petróleo.
Em nome da “paz e da reconciliação nacional” permitiu que a maioria dos militares e civis responsáveis pelo golpe ficassem livres, não busca culpados, não ataca os conspiradores contra-revolucionários. Por isso a conspiração continua.

A encruzilhada da Revolução

O Estado venezuelano está em cacos e com mais contradições do que nunca. As instituições estão paralisadas. As Forças Armadas e a polícia estão divididas entre “golpistas” e “legalistas”, assim como a burguesia nacional. Isto se dá porque o “novo” governo Chavez, saído da derrota do golpe, é fruto de uma vitória revolucionária das massas.
Chavez, para ganhar a confiança imperialista, necessita desmontar a revolução, atacar a organização do movimento de massas e os Círculos Bolivarianos, que se mantém organizados contra as tentativas golpistas.
Mas, na medida em que vai ficando mais frágil diante da ultradireita, muitas vezes tem que apoiar-se no movimento de massas, mantendo uma política dúbia e vacilante, como no caso dos “protestos pacíficos” contra a decisão Tribunal Superior de Justiça ou a contra-marcha de 13 de outubro.
A ultradireita e o imperialismo seguem apostando na derrubada do governo. O problema é que temem se enfrentar novamente com a resistência das massas e jogar mais lenha na fogueira da situação revolucionária que toma conta do país.
Se Chavez continuar freiando e desmontando a ação e organização espontânea do movimento de massas abrirá o caminho para sua desmoralização e para o triunfo da direita golpista. Seguirá assim o exemplo de Allende que depois do Tacnazo*, ao invés de atacar os militares golpistas, nomeou Pinochet para seu ministro da Guerra.
A Venezuela vive uma encruzilhada onde a sorte do processo revolucionário foi lançada. Os trabalhadores e o povo pobre terão que pegar este desafio nas suas mãos.

*Tacnazo: levante militar fracassado no Chile, poucos meses antes do golpe de Pinochet.
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