A ditadura não resistiu a praça cheia

O Opinião Socialista e o Portal do PSTU realizaram uma cobertura especial da revolução no Egito. Luiz Gustavo Porfírio, militante do PSTU e da LIT-QI, desde o dia 2 acompanhou todos os dramas, angústias e alegrias do povo egípcio em sua heroica luta para derrubar o ditador Mubarak. O Opinião tem muito orgulho de ter estado presente nesse momento histórico de todos os povos árabes. Nesta edição, publicamos reportagens e relatos enviados por Luiz Gustavo. A cobertura completa pode ser vista no Portal

Chegar ao Cairo vendo na TV homens avançando com camelos sobre a massa na Praça Tahrir não faz bem para os nervos. Na manhã do dia 3, nos bloqueios por que passei, as gangues batiam nos carros e agitavam barras de ferro. A polícia estava ao lado, olhando. Deixaram-nos passar – só mais tarde a TV do governo estimularia o ódio a estrangeiros. No centro, as ruas estavam vazias, a não ser por grupos de vigilância, nem sempre amigáveis. Entrei em um campo minado, pensei.

Jornalistas estavam sendo intimidados. Brigas irrompiam aqui e ali com os bandos do ditador. Muitos ativistas presos. Os celulares não funcionavam muito bem, e estrangeiros não podiam registrar chips locais – o que tornou uma tarefa impossível encontrar as pessoas que me ajudariam por aqui, principalmente no idioma.

Pensei se voltaria a ver as imagens que vi enquanto aguardava o avião em Guarulhos: pais com os filhos nos ombros, acima do mar de gente. Duvidei. Não previ que na sexta-feira, dia 4, a praça voltaria a vibrar tão cedo. Já antes do meio-dia a multidão era uma só, com mulheres liderando as palavras de ordem. Ainda não havia muitas barracas nem cartazes, além da faixa que ficou famosa: “O povo exige o fim do regime!”. A organização crescia aos saltos: as poucas barricadas deram lugar a anéis de três, quatro etapas, revistando e checando documentos; as equipes de médicos abriam novos postos; os palcos tinham se multiplicado. Na praça me senti seguro, em casa. Via e sentia a solidariedade dos lutadores. Por dias e noites, foi tecida ali uma experiência única, uma fraternidade sem precedentes na história recente egípcia.

Desforra
Quando vi o exército entregando panfletos, explicando sua posição, tive certeza da força das ruas. Exércitos não costumam se explicar e muito menos “pedir” para as pessoas voltarem para casa. O exército não contava com a disposição de sua base para avançar sobre os manifestantes, e a polícia era mantida à distância. No entanto, os ativistas ainda temiam uma virada e sua direção continuava discreta, na semiclandestinidade.

Foi quando Wael Ghonim (1) foi libertado. Com uma declaração humilde de que sua prisão não era a mais importante e de que os manifestantes deveriam permanecer na praça, Wael virou um catalisador ainda mais poderoso do que quando preparou os primeiros atos pelo Facebook.

Qualquer deslocamento seu no asfalto da praça era um tremendo empurra-empurra para vê-lo e beijá-lo. Os ativistas estavam mais confiantes. O filho de Mubarak deixou a direção do partido do governo, e os relatos da tristeza de Gamal divertiam a praça na noite fria. Era a desforra.

A raiva vira ação

Com o fracasso das negociações, o governo ficou numa encruzilhada. Na quinta-feira [dia 10], estava almoçando tarde quando a cúpula militar se reuniu sem Mubarak. Era o sinal para o enxotamento. No café, as poucas pessoas estavam ansiosas, mal falavam. Corri para a praça e, quando começou o aguardado pronunciamento do ditador, aprendi que é possível ver um milhão de pessoas em silêncio total.

A frustração com o discurso provocou gritos e surpresa. Muita gente parada, perplexa. Outros já puxando palavras de ordem, extravasando. A raiva virou ação. Os egípcios não iriam dormir com aquela vergonha. Saíram para sitiar os prédios públicos, símbolos do regime. No Cairo, foram o Parlamento, o Ministério da Defesa e a TV oficial, que mentia dizendo que os manifestantes recebiam frango frito do KFC (2). Em Alexandria, foi o outro palácio de Mubarak. A tática de dar novas metas aos lutadores, uma das mais inteligentes que vi, funcionou como injeção de adrenalina, afastando o desânimo.

As greves que já vinham estourando formaram uma grande onda, com rebeliões em categorias antes controladas pelo governo. Era a gota d’água. O espírito de luta, que já parecia inesgotável, agora tomava conta dos trabalhadores e da classe operária, com boas notícias chegando de Suez, Alexandria e Mahalla, símbolo da revolta na indústria têxtil, em 2008.

Uma avalanche
Novamente, a decisão viria numa sexta-feira. Começou com uma reza massiva − e também sofrida, longa e murmurada. Lembravam mártires em cartazes, canções e palavras de ordem. Não seriam em vão. No início da tarde, a avalanche derrubou a muralha do regime. O vice de Mubarak vai à TV e anuncia a renúncia. Foi breve, como o estalido antes de uma barragem se romper. A euforia toma conta do país, a festa é tão extensa quanto o rio Nilo. Não sou poupado. Recebo beijos e abraços e vibro no meio de pessoas que nunca mais encontrarei.

A junta militar conta com o endosso com que a população brindou as tropas nas semanas de luta. Cantam “o exército, o povo, uma só mão”. Mas não são os mesmos objetivos. Agora, a cúpula se encastela para voltar o país à “normalidade” da exploração pelo imperialismo, da parceria humilhante com Israel, da opressão aos trabalhadores e mulheres, repressão aos jovens e beduínos. Vai ter de dobrar a confiança que as massas ganharam em si, com a disposição e o orgulho de ter feito sua história.

E enfrentar a direção que surge, jovem e ousada. Que aprendeu na clandestinidade e não está confortável para sair enquanto perdurar o aparato repressivo: a polícia secreta, a rede de empresários e ministros mafiosos. A nova vanguarda seguirá usando a internet para impulsionar sua luta real e aguarda para voltar à ação. Pesam contra ela sua imaturidade política, seu despreparo para construir uma estratégia socialista enraizada. E, nesse processo, terá que desviar-se de todo resquício de ilusão com os militares e do perigo do patriotismo exagerado, do nacionalismo que avança rápido entre as massas do Egito neste momento. Será preciso transformá-lo em patriotismo de classe. Mas a experiência de uma revolução vitoriosa pode catalisar a consolidação teórica. O tempo muda completamente quando se vive momentos assim.

Deixo o Egito com a certeza de que há aqui uma disposição infinita de tomar o destino com as próprias mãos. Sobretudo, deixo o país agradecido a seu povo pela chance que me deram de viver uma revolução que marcará minha geração. Vi surgir um novo sentido para o mundo árabe, uma juventude pobre e trabalhadores em primeiro plano. Vi e registrei o recado do Egito ao mundo: a política dos bastidores, dos acordos com o imperialismo e da corrupção não sobrevive a uma praça cheia.

(1) Jovem executivo do Google que foi preso pela ditadura. Ghonim revelou que estava por trás da página do Facebook “Todos somos Khaled Said”, uma das principais formas de articulação dos protestos.

(2) Kentucky Fried Chicken é uma rede de restaurantes de comida rápida dos EUA. O governo Mubarak espalhou boatos de que a empresa estava ajudando os manifestantes, como suposta prova da “ajuda estrangeira” aos protestos.

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