A causa do retrocesso da Revolução Russa

Pode-se alegar que são diversas as causas da derrocada do Estado operário russo fundado em 1917. Porém temos a convicção de que a razão fundamental da derrota da Revolução foi o seu isolamento internacional.Todo ativista sindical sabe que quando é deflagrada uma greve por reivindicações gerais numa determinada fábrica, além de fortalecer a própria greve, é indispensável, para obter o atendimento das reivindicações comuns dos operários de uma larga região, que essa luta se alastre e que outros os companheiros de outras fábricas adiram a ela. É fácil ver que se a luta pelas bandeiras gerais de toda uma categoria ficar isolada, muito provavelmente as reivindicações não serão atendidas e a luta, nesse sentido, se perderá.

Uma grave derrota geralmente vem acompanhada da perseguição, punição e demissão dos piqueteiros, da desmoralização dos ativistas que prestigiavam as assembléias, do desânimo dos que cruzaram os braços e sonharam com dias melhores. Os setores mais conservadores ou mesmo os que se opuseram à luta proclamam que tinham razão e ganham certo apoio. Se o sindicato apoiou a luta, ele também sofre os reflexos da derrota. Não raro, os pelegos se organizam e tomam a entidade da vanguarda e da massa que antes a dirigiam. Então substituem o funcionamento democrático pelas decisões autoritárias e burocráticas, beneficiam-se de toda sorte de privilégios pessoais, como “ajudas de custo” e diárias polpudas, telefones e carros sustentados pelos filiados, quando não roubam o patrimônio da categoria de forma ainda mais grosseira. Transformam o sindicato num dócil instrumento na mão dos patrões.
Afastadas as transposições mecânicas, o mesmo acontece com as revoluções. E a Revolução Russa comprovou tragicamente a validade dessa lei.

A Revolução Bolchevique como ante-sala da revolução mundial
Sob o ponto de vista interno, a luta do Partido Bolchevique para manter o poder e consolidá-lo implicava na destruição da velha máquina estatal burguesa e sua substituição por um poder operário, baseado nos sovietes, um novo tipo de Estado cujas bases fundamentais foram desenvolvidas por Marx, Engels e por Lênin em sua obra “O Estado e a Revolução”, escrita no calor dos acontecimentos revolucionários de 1917.

Porém, a incorporação da classe operária na administração do Estado através dos sovietes estava determinada pelo nível do desenvolvimento da sociedade herdada do czarismo, ou seja, pelo avanço das forças produtivas, pelo grau de industrialização e pelo desenvolvimento cultural do povo. Ora, considerando as condições históricas em que se deu a tomada do poder, pode-se ter uma idéia da extensão das dificuldades que aguardavam os bolcheviques.

Vencer essas dificuldades era impossível do ponto de vista interno. Eis porque o poder soviético necessitava desesperadamente da explosão de outras revoluções socialistas na Europa. Sob esse ponto de vista, a consolidação da República soviética era um fato impulsionador da revolução mundial.

Assim, a revolução mundial ocupava o centro das preocupações, não somente pelo Partido, mas também pelos sovietes.

Lênin, no folheto Êxitos e Dificuldades do Poder Soviético, publicado em 1919, aqui recuperado de Obras Completas, tomo 38, explicava que: “Não podemos vencer definitiva e completamente a escala mundial somente com a Rússia. Somente venceremos quando o proletariado triunfe em todos os países, ou pelo menos, nos países mais adiantados […]. Somente então poderemos dizer com certeza que a causa do proletariado triunfou, que alcançamos nosso primeiro objetivo: a derrubada do capitalismo. Alcançamos esse objetivo em relação a um país, e agora está colocada uma segunda tarefa. Se o poder dos sovietes é uma realidade, se a burguesia foi derrubada em um país, a segunda tarefa é a luta a escala internacional, a luta em outro plano, a luta do Estado proletário no meio dos Estados capitalistas.”

A vitória do proletariado russo era uma vitória tática no marco da estratégia fundamental colocada: a derrubada do capitalismo. Conseqüente com a sua estratégia, o bolchevismo cria o instrumento para a derrubada do capitalismo em escala internacional, a III Internacional. Manter o poder dos sovietes, aprofundar a construção do Estado operário, fortalecendo a participação das massas na administração estatal, construir a aliança com os camponeses e desenvolver a revolução mundial foi a política empreendida pelos bolcheviques até a morte de Lênin.

