11 de setembro, cinco anos depois

Na tarde de 11 de setembro de 2001, não houve quem não ficasse grudado na TV, assistindo ao que parecia ser um dos maiores filmes-catástrofe de todos os tempos: as torres gêmeas de Nova York explodindo diante de nossos olhos.
As imagens dessa tragédia vão ficar na nossa memória para sempre. Hoje podemos olhar para trás e ter uma visão mais precisa das conseqüências desse fato que mudou a face do mundo.

A primeira reação da Casa Branca foi ameaçar incendiar o planeta com uma seqüência de invasões contra o chamado “eixo do mal”, que atingiriam primeiro o Afeganistão, depois o Iraque, o Irã, a Síria e assim por diante, até dizimar todos os terroristas da face da Terra.

Hoje, cinco anos depois, vemos o imperialismo afundando num pântano sem saída no Iraque, a política de pressão contra o Irã virando letra morta, Israel sendo derrotado no Líbano, George Bush despencando nas pesquisas de opinião, o ministro da Defesa Donald Rumsfeld com a corda no pescoço e grande parte dos americanos começando a acreditar seriamente que os atentados de 11 de setembro tiveram, de fato, a cumplicidade da Casa Branca, como poucos disseram à época, mas muitos se recusaram a admitir.

As pesquisas indicam que hoje mais de um terço dos americanos acha que o governo Bush teve muita ou alguma participação nos atentados, ou pelo menos que deixou acontecer para beneficiar-se do medo provocado entre a população. Em matéria publicada na Folha de S. Paulo (5/9/06), o jornalista Sérgio Dávila comenta a pesquisa, reafirmando que “36% dos adultos acham que é ‘muito provável’ ou ‘algo provável’ que o governo tenha permitido que o 11 de Setembro acontecesse ou mesmo que tenha sido o autor do atentado”.

Visões diferentes sobre o mesmo fato
Por tudo isso, o 11 de Setembro ainda está para ser estudado em toda a sua significação. Pela primeira vez o território americano foi atingido diretamente, expondo a vulnerabilidade da maior potência do mundo e fazendo com que num primeiro momento a opinião pública americana, mesmo os setores mais ligados ao Partido Democrata, apoiasse o governo republicano de Bush. O fortalecimento do seu governo foi evidente, porque conseguiu unir a população do país em torno a sua política e, superando a síndrome do Vietnã, obteve respaldo para invadir outros países e desatar a guerra contra o “eixo do mal”.

Em outubro de 2001, logo depois dos atentados, os EUA invadiram o Afeganistão, sob pretexto de acabar com o governo do Talibã e o grupo de Bin Laden, acusado de ter sido o responsável pelas explosões. Daí surgiu uma série de visões diferentes sobre a política do imperialismo. Entre elas, a de que os atentados provocaram a guerra contra o Afeganistão e de que ali ocorria uma luta entre o imperialismo de um lado e o governo direitista do Talibã e os “terroristas da Al Qaeda” de outro.

Cinco anos depois dos acontecimentos, é possível ver que essa análise era superficial e, portanto, equivocada. Como procuraram expressar as análises feitas pela LIT-QI em sua declaração contra a invasão do Afeganistão e em outros artigos da revista Marxismo Vivo (nº4, dez/01), era clara a intenção do imperialismo de fazer avançar sua ofensiva recolonizadora e conquistar novas colônias em uma região estratégica do planeta por suas fontes de petróleo e gás, como é o caso do Oriente Médio.

Os atentados e a guerra
Condenáveis em todos os sentidos, tanto porque atingiram trabalhadores e pessoas inocentes, quanto porque serviram para que Bush utilizasse a comoção causada para ganhar a população e unir os EUA na guerra contra o terror, os atentados terroristas, ao contrário das análises mais correntes, não foram a origem da guerra dos EUA contra o Afeganistão e de tudo o que veio depois dela, como a invasão do Iraque, as pressões contra o Irã e a política agressiva do imperialismo americano e europeu em todo o Oriente Médio. Por trás das supostas razões religiosas da chamada “guerra santa” estavam razões bem seculares, sobretudo a necessidade do imperialismo de controlar os recursos naturais e as reservas de petróleo e gás em uma das regiões mais ricas e estratégicas do mundo.

O maior significado do 11 de Setembro não reside em ter sido o estopim de uma guerra contra o terrorismo, mas sim uma demonstração de até que ponto o imperialismo pode chegar na sua ânsia de controlar partes cada vez maiores do mundo. Essa política colonizadora e recolonizadora, que já vinha sendo implementada, enfrentava resistências cada vez maiores das massas dos países oprimidos, obrigadas a viver num processo crescente de miséria e opressão, assistindo impassíveis à espoliação desenfreada de suas riquezas por parte dos grandes grupos econômicos imperialistas.

Essa resistência, que impulsionava movimentos nacionalistas e fundamentalistas de todos os tipos, entre eles o Talibã, acirrou o ódio das massas contra o imperialismo. Como afirmava a LIT, “esse enfrentamento entre as massas dos países dependentes e o imperialismo, enfrentamento do qual participam setores burgueses de diversos tipos, é o que está por trás não só dessa guerra, como também dos atentados. Isso é o que explica que importantes setores burgueses financiem várias organizações guerrilheiras islâmicas, da mesma forma que explica que estas apelem para as massas (falando da guerra santa ou da defesa do povo palestino) para enfrentar o imperialismo americano”. (Marxismo Vivo, n.4, p.9)

Hoje, o pântano para o imperialismo
O pântano em que o imperialismo está metido hoje é uma demonstração do acerto dessa análise. No Afeganistão há uma imensa crise militar e social. No Iraque, a resistência das massas levou a política imperialista a um beco sem saída. A recente derrota de Israel no Líbano vem somar-se a essa crise. E Washington está cada vez mais preocupado com a erosão do apoio público à liderança global dos EUA. Até mesmo nos países tradicionalmente aliados dos EUA, como o Reino Unido, esse apoio vem despencando a olhos vistos. As últimas pesquisas mostram que o apoio aos EUA entre os europeus caiu de 64% em 2002 para 37% em 2006.

Além disso, Bush criou mais um problema para os EUA: o que fazer com os prisioneiros suspeitos. Depois de receber duras críticas por causa das violações dos direitos humanos nas bases militares, como Abu Graib e Guantánamo, que Bush insistia em desmentir, agora já está sendo obrigado a admitir a existência dessas prisões secretas e a divulgar um manual para regulamentar o tratamento dado aos prisioneiros.

Em resumo, o que esses cinco anos mostraram foi um aprofundamento da ofensiva recolonizadora do imperialismo americano e europeu, que deixou milhares de mortos, feridos, desabrigados e famintos, sobretudo no Oriente Médio, mas que justamente por isso vem encontrando pela frente uma disposição cada vez maior de resistência por parte dos povos atingidos.
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