A crise grega aprofunda a crise da Europa do capital

Ex-primeiro-ministro Papandreou cumprimenta Papademos

Declaração da LIT ante a retirada do referendo grego e a crise da UETentar aparecer como “democrático” custou caro a George Papandreou. Em uma escalada de acontecimentos após sua tão falsa como questionada intenção de submeter a referendo popular o segundo e brutal plano “de resgate” da Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI), a nova realidade é que o governante ligado ao partido social-democrata Pasok se foi e agora a Grécia tem um novo primeiro-ministro.

Ele não é um desconhecido. Trata-se de Lucas Papademos, que traz consigo um histórico que soa como música aos ouvidos dos banqueiros e dos mercados mundiais: foi vice-presidente do Banco Central Europeu e presidente do Banco da Grécia. Papademos, tentando apresentar uma imagem “técnica”, apareceu proclamando “não sou um político”, para continuar com a garantia obrigatória: “Todos devemos contribuir com o difícil processo de ajustar a economia”. O novo governante grego deixa claro que sua prioridade absoluta é aprovar e aplicar sem vacilações o plano de ajuste que foi aprovado no dia 26 de outubro em Bruxelas, com seus consequentes ataques ao nível de vida e aos direitos da classe operária grega.

Papandreou sempre prestou importantes serviços à Troika. Capitaneando uma das economias mais débeis e mais castigadas do bombardeado navio que agora é a União Europeia (UE), em menos de dois anos submeteu o povo grego a cinco duríssimos planos de ajuste. Um mais brutal que o outro e enfrentando uma heroica resistência do povo grego, com a classe trabalhadora na vanguarda de um processo de lutas que registra até agora 17 greves gerais nesse período, a última com mais de 250 mil pessoas nas ruas. Se a Grécia é o auge da guerra social que a Europa do capital desatou contra o proletariado do velho continente, é também o da resistência feroz e exemplar de nossa classe.

A farsa do referendo sobre o plano da Troika nunca passou de uma manobra política de Papandreou que, debatendo-se como alguém que se afoga, buscava se relocalizar politicamente diante do isolamento e do ódio que, com toda razão, o povo trabalhador grego lhe dedica. Qualquer tentativa de ver nesse anúncio uma intenção “democrática” por parte do ex-primeiro-ministro não passa de uma perigosa ingenuidade política.

E se espalhou o pânico…
No entanto, como as coisas não estão para brincadeiras e muito menos para ameaças, bastou o anúncio do referendo e a possibilidade de que o povo dissesse “não” ao plano de ajuste que a Cúpula Europeia tinha tramado para os papas da UE entrarem em um estado combinado de fúria e pânico. Não é para menos, quando se sabe que mais de 80% dos gregos está contra o receituário de Bruxelas.

Começando por Merkel e Sarkozy, todos os chefes europeus expressaram seu categórico repúdio à possibilidade de consulta e levantaram todo tipo de ameaças contra a Grécia. As piores medidas e calamidades foram anunciadas. Sem pestanejar, retiraram os 8 bilhões de euros prometidos, ao mesmo tempo em que ameaçavam expulsar a Grécia da zona do euro e sua moeda comum. A reação é óbvia! Quem poderia sequer pensar em consultar o povo sobre as decisões dos gurus da UE e da Troika! Como dizem os companheiros e companheiras da Corriente Roja na Espanha: “A UE mostrou mais uma vez, com especial rigor, que é um mecanismo incompatível com a democracia e uma arma de guerra a serviço dos banqueiros e dos grandes capitalistas para saquear os trabalhadores e os povos europeus”.

Papandreou, assustado com sua própria iniciativa e vendo-se isolado, retirou sua proposta de referendo. Tudo isso em meio a uma crise política brutal. O líder grego assistia a seu próprio funeral enquanto era feito todo tipo de negociações de ida e volta para conformar um novo governo de “unidade nacional” e de caráter “técnico” mais de acordo com a vontade da Troika. Papandreou estava queimado e precisava ser trocado, como o fusível que sempre foi. Como tanto o Pasok (partido de Papandreou) quanto a “oposição” Nova Democracia têm completo acordo e unidade sobre a necessidade de aplicar os planos da Troika, não levou muito tempo para o nome que o nome do sucessor fosse definido. Surge, assim, o novo governo, encabeçado por Papademos, um ex-funcionário do BCE que vai tentar aplicar a qualquer custo as decisões da Troika, com o aval dos dois partidos do regime burguês grego. O resultado desta tentativa será definido nas ruas, onde a classe operária grega não deixou de lutar nem por um minuto.

