Senador preso na Lava Jato é a cara do governo e dessa crise

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Fotos: Agência Brasil e Senado Federal

Antes de ser líder do governo Dilma, Delcídio do Amaral foi ministro de Itamar Franco e diretor da Petrobrás no governo FHC

Nesta quarta, 25 de novembro, mais um capítulo da Operação Lava Jato fez estremecer o Congresso Nacional. Em meio à relativa calmaria sustentada pelo acordão entre PT e PSDB para manter Eduardo Cunha (PMDB-RJ) à frente da presidência da Câmara, a prisão do senador e líder do governo Delcídio do Amaral (PT-MS) expõe uma crise que pode escapar do controle do PT e da oposição burguesa capitaneada pelos tucanos.

Foi a primeira prisão de um senador no exercício do cargo desde o fim da ditadura militar. Isso porque um congressista, que conta com o privilégio da imunidade parlamentar, só pode ter sua prisão decretada pelo Superior Tribunal Federal em duas ocasiões: se for pego em flagrante cometendo algum delito ou se tentar obstruir uma investigação. E foi justamente o que o senador petista fez ao tentar comprar o silêncio de Nestor Cerveró, o ex-executivo da Petrobrás preso pela Lava Jato.

Uma gravação realizada pelo filho de Cerveró mostra como Delcídio tentou fazer com que o ex-diretor da estatal não firmasse acordo de delação premiada com a Justiça. Em troca, o senador, o advogado de Cerveró, Edson Ribeiro, financiados pelo banqueiro dono do BTG Pactual, André Esteves, viabilizaria um mirabolante esquema de fuga de Cerveró para a Espanha, via Paraguai. A fuga ocorreria assim que saísse um habeas corpus do STF, o qual Delcídio já estaria pressionando através de alguns ministros do tribunal.

O banqueiro, além de financiar a fuga de Cerveró com R$ 4 milhões, incluindo aí os custos de um jato do Paraguai pra Europa, ainda bancaria o ex-diretor da Petrobrás com R$ 50 mil mensais.

André Esteves, que se aproximou muito do PT no último período, tem motivos de sobra para tentar impedir que Cerveró fale e exponha sua ligação no esquema investigado pela Lava Jato. Mas não é apenas com o PT que o banco é próximo. O BG Pactual, maior banco de investimento da América Latina, financiou o PT, PSDB e PMDB nas eleições. Tem como gerentes e sócios quadros de primeira linha do PSDB, como Pérsio Arida, que vai assumir agora a presidência no lugar de Esteves. Pérsio Arida, economista de longa data do PSDB, foi presidente do Banco Central no governo FHC e um dos principais idealizadores do Plano Real. Era casado com Elena Landau, que chefiou o programa de privatizações do governo Fernando Henrique. 

Além do senador petista e do banqueiro, o STF determinou a prisão do chefe de gabinete de Delcídio, Diogo Ferreria.

O homem de confiança de Dilma
Delcídio é mais um exemplo do quão fundo é o poço no qual o PT se meteu nos últimos anos. Para começar, o senador era ninguém menos que o líder do governo no Senado. Na votação em que os senadores aprovaram manter a prisão decretada pelo STF, 13 tiveram a “coragem” de se posicionarem contrários à prisão, nove deles do PT.

Mas o senador também é um exemplo vivo da proximidade do programa do PT com o PSDB, tal como o modus operandi da corrupção que agora vem à tona. Fazendo carreira nos altos postos de empresas como a Shell, Delcídio foi ministro das Minas e Energia do governo Itamar Franco, na mesma época em que presidiu o Conselho da então estatal Vale do Rio Doce. Depois, já no PSDB (foi formalmente filiado de 1998 a 2000), foi diretor da Petrobrás, onde trabalhou com Cerveró.

Pouco antes do PT assumir o governo federal, Delcídio já estava de mala e cuia no partido, onde foi recebido de braços abertos. Eleito senador pela sigla, ficou conhecido ao presidir a CPI dos Correios, que desatou no escândalo do mensalão. Construiu ali sua imagem de político ético e imparcial.

No último período, defendeu o projeto de Lei de José Serra (PSDB) que tira a participação de 30% da Petrobrás na exploração do Pré-sal, e a chamada lei antiterrorismo, editada sob medida para atacar os movimentos sociais. Apesar de criticado por alguns dentro do partido, era o mais próximo de Dilma e, não por coincidência, líder do governo no Congresso Nacional.

Resumindo: Delcídio mostra a corrupção que toma conta do PT, sempre associado às relações espúrias do partido com os grandes bancos e empreiteiras. Mostra como o PT se aproximou do PSDB, captando não só quadros do partido, mas seus próprios esquemas de corrupção. Joga suspeitas ainda sobre os ministros do STF. Delcídio negociaria um habeas corpus do STF se realmente não tivesse meios de influir nas decisões do tribunal?

É preciso lembrar ainda do apoio que o PSOL do Mato Grosso do Sul deu a Delcídio no ano passado quando o petista disputava o governo do estado contra um candidato do PSDB. Como denunciar e combater um partido e um governo estando ao seu lado?

Basta de PT, PMDB e PSDB!
A crise política se aprofunda e mostra que estão todos envolvidos. Do governo Dilma, passando pelo Senado presidido por Renan Calheiros (PMDB-AL) até chegar na Câmara do notório delinqüente Eduardo Cunha (PMDB-SP). Estão juntos na corrupção, e estão juntos na aplicação do ajuste fiscal, no desmonte da Petrobrás e nos ataques aos trabalhadores. É preciso pôr todos pra fora! Basta de PT, de PSDB e PMDB!