A crise capitalista: Cinco observações de um historiador

Fernand Braudel morreu há aproximadamente um quarto de século. Historiador francês e membro da Escola dos Annales (agrupamento de historiadores franceses), de feito, deixou uma vasta e importante obra. Em que pese uma visão um tanto difusa do capitalismo, deixou-nos, contudo, alguns clarões que, ainda hoje, podem iluminar certas questões que dizem respeito ao modo de produção mencionado. Um desses clarões se refere especificamente à temática das crises capitalistas. É possível se estabelecer um elo apropriado entre algumas observações de Braudel acerca do tema e a crise que, em linhas gerais, tem açoitado esse regime social, pelo menos nos últimos três anos.

Não se deve esquecer que antes da eclosão da atual crise, cujos primeiros sintomas se revelaram já no segundo semestre de 2007, nenhum economista a soldo do capital aceitaria que, por exemplo, se questionasse a “saúde” da Irlanda. Inversamente, esse país era considerado um protótipo de economia bem sucedida. Fala-se aqui de Irlanda, mas se poderia falar também de Portugal, Espanha e Grécia e agregar depois um longo e dramático etcétera.

Mas isso não parece uma grande novidade. Sob essa ótica, quem, na América Latina, não lembra que México e Argentina foram considerados – nos anos 1990 – modelos adequados que deveriam ser seguidos por cada um dos seus vizinhos da região? A crise os arrastou pela gola e contra eles foram desferidos golpes sem misericórdia. Daqui resulta um primeiro vôo sobre a obra de Braudel. Num pulo rápido, pode-se examinar a primeira observação do historiador francês:

braudel“Quando a maré é montante, todos os países são servidos. Com o refluxo, há o corre-corre geral, os fortes se abrigam por trás dos mais fracos, exploram-nos, empurram-nos delicadamente para as águas perigosas.”
(BRAUDEL, 1992: 333/334)

Ora, o que estamos assistindo no momento? Os fortes não se abrigam por trás dos mais fracos? Não os empurram para as águas perigosas? A quem beneficia a política de desvalorização do dólar? Não são exatamente os mais fortes que se protegem e empurram os mais fracos? Não são precisamente os Estados Unidos os principais favorecidos?
Obviamente, que a ligeira recuperação de 2009, uma recuperação anêmica, permitiu aos ideólogos do capital a deslanchar uma campanha cujo desenho panorâmico se expressou num singelo bordão: “o pior já passou”. Mas qualquer que fossem as vantagens que essa campanha garantisse, era limitado o seu alcance. Nesse caso, a certeza retumbante não demorou a cair do cavalo. Há algo de paradoxal entre o otimismo exalado pela campanha publicitária e a desconfiança aguda de que países como Irlanda (onde quase 60% da população defendem a moratória), Portugal, Espanha e Grécia não “honrem” os compromissos com as suas respectivas dívidas.

Ainda assim, há lugares em que o capitalismo não apenas cresce, mas apresenta um crescimento manifestamente robusto (China, Índia, Brasil etc.). Os dados parciais de 2010 sinalizam nessa direção, apesar da rápida aceleração inflacionária que paira sobre a cabeça dos membros do BRIC. Apesar dessa objeção, uma questão se impõe: há uma parcela da economia cujo desempenho se enquadra em uma zona de ganhos.

Não é um caso surpreendente. O Brasil saiu da crise de 1929 antes dos EUA e da Europa. A URSS – uma economia de transição e planificada – cresceu nos anos 1930 enquanto a economia do mundo retrocedia brutalmente (um caso singular que, por falta de tempo e espaço, não cabe examinar aqui). Considerando períodos anteriores, não será difícil detectar situações em que casos determinados fogem à regra. Braudel recorda o caso da Holanda na transição do feudalismo para o capitalismo:

“Já no século XVII, a Holanda esteve abrigada, enquanto a recessão percorria a Europa. Hoje, quem desempenha o papel da Holanda em seu já remoto Século de Ouro?”
(BRAUDEL, 1992:334)

Essa segunda observação braudeliana lembra aos mais incautos de que a dinâmica de qualquer crise não é linear e mecânica, mesmo tomando por referência situações históricas que precedem ao processo de emersão do modo de produção capitalista como sistema dominante. Hoje mesmo, há de se recordar que a Alemanha apresentou em 2010 um crescimento econômico que é o maior desde a reunificação de 1990.

