“A direção do sindicato é um braço da empresa”

`TicoO Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (Articulação Sindical – PT) vem aplicando uma política de parceria com as empresas. Mas nas fábricas, em particular na Volksvagen, começa uma revolta contra essa política que aponta a necessidade de construir uma nova direção. Para contar um pouco dessa história e do episódio lamentável da assembléia da Volks, ocorrida no dia 7 de abril em São Bernardo (SP), entrevistamos, Sinval “Sassá”, que trabalha na fábrica há 23 anos e Francisco “Tico”, na fabrica há 17, ambos membros da Comissão de Fábrica.

OS – Qual a avaliação que vocês fazem da parceria entre o Sindicato e a Volks?

Sassá – A cada dia que passa diminuem os posto de trabalho. Isso já vem desde 98. Éramos 23 mil, atualmente somos 14.300. Eles dizem, que os acordos garantiriam emprego, mas não é verdade. Hoje têm pessoas que exercem a mesma função com a metade do salário. Sem falar na sobrecarga, já que se trabalha 4 dias para se produzir o equivalente a 5 dias de produção. Nós estamos trabalhando muito mais.

Tico – Já foram terceirizadas as alas 38, 18, 20, 6 e a 3 quase toda. Agora setores das alas 5, 8, 13, estão sendo terceirizados e querem fechar a 21.

Sassá – Aumentaram os valores do transporte, plano médico e refeição. O último reajuste do salário foi abaixo da inflação. Recebemos só metade da PLR (Participação nos Lucros e Resultados), a outra foi para completar os salários por conta da semana de 4 dias. Perdemos 15% nos salários. Passamos a dever 5 horas para a fábrica todo mês, além da redução no valor do adicional noturno.

OS – Os trabalhadores são pressionados pela empresa?

Sassa – Vivemos uma pressão constante. Quem for avaliado negativamente pelo chefe é taxado com “baixa performance” e pode ser demitido. O acordo garante a abertura de PDV´s (Planos de Demissão Voluntária) duas vezes ao ano. Os trabalhadores perdem o gosto de viver, vão embora. A direção do Sindicato ainda diz que é o melhor acordo do mundo.

OS – Como foi a luta contra a proposta de terceirização no dia da assembléia que votou a vinda do Tupi?

Tico – Logo cedo pedimos aos trabalhadores da ala 21 que não trocassem de roupa só tomassem café e voltassem para a ala. Fizemos uma assembléia e fomos para a pintura, na Ala 13. De lá saímos em passeata até a via Anchieta. Fizemos uma nova assembléia e os trabalhadores decidiram ir em passeata pelo centro até o apartamento do Lula.

OS – O que vocês falaram com o Presidente Lula?

Sassá – Falamos que com a terceirização a empresa deixaria de contratar novos trabalhadores. Lula disse que nós tínhamos garantia de emprego até 2006, que era contra a terceirização, mas não podia fazer nada e não queria se meter nesta briga. E ligou para Luiz Marinho, marcando uma reunião.

No Sindicato pedimos a Marinho que desse 15 dias para a discussão. Ele respondeu que isso dependeria de um acordo com a empresa. Pelo menos garantiu o direito à palavra na assembléia.

OS – Qual foi o resultado da assembléia?

Sassá – Eles não explicaram nada, houve uma manipulação. Eles colocaram em votação quem era contra ou a favor à vinda do Tupi. Os trabalhadores não sabiam que seriam terceirizadas várias alas, não tinham consciência do que estavam votando. A direção do Sindicato faltou com a verdade.

OS – O que os trabalhadores estão dizendo depois da assembléia?

Sassá – Dentro da fábrica, a maior parte dos trabalhadores entendeu a sacanagem da direção do Sindicato. O Sindicato montou um esquema com “bate-paus” armados, para agredir e trouxe gente da Ford, Scania e Mercedes, para intimidar.

Tico – Eles não honraram a conversa no Sindicato e disseram que iríamos falar contra a vinda do Tupi. Estavam com medo, porque sabiam que se botassem em votação a terceirização, perderiam. A palavra terceirização não foi nem citada. Pedimos pra falar porque tínhamos um encaminhamento diferente. Nossas propostas defendiam a vinda do Tupi sem a terceirização das alas 5, 8 e 13, contra o fechamento da 21 e por uma comissão para falar outra vez com Lula. Mesmo com 4 mil trabalhadores defendendo que a gente falasse, a direção não deu a palavra.

OS – Como vocês avaliam a construção de uma nova direção para o Sindicato?

Sassá – Temos que construir uma nova direção que defenda os trabalhadores. A que está aí hoje é um braço da empresa. Os trabalhadores têm que dar um novo rumo ao Sindicato. Se você quer brigar com o Sindicato, fale mal da empresa. Se quer brigar com a Comissão de Fábrica, fale mal do RH (Recurso Humanos).

Tico – É preciso construir uma nova direção. A atual é parceira da Volks, se nega a lutar. Temos que voltar a ser como no passado quando o Sindicato era de luta. Mas para isso temos que organizar os trabalhadores e dar uma batalha na Comissão de Fábrica, que está dividida: dois terços apoiam a empresa e um terço os trabalhadores.

OS – Que perspectiva você vê com o governo Lula?

Sassá – Não vejo grande perspectiva. Eu vejo um governo que fala com todo mundo, mas na prática não muda nada. O que está fazendo é criar uma expectativa de que vai gerar emprego e vai matar a fome do povo, mas o que está acontecendo não é isso.
Veja a questão dos juros. Lula sempre falou contra os juros altos e hoje está elevando os juros. Com isso não acaba com o desemprego e gera miséria e fome. Não sei como vai acabar com a fome se o desemprego aumenta. A inflação está alta e os trabalhadores não tem reposição salarial como no passado. Quem reclama é taxado de revoltado, e de “avexado”.

Vejo um governo sem muito futuro, que tenta cobrir o sol com a peneira, o povo vai ficar descoberto como antes. Antes era contra a CPMF (Contribuição Provisória por Movimentações Financeiras) e hoje fala em aumentar. Muitas coisas que criticava no passado hoje é a favor. É a continuidade da política de FHC. É só ver o que querem fazer com a Previdência. Pelo que estou lendo nos jornais não vejo nenhuma melhora para os trabalhadores

Post author Por Emmanuel `Satã`,
de São Bernardo do Campo (SP)
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