35 anos das prisões da Convergência Socialista

    Há 35 anos, o regime militar prendia em São Paulo 27 militantes, a maioria da jovem direção da organização Convergência Socialista. Estas prisões foram parte da “Operação Lótus”, montada pela repressão para exterminar as organizações de esquerda

    Em meados da década de 1970 a situação política no Brasil começava a se alterar e o povo a se mobilizar contra a ditadura militar. Nas eleições de novembro de 1974, o voto na oposição evidenciava o grau de repúdio da população. O ditador Geisel reage com o “Pacote de Abril” visando manter o controle do poder em suas mãos. Mas vieram a crise do petróleo e a subida dos juros internacionais da dívida externa, desdobrando-se em aumento da inflação e da dívida interna. Era o fim do “milagre econômico”,  baseado na superexploração dos trabalhadores e no endividamento externo. Com a crise econômica veio a crise política. Surgiram as grandes mobilizações de maio de 1977. A classe trabalhadora foi à luta golpeou o regime militar, obrigando a acelerar a abertura. A nova situação política leva a queda da ditadura, em 1984.
    Em meio a esse processo, a Liga Operária foi organizada no Brasil por quatro companheiros que voltavam do exílio no Chile. Eles saíram do Chile após o golpe de Pinochet, em 1973, seguindo para a Argentina onde encontraram militantes da Fração Bolchevique/Liga Internacional dos Trabalhadores, dirigida por Nahuel Moreno.
    De volta ao Brasil, percebem que, diante da nova situação política, o regime militar seria obrigado a acelerar a política de “abertura” o que abriria espaço para uma atuação semilegal e de independência de classe. Observando o fenômeno de crescimento dos partidos socialistas, particularmente, o PS português, durante a Revolução dos Cravos, resolvem lançar o Movimento de Convergência Socialista visando fundar um Partido Socialista amplo e legal, formado por trabalhadores e independente dos patrões.
    Em janeiro de 1978, o jornal “Versus” convocou uma reunião para discutir o lançamento de um movimento pró-Partido Socialista. A reunião contou com cerca de 300 pessoas e aprovou a proposta de dar ao movimento o nome de Convergência Socialista.  Em março, a Convergência Socialista (CS) ganhou notícias na “Folha de S. Paulo”, no “Estado de S. Paulo” e no “Jornal do Brasil” por realizar a primeira reunião pública de socialistas, em plena ditadura, no Colégio Equipe de São Paulo. Compareceram cerca de 800 pessoas. Essa reunião foi seguida por outras no Rio de Janeiro, Campinas e no ABC. Sendo também fundado o movimento em Pernambuco e no Rio Grande do Sul. O “Versus”, passa a ser vendido por todos os militantes, além da sua tiragem habitual em bancas. O jornal chegou a distribuir 30 mil exemplares.
     
    CLASSE OPERÁRIA VOLTA A CENA POLÍTICA
    Um mês e meio depois, a classe operária deu uma demonstração de força. Pela primeira vez, desde 1968, o 1° de maio foi comemorado com atos independentes em Osasco (SP) e Santo André (SP). Alguns dias depois, a Scania de São Bernardo do Campo (SP) entra em greve. Na sequência, dezenas de fábricas metalúrgicas da região do ABC paulista pararam, numa onda que se estenderia para São Paulo nos meses de junho e julho. Abria-se a mais importante onda de greves da história do país.
    A Convergência, que já vinha intervindo no ABC, e particularmente em Santo André, através dos metalúrgicos resolveu publicar seu primeiro jornal legal em apoio aos grevistas. Um número especial do jornal “Versus” teve como título “A palavra da Convergência Socialista” e tiragem de 10 mil exemplares.
    Ao mesmo tempo, começou a organizar sua participação nas eleições para governadores, deputados e senadores de 1978. A política era apoiar candidatos operários e socialistas, que só poderiam concorrer pelo MDB, único partido de oposição que podia existir legalmente na ditadura. Para apoiar esses candidatos, a CS exigia que concordassem com um programa e que defendessem publicamente a proposta de construir um partido socialista.
    Dando sequencia a esta política, a CS convocou uma Convenção Nacional do movimento (para 20 de agosto de 1978) com o objetivo de discutir um programa e votar a proposta de lançar um Partido Socialista legal. A convenção foi realizada em um colégio na cidade de São Paulo, com a presença de 1.200 pessoas.
    No entanto, em junho os órgãos de repressão prenderam militantes da CS em Brasília, prenunciando a repressão que viria. Mas isso não foi identificada pela direção da organização. Consequentemente, dois dias depois da convenção o regime militar resolveu dar um basta e impedir a legalização do PS, prendendo e processando a direção.
    Foram presos 25 militantes, a maioria do Comitê Executivo do clandestino PST/LO.  Entre eles estava Nahuel Moreno. Sua prisão significava uma ameaça direta à sua vida, já que Moreno, naquela época exilado na Colômbia, podia ser deportado para a Argentina, o que significaria a morte nas garras da ditadura genocida que massacrou mais de 40 mil pessoas. Para salvá-lo os presos realizaram uma greve de fome que durou 14 dias. Também foi realizada uma enorme campanha nacional e internacional por sua libertação. A campanha surtiu efeito e Moreno  é expulso para a Colômbia.
    Mas dez dirigentes da CS permanecem presos até dezembro e foram indiciados na Lei de Segurança Nacional e depois, anistiados.
     
    PROPOSTA DO PARTIDO DOS TRABALHADORES 
    A proposta do PS tinha sido uma hipótese de trabalho. O fundamental era a estratégia de construir um partido operário com independência de classe. Era necessário elaborar um novo projeto de independência de classe. Nahuel Moreno, observando o surgimento da corrente sindicalista no processo de greves, propõs que a CS lancesse a ideia de formar um Partido dos Trabalhadores. 
    Em janeiro de 1979, a CS lança a proposta de construir um PT. Ela foi transformada numa moção e levada ao congresso do Sindicato de Metalúrgicos de Santo André por José Maria de Alemeida onde foi aprovada. Em seguida, ela é apresentada pelo próprio Zé Maria, delegado do sindicato de Santo André, ao congresso dos metalúrgicos do estado de São Paulo, realizado em Lins. O congresso aprovou em a proposta.
    Em março, o governo de João Batista Figueiredo assumiu sob o signo de novas e mais fortes greves dos metalúrgicos do ABC e do interior paulista. A CS interveio ativamente e desempenhou um papel de destaque em Santo André, São Caetano, Jundiaí e São José dos Campos. Os órgãos de repressão assinalam que a CS era a organização mais ativa a intervir nas greves, e ela foi atacada diretamente pelo ministro do Trabalho, Murilo Macedo.
    A ousadia sempre foi a principal marca da Convergência Socialista na luta contra a ditadura. Apesar dos golpes da repressão, a ditadura não conseguiu nem  destruir nem desestruturar a organização.
     

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