O “plano de resgate” é a colonização da Grécia
A Grécia é um país devastado. Sua situação econômica e social só é comparável aos efeitos de uma guerra. Nesse sentido, é indignante o cinismo de Merkel, Sarkozy, com o apoio dos candidatos ao governo espanhol Mariano Rajoy (PP espanhol) e Alfredo Pérez Rubalcaba (PSOE), que pretendem aparecer como os “salvadores” da Grécia, quando foram eles, junto a seus títeres locais, os que conduziram o país a esta calamitosa situação.

O segundo plano “de resgate” aprofunda a devastação social e econômica na Grécia. É um plano para submeter e escravizar os trabalhadores gregos durante décadas e transformar o país em um protetorado colonial diretamente controlado pela Troika, que se instalará de forma permanente em Atenas. O retrocesso que está em curso é estrutural e histórico.

A zona do euro e a União Europeia racham por todo lado
A aceleração da crise da UE, provocada pelo anúncio do referendo grego, acaba de jogar por terra e desmascarar o discurso e os resultados da última Cúpula Europeia, na qual os grandes expoentes e representantes políticos do capital apresentaram seus resultados como “históricos”, defendendo que a crise e a insolvência do sistema financeiro europeu, bem como o problema da dívida grega e da crise do euro, foram solucionados de maneira “definitiva”.

Fora estas afirmações mentirosas dirigidas aos desavisados, o que estamos vivendo é o pânico se apoderando dos que se acham os senhores da Europa ante o desmoronamento da UE, o projeto que construíram durante décadas. Demonstração disso foi a última reunião do G20 em Cannes, onde ficou patente que todos os problemas da UE persistem e se agravam, que a continuidade da zona do euro e da própria UE está abertamente questionada. Até o primeiro-ministro britânico, David Cameron, reconheceu que “cada dia a mais para a crise do euro tem um efeito negativo para o resto da economia mundial”. Obama assinalou que as medidas que contemplam os planos de ajuste ainda são muito amenas. Ao final da Cúpula, Nicolás Sarkozy decretou um novo ajuste de 100 bilhões de euros na França, que inclui aumento do IVA, mais impostos às classes médias, cortes no orçamento de saúde, redução de auxílios de aluguel no contexto da crise de moradia, e aumento da idade da aposentadoria para 62 anos.

A situação não é a que se descreve nas altas cúpulas. A Europa do capital estremece. Cada vez aumenta mais o número de governantes abatidos pela brutal crise econômica e política no velho continente. George Papandreou acrescenta seu nome à lista de primeiros-ministros que caíram em Portugal, Irlanda e Eslováquia. Em meio a esta tempestade, na Espanha, Rodríguez Zapatero viu-se obrigado a adiantar as eleições, e a popularidade de Sarkozy e de Angela Merkel cai vertiginosamente. Em geral, os destinos dos líderes europeus estão ligados à sua capacidade política na hora de aprovar e impor à classe operária europeia os duríssimos planos de ajuste que os bancos e o capitalismo internacional precisam aplicar para sair de sua profunda crise estrutural com a menor instabilidade possível.

É desta forma que, agora, a agonia política atinge nada menos que a Il Cavaliere, Silvio Berlusconi. Há algumas semanas, o FMI e a UE, a pedido da recente Cúpula Europeia, anunciaram que vigiariam o governo italiano na aplicação dos planos e reformas pendentes, cujo cumprimento deverá ser certificado trimestralmente. O objetivo é acalmar a desconfiança dos mercados. Como bem disse Christine Lagarde, chefe do FMI: “O problema da Itália é de credibilidade”. Ela não se preocupa à toa. A Itália responde por 17% do PIB da zona do euro e seu nível de endividamento representa 121% desse PIB. Na Itália, o chamado “prêmio de risco” (diferencial entre os títulos italianos de dez anos e os alemães) chegou aos 574 pontos, isto é, acima dos 500 pontos que geraram os resgates da Grécia e de Portugal. A Itália, terceira economia da Europa, entrou em zona de resgate ao superar a barreira de 7% de rentabilidade dos títulos. Só que o resgate, no caso italiano, será bem mais caro, pois Roma tem uma dívida total de 1,8 trilhões. A crise italiana, além disso, empurra o prêmio de risco da Espanha. Lagarde anunciou que a economia mundial corre o perigo de afundar em uma “espiral descendente”.

UE: Que a crise seja paga pelos capitalistas
A tarefa central na Grécia e nos demais países que se encontram na “zona de resgate” é rechaçar os planos de espoliação e colonização. Repudiar o “plano de resgate” da Troika e de seus governos capitalistas. O plano de ajuste para a Grécia certamente conduzirá o povo grego à catástrofe, que, no fim das contas, terminará com a expulsão da Grécia da UE, uma vez que seja totalmente saqueada e seu patrimônio nacional, dilapidado. É por isso que, para sair da crise, não resta outra opção a não ser rechaçar o “plano de resgate” e deixar de pagar a dívida (completamente ilegítima) aos banqueiros internacionais. Devemos impulsionar esta alternativa sabendo que implicará na saída da Grécia do euro e da própria UE.

