2005: o ano de Florestan

Lula a Florestan, quando da fundação do PT: “Afinal, você é nosso aliado ou inimigo?”. Florestan a Lula, em resposta: “Isso não pega comigo, porque tenho origem social inferior à sua… Eu não sou ‘obreirista´ e não me ajoelho diante do ‘deus-operário´. PNo que se refere à memória da vida e da obra do intelectual revolucionário Florestan Fernandes (1920-1995), pode-se dizer que o ano de 2005 encerra, em si, algumas peculiaridades dignas de nota e consideração. Em 2005 – ano decisivo para a história social e política do país, que já se vê perto do ocaso iminente – comemorou-se Florestan, por ocasião de seu décimo aniversário de falecimento. Uma de suas principais obras político-teóricas – “A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica”, Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1975 – completou, por sua vez, três décadas desde o lançamento de sua primeira edição no país. A Biblioteca Comunitária responsável pelo Acervo de Florestan Fernandes – sediado, este, na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); composto por sua biblioteca particular, seu arquivo e seu memorial – cumpre igualmente um decênio de vida. A efeméride principal – em sentido amplo, “para saudar um grande homem” (Candido, 1995/2001) – inspirou diferentes eixos e formas de homenagem e rememoração por parte de diferentes círculos acadêmicos e socialistas no Brasil. O Centro Acadêmico Florestan Fernandes (CAFF), da UNESP de Araraquara (SP) – entre tantas outras agremiações estudantis –, a Escola de Sociologia e Política (SP), uma avenida em Niterói (RJ); um conjunto habitacional em Campo Grande (MS); o Instituto de Políticas Públicas em São Paulo (SP); a cátedra permanente do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO, Argentina), escolas públicas, bibliotecas, teatros, Câmara e Senado federal etc. etc. etc. Os exemplos abundam. Todos levam – de uma ou outra forma – o seu nome.

A memória, tal qual a reivindica Walter Benjamin – enquanto memória ativa, coletiva e histórica – ao largo de sua obra, possibilitaria às novas gerações estabelecer um corte no continuum histórico, enquanto nexo dialético e revolucionário entre as condições legadas pelo passado e as possibilidades abertas, no presente, de construção da “nova sociedade, da nova civilização, do novo ser humano”, como dizia Florestan. “Lembrar é resistir”, já sugeriram alguns e, como certa feita bem se postulou, “nada de novo pode surgir da falta de memória”.

Neste sentido, uma série de acontecimentos tomou lugar no ano que ora se acaba. A Semana Florestan Fernandes – realizada em novembro, no teatro que também leva seu nome, na UFSCar – dedicou-se à discussão da presença de Florestan no cenário intelectual recente, resultando em produção teórica sobre suas respectivas obras e trajetória, em perspectiva histórica. No início deste mês, por outro lado, a publicação do livro “Florestan, a Inteligência Militante” – como parte da Série Perfis, Coleção Paulicéia, Ed. Boitempo – de autoria do jornalista Haroldo Cereza, registrou importante biografia do intelectual que se entrelaça, fio-a-fio, com a trama da gênese histórica da Universidade de São Paulo (USP) e da própria ambiência ideológica na capital paulista, a partir da década de 1940. O volume – coordenado por Vladimir Sacchetta, em coleção supervisionada por Emir Sader – traz em sua proposta editorial um interessante caderno de imagens e fac-símiles de documentos (alguns inéditos) de Florestan. Não obstante, é no início do ano que se encontra o evento, paradigmático, que nos serve de ponto de partida para uma reflexão crítica em torno à tradição político-intelectual – inscrita nos marcos de longa e multideterminada caminhada em direção ao marxismo – trilhada por Florestan.

