50 anos da rebelde Mafalda


Foi no dia 29 de setembro de 1964 na Argentina. A garotinha ousada de seis anos apareceu para questionar o mundo. Era Mafalda, a que ama os Beatles, a paz, os direitos das crianças e das mulheres. Mas odeia injustiça, sopa e James Bond.

Vivia com os pais e, três anos depois, ganhou um irmão, Guille. Ao longo dos anos, foi fazendo amigos. Felipe foi o primeiro. O menino de sete anos não gostava de estudar e, por isso, tinha frequentes crises de consciência.

Depois, vieram Manolito e Susanita. O primeiro, filho de comerciante, desde cedo aprendeu a gostar de lucrar. Aos seis anos, ajuda a tomar conta da mercearia do pai. Inteligência não é seu forte. Seu conservadorismo irrita frequentemente Mafalda.

Susanita é o retrato da criação de uma menina na sociedade da época – infelizmente, ainda hoje. Inspirada nas telenovelas, seu sonho é casar e ter filhos. A feminista Mafalda não a compreende, já que considera a própria mãe um exemplo do que não deve se tornar uma mulher.

Miguelito é o caçula da turma. Amante de jazz, passa o tempo a passar o tempo. Vive a filosofar sobre coisas vagas e, muitas vezes, inúteis. Libertad foi a última a chegar. Aprendeu francês com sua mãe, que era tradutora de obras como as de Sartre. Com seu pai, descobriu que haveria uma revolução. Libertad aparece quando menos se espera e não precisa de convite.

Cada uma destas personagens é um símbolo dos anos 1960. Na Europa, aconteciam grandes mobilizações embaladas pelo Maio Francês. Na América Latina, começavam as ditaduras, e as injustiças sociais aumentavam. Os estados ditos comunistas já começavam a dar passos em direção à restauração do capitalismo.

Como Mafalda nasceu?
Joaquín Salvador Lavado Tejón, o Quino, criou Mafalda em 1962 para ilustrar uma peça publicitária. Com o contrato rompido, a garotinha de cabelos negros ficou guardada por dois anos. Até que o editor do semanário Primera Plana proporcionou sua primeira aparição oficial.

Do Primera Plana, Quino passou a publicar no jornal El Mundo. Com produção diária, Mafalda podia expressar suas opiniões contundentes e sua indignação sobre os temas daquela atualidade. Esta seria a ponte para a garotinha cruzar o oceano e ganhar o mundo.

As tirinhas de Quino viraram livro. Ganharam a América e, rapidamente, a Europa. O primeiro livro foi editado na Itália em 1969. A menina ficou conhecida como Mafalda la contestataria (Mafalda, a rebelde), título do livro que mereceu a apresentação do grande escritor Umberto Eco.

Em 1973, Quino decidiu interromper a produção das tiras. Ao contrário de outros cartunistas, ele não quis deixar os desenhos nas mãos de equipes que podiam continuar a obra. Em seu contexto, Quino percebeu que Mafalda havia cumprido seu papel.

Certa vez, ele disse que Mafalda continuava atual porque a própria sociedade não mudou. O capitalismo nos coloca hoje diante dos mesmos problemas que Mafalda tanto questionava. Quino sempre repete que Mafalda é apenas mais um de seus trabalhos, apenas mais um desenho. No entanto, o público se recusa a aceitar a opinião do criador e a mantém bem viva.