Mais do que isso, o que se discutiu nos últimos parágrafos inclina o estudioso da conjuntura a aceitação de que “a crise pode conhecer tréguas, patamares, pausas, ou mesmo, alguns dias de bonança…” (p. 331). Essa terceira observação de Fernand Braudel, decerto, tem sido brilhantemente confirmada pela nova crise do capitalismo. A trégua que começou em 2009 refugou no ano seguinte. Pior: o furacão alcançou o berço desse regime social: a Europa.

Alguns dias de bonança acontecem e se mostram aos olhos de quem não se recusa a enxergar as pausas que surgem, ainda que somente como quem prepara o instante seguinte de um novo patamar da velha crise. A definição não tem exagero. O resultado desse entendimento é inestimável: a crise que se estende por mais de 1.000 dias assume um caráter inerentemente orgânico. É certo que se desejava uma chuva de verão (“uma marolinha”), mas o inverno do capital se prolonga além do estimado.

Não se deve, todavia, ignorar que o velho Braudel confere às estruturas, ainda que pareçam carcomidas, um peso quase insopesável. A crise é estrutural e nesse enfoque parece praticamente invencível. Compreende-se, assim, porque ele não considera que sejam “os governos constituídos que governam, mas a crise, força enorme, monstro, gigante da história, fatalidade de grande fôlego” (p. 331). Na versão braudeliana da crise, os sujeitos e as instituições políticas quase somem como personagens e instâncias de um mundo liliputiano. Tal observação – a quarta – carece de ser repensada.

Há de se dimensionar que, embora agindo tardiamente, os governos conseguiram tirar o capitalismo da crise que se abriu com o crack de 1929. Convém ainda lembrar o papel cumprido pela Segunda Guerra para formulação de uma saída para superação da triste paisagem depressiva. Novamente, e agora de forma mais rápida, eles atuaram e procuraram atenuar ou vencer a crise. Foram injetados na economia mundial aproximadamente 25 trilhões de dólares. A finalidade não era outra senão a de salvaguardar a ordem do capital. Com efeito, não conseguiram vencer o longo inverno, mas apenas o atenuaram. A crise é um monstro de grande fôlego, mas não é inquebrantável. É por isso que não se deve negligenciar a capacidade do capital e dos seus governos em lidar com os seus efeitos. Quantas delas não surgiram e desaparecem ao longo da história?

O segredo interno, para usar uma expressão cara ao velho Marx, em última análise, estaria na luta de classes. Explica-se: a solução das crises não é um problema simplesmente econômico, mas se resolve no campo da luta de classes. As decisões políticas, por seu turno, são partes inseparáveis da luta de classes.

Sob essa perspectiva, o historiador da segunda geração dos Annales, arremata uma quinta observação: “a luta de classes pode se atenuar, mas é o fogo debaixo da cinza, nunca extinto” (p. 344). Isso é dito antes que alguém apressado pergunte: cadê as greves gerais da Grécia? As coisas não se acalmaram em França e Espanha? E a Irlanda não se recupera? Veja-se: o ano de 2010 marcou a sua presença através de greves e mobilizações multitudinárias que varreram o velho mundo. Por que em 2011 as coisas se acalmariam? A aparente calma é o fogo debaixo da cinza, nunca extinto. Por baixo da cinza, há uma camada mais profunda. Os próximos acontecimentos poderão ou não ratificar essa hipótese.

Há de se admitir que a luta de classes não seja feita de certezas que garantam que o desfecho será assim ou assado. Não, a luta é uma trama aberta, embora essa trama já tenha indicado tendências que assustam o capital e acende uma luz de esperança para aqueles que, mais do que nunca, nada têm a perder, mas um mundo a ganhar. O essencial ainda se desenrolará, mas uma coisa, desde já, precisa ser destacada: a classe operária entrou em cena e isso conta na definição dos próximos capítulos.


Bibliografia:
BRAUDEL, Fernand. Reflexões sobre a história, São Paulo: Martins Fontes, 1992.