‘Tropa de Elite´ é fascista sim!

Cena do filme em que o Bope tortura um
Reprodução

Filme sobre o BOPE faz apologia da nova política de repressão do governoO aguardado filme Tropa de Elite, de José Padilha, antes mesmo de chegar às telas de cinema já está envolto em diversas polêmicas. Em meados de junho, uma enxurrada de cópias piratas espalhou o filme pelos camelôs do Rio de Janeiro, transformando Tropa de Elite numa verdadeira coqueluche.

Quando Tropa de Elite abriu o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro no dia 20 de setembro, a polêmica tomou um novo contorno. Assustados com a reação de uma parte da platéia que aplaudia e gritava: “caveira, caveira!” (símbolo do Bope) nas cenas de agressões praticadas pelo personagem capitão Nascimento, uma parte dos jornalistas classificou o filme como fascista e reacionário. O diretor do filme respondeu que queria apenas provocar o debate sobre a questão da violência a partir do ponto de vista de policiais. Bem, se o objetivo era a polêmica, ele conseguiu.

Legitimação da violência policial
O filme é baseado no livro Elite da tropa de Luiz Eduardo Soares (ex-Secretário Nacional de Segurança Pública de Lula) e dois capitães do Bope. No melhor estilo hollywoodiano dos filmes de ação, aborda a violência do ponto de vista da polícia, mais precisamente do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do RJ. O Bope foi criado em 1978, sob a ditadura militar. O grito de guerra do batalhão dá a dimensão do que são as operações da tropa: “homem de preto, qual é a sua missão? É invadir favela e deixar corpo no chão”.

A primeira farsa do filme é quando mostra o seguinte cenário: existe a polícia corrupta (a PM), mas também existe a polícia “incorruptível” (o Bope). No entanto, o Bope é tão corrupto quanto a PM. No próprio livro que deu origem ao filme, se fala de um comandante do Bope que tentou ficar com parte do dinheiro recuperado do assalto a um banco.

A segunda farsa é a legitimação da violência contra as favelas. O filme incorpora o discurso desses policiais de que “não há saída, tem mesmo é que matar!”. O Capitão Nascimento, interpretado pelo ator global Wagner Moura, transforma-se no herói redentor na medida em que tortura e mata. As favelas são resumidas ao tráfico, sendo ignorada a grande maioria de homens e mulheres trabalhadoras, jovens e crianças, moradores dessas comunidades. Assim se assume o discurso da repressão violenta às comunidades pobres e negras como “a guerra” contra os traficantes.

Recentemente, moradores do Parque Guinle no Rio denunciaram que os policiais do Bope, em seus treinamentos matinais cantavam o seguinte: “o interrogatório é muito fácil de fazer/pega o favelado e dá porrada até doer/o interrogatório é muito fácil de acabar/pega o bandido e dá porrada até matar”.

A terceira farsa é a responsabilização dos consumidores de drogas pela violência, por eles “financiarem” o tráfico. No filme, os universitários de classe média consomem drogas e participam de passeatas pela paz contra a violência. Não temos nenhum acordo com as passeatas pela paz, populares na classe média, porque elas não atacam os reais motivos da violência. Mas menos ainda aceitamos responsabilizar os consumidores de drogas pela violência.

O filme silencia sobre os graves problemas sociais do capitalismo, como a fome e o desemprego, e poupa os governos e suas políticas. Além disso, não faz menção à necessidade de legalização das drogas, para acabar com os lucros do narcotráfico e as máfias que se criam a partir daí, ou seja, o filme apresenta os consumidores como responsáveis pela violência para livrar a cara do governo e da burguesia.

Não é de se estranhar que estivessem na platéia do festival para aplaudir Tropa de Elite o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, e Harvey Weinstein, criador da multinacional Miramax, co-produtor de Tropa de Elite.

Nova política de segurança
Existe uma clara coincidência entre a estréia de Tropa de Elite e o lançamento da nova política de segurança pública adotada pelos governos federal e estaduais. O PAC da Segurança é baseado no aumento da repressão policial, na criminalização da pobreza e dos movimentos sociais. Foi declarada uma verdadeira “guerra” contra as populações mais carentes.