Vejamos como Lênin via a relação do socialismo com as tarefas colocadas para a Rússia soviética em “Sobre o Infantilismo Esquerdista”, Obras Completas, tomo 36, sendo original o uso do itálico: “O socialismo é inconcebível sem a grande técnica capitalista baseada na última palavra da ciência moderna, sem uma organização estatal harmônica que submeta milhões de pessoas a observância de uma norma única na produção e distribuição dos produtos. Nós os marxistas falamos sempre disso, e não vale a pena gastar nem sequer dois segundos conversando com gente que não compreendeu nem sequer isso […]” Prosseguia: “Ao mesmo tempo o socialismo é inconcebível sem a dominação do proletariado sobre o Estado: isso é também elementar.” E conclui que: “A revolução proletária vitoriosa na Alemanha romperia de golpe, com extraordinária facilidade, toda casca imperialismo […] faria realidade de modo seguro a vitória do socialismo mundial, sem dificuldades ou com dificuldades insignificantes, se se toma, naturalmente, a escala do ‘difícil’ desde o ponto de vista histórico universal e não desde o ponto de vista pequeno burguês e de círculo”.

Só se pode concluir que a estratégia dos bolcheviques nunca foi a construção do socialismo na Rússia, para eles a chave do desenvolvimento da Revolução Russa estava no desenvolvimento da revolução mundial e na ruptura do elo alemão da cadeia imperialista, pois aí se concentravam as condições materiais para que a humanidade pudesse saltar do reino das necessidades básicas.

Os revolucionários foram vencidos na arena mundial
Em outras palavras, retirar a Rússia da Primeira Guerra Mundial, manter o poder dos sovietes, consolidar o Estado operário, por meio da ampliação da participação das massas na administração pública, fortalecer a aliança com os camponeses, enfrentar cada desafio ao seu tempo, era importante para o desenvolvimento da revolução mundial.

Mas a verdade é que nem o mais pessimista dos bolcheviques poderia imaginar que a Revolução Russa permaneceria isolada por tanto tempo e de forma tão absoluta.
Não cogitaram que os processos revolucionários que se seguiriam ao Outubro de 1917 nos vizinhos europeus seriam contidos pela burguesia e pelos reformistas. Particularmente em 1923, os operários russos ansiavam pela vitória dos operários na Alemanha. Nesse caso, uma eventual república operária alemã supriria a asfixiante falta de técnicos, de recursos financeiros, de máquinas, de tecnologia e, talvez ainda mais importante do que esses meios de progresso econômico, de esperança e confiança nas forças do proletariado mundial.

Não supunham que a China viria a conhecer tão amargas derrotas como as que sofreu entre 1925 e 1927. De novo um vento gelado e paralisante varreu a Rússia.
A solidão do proletariado russo e da sua vanguarda bolchevique, sem dúvida, foi o fator decisivo da derrota da Revolução, da morte do Partido e da consolidação do poder burocrático.

Houve lutas incríveis da classe operária mesmo no período imediatamente posterior à Revolução Russa, na década de 1920. Todavia, elas não culminaram na tomada do poder pelo proletariado.

Depois veio um período de contra-revolução na Europa. Triunfaram Mussolini na Itália, Hitler na Alemanha e Franco na Espanha. A classe operária, embora não deixasse de lutar, em seguida mergulhou no inferno da Segunda Guerra Mundial.

O Socialismo num só País
Mas as derrotas das revoluções, o isolamento do Estado operário e o imenso cansaço do proletariado russo produziram uma mudança na política e na direção do Partido. O internacionalismo proletário, que caracterizou o Partido Bolchevique (o Partido Comunista da União Soviética), é completamente abandonado e substituído por um nacionalismo repugnante. Stalin é o dirigente que encabeça esse movimento reacionário no interior do Partido. Em setembro de 1924 Stalin expõe a sua “Teoria do Socialismo num só país”. Não se trata realmente de uma teoria. É mais uma justificativa da política de Stalin e do papel que ele entendia caber aos demais partidos comunistas. Segundo escreveu, apenas a Rússia teria atingido a maturidade para o socialismo e o construiria no limite das suas fronteiras. A mera competição econômica entre a União Soviética e os Estados Unidos da América provaria a superioridade do socialismo, sendo vencido para sempre o imperialismo. Doravante a revolução no mundo e em cada país particularmente considerado será vista e tratada apenas como um aspecto da defesa da União Soviética, mais precisamente, da sustentação da sua burocracia dirigente. O novo postulado stalinista, que adquire ares de doutrina oficial da III Internacional, é imposto aos partidos comunistas no mundo. Vê-se o total rompimento com a concepção internacionalista, sustentada pelos marxistas até então, que pregava exatamente o contrário.

