“Não somos animais”: A construção do cercadinho na Cracolândia, em São Paulo


Na terça-feira, dia 13, foram instaladas grades no entorno de uma praça na esquina da Alameda Cleveland com a Rua Helvetia. A ideia, segundo a prefeitura de Haddad (PT), é isolar os usuários de crack e deixar as calçadas e vias livres para o trânsito de pedestres e moradores

No começo do ano, o programa Braços Abertos parecia mostrar um pouco de bom senso da prefeitura. Mesmo com algumas falhas e bem ‘providencial’ pelo contexto de Copa do Mundo – que tenta criar uma cidade “para inglês ver”, num claro processo de higienização –  o projeto carregava um pouco de humanidade quando propôs dar um lugar pra dormir, trabalho e tratamento aos usuários. “Resgatar usuários da cracolândia de maneira humanizada e sem violência” como afirma o projeto.

Agora a realidade é totalmente oposta. As grades colocadas na praça evidenciam a mudança no trato com os usuários, tirando a liberdade deles de “ir e vir” e enjaulando-os – pois não vejo outro nome para quem é posto entre grades.

Como afirmou o defensor público Carlos Weis em entrevista à Folha de São Paulo: “[os usuários] Ficam ali como se estivessem em um grande aquário da podridão humana, do ponto de vista da degradação. Estão sendo expostos e segregados, como se fossem pessoas diferentes de nós. Para dentro, ficam os usuários. Para fora, os cidadãos “do bem”.”

Não somos animais!” se manifestou um dos usuários que estavam no local quando a prefeitura foi instalar as grades, evidenciando um sentimento comum.

A prefeitura tenta “resolver” do jeito mais fácil o problema: isolando e excluindo os usuários, como se não existissem. O direito à cidade é privado com a justificativa de liberdade aos moradores e motoristas. “Quando a situação aperta, as decisões têm ido mais para o lado opressor e higienista do que para o das políticas de redução de danos”, com afirmou o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, também em entrevista à Folha.

Dartiu ainda afirma que “o problema é a ação arbitrária, não pactuada com os usuários. Se a finalidade é favorecer a organização do local, qual o problema de eles participarem do processo de decisão? (…) Tem o lado humilhante, de ser observado de fora como se estivesse em um zoológico”.

E infelizmente essa atitude é mais uma evidência de como andam as políticas públicas. Um imediatismo toma conta e o planejamento é posto de lado. A solução “fácil” acaba ganhando e essa, geralmente (para não dizer sempre), acaba por prolongar o problema e não propõe soluções.

O que está acontecendo na Cracolândia mostra, ainda, a dura realidade dos usuários de drogas, que constantemente são tratados como traficantes e, consequentemente, criminalizados. Isso fica claro na colocação da Guarda Civil Metropolitana:  “Vamos estar presentes com o contingente que for necessário para dar o recado de que aqui é um lugar público e que não vamos deixar eles [traficantes] retomarem a região”.

Devemos entender no dependente de crack alguém que precisa de tratamento médico, que precisa de oportunidade, e não criminalizar o uso da droga. Tratar o problema das drogas como de segurança pública ao invés de saúde é um erro. É necessário repensar a política proibicionista.