A estréia dessa orientação foi a ocupação pela PM e pela Força Nacional de Segurança do Complexo do Alemão, ocorrida em maio no Rio. A ocupação resultou em 50 mortes e mais de 70 feridos e expôs claramente esta nova orientação a ser aplicada em outras comunidades não só no Rio, mas em todo o Brasil.

Sob o pretexto de combater os “bandidos” e os “narcotraficantes”, mortes, prisões, humilhações são uma triste rotina no cotidiano de milhões de trabalhadores e, particularmente, dos jovens e negros. A polícia usa todo tipo de equipamento militar, inclusive o “caveirão” um blindado que se tornou símbolo do Bope. Isso já existia com os governos de direita e agora vai ser agravado pelo governo do PT.

A nova política de repressão já vem sendo testada pelas Forças Armadas Brasileiras, que chefiam as tropas de ocupação no Haiti. No início do ano, fizeram um verdadeiro massacre na favela Cité Soleil, em Porto Príncipe.

Na verdade, o que se verifica com esta nova política de segurança fascista é a adoção pelo governo Lula e pelo PT da “doutrina da guerra preventiva” de Bush, que “primeiro mata e depois pergunta”.

Anistia Internacional denuncia desrespeito aos direitos humanos
A Anistia Internacional divulgou em maio o relatório intitulado Brasil – entre o ônibus em chamas e o caveirão: em busca da segurança cidadã em que faz duras críticas ao governo Lula, bem como aos governadores de São Paulo, José Serra, e do Rio, Sérgio Cabral. O relatório confirma que a ação das polícias continua “caracterizada pela invasão policial nas favelas que coloca em perigo a vida de todos”.

O relatório denuncia a crescente militarização da polícia, cuja maior expressão no Rio é o “caveirão”, e apresenta números alarmantes como a ocorrência de mais de mil mortes em 2006 em ações policiais no Rio e o controle por milícias de cerca de 92 das mais de 500 favelas do Rio.

Como vimos, se evidencia mais uma vez que a “guerra contra o crime”, ou a dita “guerra do Rio” na realidade é contra os trabalhadores e a juventude.

Um programa socialista para o combate à violência
O PSTU defende, entre outras questões, que para combater a violência, primeiramente, é necessário mudar radicalmente a atual política econômica, que privilegia o pagamento das dívidas interna e externa em detrimento dos investimentos em saúde e educação, o que empurra os jovens para a criminalidade. Assim, defendemos o não pagamento das dívidas interna e externa e a elaboração de um novo plano econômico dos trabalhadores que garanta emprego, salário, terra e moradia para todos.

Da mesma forma, é necessário fazer uma devassa nas forças policiais envoltas em corrupção e violência e, a partir da dissolução das mesmas, formar uma nova polícia desmilitarizada e controlada pelos trabalhadores, que deve ter direito de sindicalização e greve.

Porém é preciso sobretudo encarar seriamente a questão da legalização das drogas para acabar com o tráfico. Exemplos, como o da época da “Lei Seca” nos EUA, demonstram que manter a criminalização da drogas só fomenta a violência e a corrupção.

Para isso, mais que nunca, são necessárias a organização e mobilização dos trabalhadores e da juventude, tanto para auto-defesa imediata, como para garantir as verdadeiras mudanças, pois não serão esses governos e Congresso corruptos que as farão.

FICHA TÉCNICA:
Título Original: Tropa de Elite
Gênero: Ação
Ano de Lançamento: 2007 (Brasil)
Direção: José Padilha
Montagem: Daniel Rezende
Roteiro: Rodrigo Pimentel, Bráulio Mantovani e José Padilha
Produção: José Padilha e Marcos Prado
Música: Pedro Bromfman
Fotografia: Lula Carvalho
Desenho de Produção: Tulé Peak
Elenco: Wagner Moura (Capitão Nascimento), Caio Junqueira (Neto), André Ramiro (André Matias), Milhem Cortaz (Capitão Fábio), Fernanda de Freitas (Roberta), Fernanda Machado (Maria), Thelmo Fernandes (Sargento Alves), Maria Ribeiro (Rosane), Emerson Gomes (Xaveco), Fábio Lago (Baiano), Paulo Vilela (Edu), André Mauro (Rodrigues), Marcelo Valle (Capitão Oliveira)
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