A partir daí as políticas vindas de Moscou apresentar-se-ão cada vez mais destrutivas. Em 1929 a Internacional impõe a concepção do “social-fascismo”. Divide os operários comunistas e socialistas e pavimenta o caminho de Hitler até o poder.

Em 1936 a Europa parece decidida a pegar em armas de novo. Explode a Revolução Espanhola. Stalin, pretendendo atrair o apoio dos ingleses e franceses contra as pretensões da Alemanha, inimiga na Primeira Guerra Mundial, age conscientemente para derrotar a esquerda na Revolução Espanhola. É uma demonstração de que os imperialistas mais a Oeste poderiam confiar nele, já que ele os poupara de ter de lidar com uma nova e impetuosa república socialista na Península Ibérica.

Depois de sangrar quase até a exaustão no início da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética se recompôs e empurrou as tropas de Hitler de Stalingrado até Berlim sem descanso. A atividade política das massas no Leste Europeu foi incrível no final da Guerra. Verdadeiras revoluções operárias eclodiram nas regiões em que se situavam a Iugoslávia e a Tchecoslováquia, hoje divididas em diversas nações. O poder político estava ao alcance das mãos dos operários e dos PCs na Itália, na França e na Grécia, libertadas do nazismo. Stalin fez de tudo para entregar o poder político a coligações dos comunistas com os burgueses – as “repúblicas democráticas” – no Leste. Sancionou um governo de frente popular na Itália, patrocinando a volta da burguesia italiana, sob as bênçãos do Papa, onde o PC italiano tinha assento. Na França, calou os operários e a resistência armada à ocupação alemã e permitiu que De Gaulle voltasse da Inglaterra e instituísse a 5ª República burguesa. Abandonou a guerrilha antinazista grega nas mãos dos verdugos britânicos.

A extrema debilidade da burguesia no Leste da Europa levou Stalin a mudar os seus planos mais conservadores para a região e a expropriar os burgueses. Entretanto, Stalin e os PCs não relutaram e trataram de construir estados operários já completamente burocratizados.

Os soviéticos não titubearam e usaram fartamente a sua força militar para massacrar os levantes dos que enfrentaram a política stalinista.

A burocratização do Estado operário e do Partido Comunista
O peso insuportável das derrotas sofridas pelo proletariado em todo o mundo nas décadas de 1920 e 1930 e o conseqüente esgotamento da vanguarda da Revolução Russa provocaram uma reviravolta interna no Estado. Os elementos mais conservadores e inclinados a encontrar saídas meramente individuais formaram, em torno de Stalin, uma casta privilegiada que dominou o Estado soviético e, em seguida, o Partido e a Internacional.

Os marxistas revolucionários opositores a Stalin foram perseguidos e punidos inflexivelmente, pagando com a própria vida pela divergência que ousaram expressar. Entre eles estava quase toda a geração que dirigiu o Partido e o Estado antes de Stálin assumir.

A partir de 1924, o Estado soviético e a III Internacional agiram para deter e derrotar a revolução mundial em nome das vantagens da burocracia e impedir que o proletariado formasse outra direção política revolucionária.

O internacionalismo e o programa revolucionário
Dificilmente se poderia deixar de concordar que essa foi uma das causas da derrota da Revolução Russa. É verdade… a luta de classes é internacional. Os espetaculares fatos políticos do século passado confirmam essa lição. Com efeito, a organização revolucionária que restrinja sua atuação à esfera nacional deve reconhecer em si própria as marcas da inconseqüência ou, quem sabe, do cinismo.

Post author José Augusto Alvarenga, de Santa Catarina
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