40 anos de stonewall: uma lição a ser retomada

transformadas em negócios, a maioria das paradas GLBT já não conseguem lutar contra a homofobia e reagir à violência. Por isso, é preciso resgatar o espírito combativo de Stonewall

No dia 28 de junho de 1969, os homossexuais que frequentavam um bar chamado Stonewall Inn, em Nova Iorque, cansados da repressão que sofriam nas constantes batidas policiais, partiram para o confronto com a polícia e tomaram as ruas por quatro dias, armando barricadas e resistindo à violência do Estado. Um ano depois, mais de 10 mil homossexuais marcharam pela cidade comemorando o primeiro aniversário da rebelião de Stonewall e reafirmando sua capacidade de organização para lutar por seus direitos.

A partir de então, o dia 28 de junho passou a ser o dia do Orgulho Gay e o exemplo foi seguido em diversos países. Nesse dia, os homossexuais afirmam sua história de resistência e combate à homofobia. Com isso, surgiram as famosas paradas e o movimento homossexual atual, que impôs transformações à sociedade, derrubou leis anti-homossexuais e conquistou alguns direitos em diversos países.

Infelizmente, as paradas vêm sendo transformadas em um carnaval fora de época, com patrocinadores e governos, os mesmos que promovem a homofobia pelos 364 dias restantes no ano. Desta forma, o processo de institucionalização e mercantilização vem apagando o caráter combativo de Stonewall.

Em São Paulo, esse processo é muito avançado. A maior parada do mundo foi praticamente privatizada pela Associação da Parada, uma ONG que se apropriou da manifestação pública e atua como uma promotora de eventos. No ano passado, traindo a origem do movimento, essa entidade se utilizou da violência policial para impedir que um carro de ativistas participasse da parada, com desculpas burocráticas esfarrapadas e injustificadas. Alguns foram presos e vários se machucaram. Isso deixou claro que a parada não cumpre mais o papel de organizar os homossexuais e fortalecer sua luta. O sentido do evento estava claramente subvertido pela sua direção que, ao promover a intolerância, mostrou que não serve para combatê-la.

Ataques e respostas
Neste ano, a parada de São Paulo foi acompanhada por um triste episódio de homofobia. A explosão de uma bomba feriu pelo menos 30 pessoas ao final do evento, num local tradicionalmente frequentado por homossexuais. Na mesma região ocorreu o espancamento de Marcelo Campos, um homossexual que acabou falecendo no hospital dias depois. Grupos de espancadores também agiram durante a própria parada, conforme pode ser conferido a partir de vídeos divulgados na internet.

É muito difícil imaginar que num ato com milhões de pessoas dispostas a protestar contra a homofobia, atitudes tão bizarras pudessem encontrar espaço para ocorrer ou permanecer sem resposta.
Em Curitiba (PR), a violência promovida por um grupelho neofascista em março deste ano teve a devida resposta. Os GLBTs se organizaram, realizaram atos públicos, debates, criaram um coletivo e seguem combatendo a homofobia. Em Porto Alegre (RS), a polícia promoveu, em junho, uma batida num local frequentado por homossexuais, dispersando as pessoas, agredindo e humilhando. Uma “miniparada” organizada por Conlutas, Desobedeça, PSTU e PSOL, apesar da humildade do nome, reuniu milhares de pessoas e mostrou que é possível tomar as ruas pelos nossos direitos, independente de governos e patrões.

Infelizmente, temos muito mais a conquistar do que a comemorar. A ofensiva fascista aponta a necessidade imediata de uma luta ampla que responda aos recentes atentados homofóbicos ocorridos em São Paulo, Porto Alegre, Curitiba e em muitos outros lugares.

Após os atentados em São Paulo, a Associação da Parada realizou um ato com outras organizações que reuniu cerca de 300 pessoas e cuja estrutura era mínima – um microfone e um alto-falante -, enquanto o “evento-parada” conta com trios elétricos e milhões de pessoas. O PSTU e a Conlutas estiveram presentes nesse protesto. Nós do PSTU nos recusamos a encerrar esse assunto oferecendo bombas de chocolate (literalmente) aos agressores, como fizeram o Fórum Paulista LGBT e a Associação da Parada. Estamos dispostos a superar nossas diferenças e somar esforços com aqueles que são contra a homofobia, exigindo a identificação e punição dos agressores, o combate aos grupos neofascistas, e a responsabilização do Estado que, além de não assegurar a segurança da população, ainda promove a homofobia.

Para além do urgente combate à violência fascista, queremos nossa liberdade e igualdade. Queremos o fim do assédio sexual e moral, igualdade de direitos, respeito e uma educação e saúde que garantam o livre e seguro exercício da sexualidade.
Por isso, queremos retomar a lição de 40 anos atrás, avançando em nossa organização e na aliança com os oprimidos e explorados, das universidades, das fábricas, das periferias, dos movimentos populares e sociais numa mobilização homossexual alternativa, classista, independente das empresas e dos governos. Resgatar a nossa história é parte da construção dessa alternativa.

Post author Babi Borges e Elder Sano, “Folha”, da Secretaria Nacional GLBT do PSTU
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