Agora, para impor esta saída operária e popular, é preciso construir uma greve geral por tempo indeterminado na Grécia. Não há outro caminho para barrar os capitalistas e seus planos de ajuste. Somente desta forma, lutando, será possível propor uma alternativa dos trabalhadores para esta crise. E nossa alternativa é que os que geraram a crise, isto é, os banqueiros e capitalistas do mundo, que paguem por ela.

Neste sentido, as eleições de fevereiro que o Pasok e os conservadores da Nova Democracia propõem, os dois partidos responsáveis pela crise, não representam nenhuma solução para a crise. As eleições não passam de uma tentativa de legitimá-los e suas políticas perante o povo, a fim de impor com mais facilidade o novo pacote colonialista dos imperialismos mais fortes da Europa. Por isso, é uma tarefa importantíssima impedir que Papademos, títere do FMI e do BCE, assuma o comando e levantar a consigna de um governo dos trabalhadores: um governo apoiado na organização dos trabalhadores em cada local de trabalho e nas assembleias populares das praças.

Na Grécia, a construção de uma greve geral por tempo indeterminado é o único caminho para impor a vontade do povo, que os governos e o parlamento nunca respeitaram. No mesmo sentido, é necessário chamar à unificação das lutas de todos os trabalhadores da Europa, colocando como perspectiva a construção de uma greve geral unificada em todo o continente. Para concretizá-la, é preciso travar um combate duríssimo contra as burocracias sindicais europeias, que se cristalizaram como um enorme obstáculo para a luta e a unificação das mobilizações. Estamos falando de burocracias que pactuaram com a Troika e seus governos desarmando ou dividindo a classe operária na hora de lutar, com o objetivo claro de fazê-la aceitar esses planos.

Devemos exigir, também, de todos os governos que se proclamam democráticos, mas que nunca consultaram seus povos sobre a contratação de empréstimos ou sobre os planos de resgate, que convoquem referendos populares sobre esses planos de ajuste em cada um dos países europeus.

Por um plano de resgate dos trabalhadores e do povo e um governo dos trabalhadores que o aplique

Se a Grécia ou qualquer país se negar a pagar a dívida e romper com o euro e a UE, será vítima de todo tipo de chantagens, boicotes e castigos exemplares por parte da Troika e dos banqueiros.

Por isso, o rechaço ao plano e ao pagamento da dívida deve ser acompanhado por duas questões fundamentais. A primeira é a mobilização e a auto-organização dos trabalhadores e do povo grego e a mais estreita solidariedade e unidade na luta da classe trabalhadora europeia com seus irmãos de classe gregos e contra seus próprios governos. A segunda é tomar medidas drásticas anticapitalistas, isto é, aplicar um verdadeiro plano de resgate dos trabalhadores e do povo, em defesa do nível de vida da maioria. Tais medidas, basicamente, devem ser:

  • Não pagamento da dívida aos banqueiros;
  • Sair da zona do euro e da UE do capital;
  • Expropriação e nacionalização, sob controle dos trabalhadores, de todo o sistema financeiro;
  • Não às privatizações;
  • Controle dos capitais e monopólio do comércio exterior;
  • Redução da jornada de trabalho, sem redução do salário;
  • Investimento em serviços públicos para defender a educação e a saúde públicas e um plano de obras públicas e sociais;
  • Estatização das indústrias estratégicas e dos serviços chaves;
  • Lutar por um governo dos trabalhadores que aplique essas medidas.

    Por uma Europa dos trabalhadores e dos povos
    Diante da possibilidade concreta de ruína e miséria sem precedente aberta por esta crise, a luta dos povos da Europa é uma só. Não existe possibilidade de um triunfo estratégico, em nível continental, contra os ataques dos banqueiros e dos capitalistas europeus se não apontarmos a perspectiva de outra Europa, de uma Europa a serviço dos povos e dos trabalhadores, concretamente, a perspectiva dos Estados Unidos Socialistas da Europa. Esta nova Europa só virá pelas mãos da revolução socialista e da instauração de governos operários e populares em todos os países do velho continente. Contra a comunidade europeia dos ricos e poderosos, devemos construir a unidade dos explorados do continente contra nosso inimigo comum: o imperialismo e seus agentes em cada país.

    A luta de cada povo europeu é nossa luta.
    Todo o apoio e solidariedade ativa à luta dos trabalhadores e do povo grego
    Globalizemos as lutas para que a crise seja paga pelos capitalistas.

    Secretariado Internacional
    10 de novembro de 2011

    Tradução: Rosângela Botelho