Em janeiro deste ano, por ocasião da inauguração da Escola Nacional Florestan Fernandes em Guararema (SP) – sob direção da Secretaria de Educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) – Heloísa Fernandes, professora aposentada da USP e filha de Florestan, proferiu discurso defendendo a legitimidade histórica do que se configuraria como uma tríplice associação do nome do pai às ca(u)sas: (i) do saber, (ii) do socialismo e (iii) dos camponeses; haja vista suas biografias profissional, política e pessoal. O texto do discurso de Heloísa circulara, em boletins e informativos, a ponto de chegar à alçada de outro professor da USP – José de Souza Martins –, renomado sociólogo e ex-colega de Florestan. Em artigo intitulado “Uma escola com o nome de Florestan” (O Estado de S. Paulo, 6/fev./2005), Martins questiona o que seria uma proposta político-pedagógica de “ideologização do conhecimento” – atribuída por este ao MST – e, simultaneamente, a apresentação de Florestan como um cânone da “sociologia militante”. Desta forma estabelece uma rígida oposição entre o Florestan “cientista social” – suposto defensor do que se conhece como “neutralidade axiológica” (ou da “ciência social livre de juízos de valor”) e afluente do funcional-positivismo francês de Émile Durkheim – e o Florestan “consciencioso cidadão”, articulista de jornal e autor de livros de militância político-ideológica de esquerda e marxista. A acesa polêmica, que seguiu ano adentro no interior das páginas da revista Caros Amigos, comportou retumbantes réplicas e tréplicas (Caros Amigos, Nos 96-97, mar.-abr./2005), de parte a parte. Embora muitas vezes tenha descarrilado para o plano personalista e ainda que – ainda mais depois da ascensão do governo Lula-Alencar ao poder – seja cada vez mais difícil reconhecer qualquer veleidade socialista e/ou revolucionária entre os membros da direção nacional do MST, a polêmica tangenciou, de forma molecular, uma problemática central. Qual Florestan?

“Encontrei um equilíbrio entre as duas partes do meu ser e uma resposta aos meus anseios revolucionários? Poderei servir ao proletariado e aos humildes como servi à universidade?” (Florestan, 1995).

Lembrar, portanto, não é o bastante. Quando se completam quase duas décadas ininterruptas de “democracia brasileira” (“autocracia burguesa”, segundo Florestan), vinte anos após a “redemocratização” (transição – ou “transação”, ironizava o mesmo – político-conservadora) após o término do “regime autocrático-burocrático” (“contra-revolução permanente” ou ditadura militar-civil; também na pena do autor), faz-se cada vez mais evidente – desde as inúmeras interpretações e representações veiculadas por diferentes setores e segmentos da sociedade brasileira, a partir dos diferentes meios de comunicação de massas interpostos – que o significado histórico e social do percurso florestaniano precisa ser demarcado, mais além da natureza teórica, epistêmica e historiográfica do debate – e de seus respectivos equivalentes léxico-semânticos –, como terreno de disputa político-ideológica constitutiva, enfim, da luta de classes no país. A luta de idéias – o combate ideológico, na melhor tradição crítico-revolucionária de Marx, Engels, Lenin e Trotsky – constitui-se como momento privilegiado do embate hegemônico por projetos históricos que se remetem, em última instância, ao lócus da dilaceração social da sociedade de classes. Florestan esperava ver-se livre dos proselitistas da ordem, ao menos após sua morte. Não foi assim. O avanço da reação não poupa sequer os mortos, e a revisão de sua memória, como afirmava insistentemente o mesmo Benjamin.

O ensaio inédito que publicamos a seguir – “Florestan Fernandes: a academia, o marxismo e a revolução”, apresentado em sua versão preliminar – eleva-se da diatribe circunstancial à luta orgânica, do aparente ao essencial e, enfim, do conjuntural ao histórico. Trata-se de uma reflexão crítica para além do que compreende em termos imediatos, fenomênicos e acessórios (“fur ewig”); de uma trajetória teórica e política que (quase) sempre buscou, no interior de seus liames e apesar de suas vivas contradições, uma unidade dialética entre teoria social e práxis revolucionária. A contraditoriedade aparente assentava-se no próprio real contraditório: Florestan era a um só tempo o mais alto expoente da modernidade capitalista na ciência burguesa (ainda que tenha origem social subalterna) e sua mais conseqüente negação histórico-prática, marxista-revolucionária, no cenário intelectual da formação social brasileira. O ano de 2005 demonstrou-se – a partir do critério insofismável da prática – como o sepultamento póstumo de todo um ciclo temporal da história do movimento operário brasileiro, demarcado pela fundação do PT e da CUT na década de 1980, enquanto entidades de combate classista. O balanço histórico e as conclusões políticas ensejadas pelo recesso laboral, entre o fim de 2005 e o início de 2006 – da necessidade de construir novos organismos proletários e autônomos – não poderia sugerir melhor inspiração para os ativistas, militantes e teóricos da (futura) revolução socialista brasileira: Florestan, o atualíssimo.

Referências
CANDIDO, Antonio. Para saudar um grande homem. Revista Adusp, São Paulo, Nº 4, 1995. [discurso proferido no Centro Cultural Maria Antonia em 23/jun./1994, republicado in: CANDIDO, Antonio. Um Grande Homem, in: Florestan Fernandes, São Paulo: Ed. Fund. Perseu Abramo, 2001.]
FERNANDES, Florestan. Em busca do socialismo: últimos escritos & outros textos (org. Osvaldo Coggiola). São Paulo: Xamã, 1995.