Ruralistas que matam indígenas pedem indiciamento dos próprios indígenas

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Foto CIMI

Num momento em que indígenas, sem-terras e quilombolas sofrem com o avanço da violência assassina do latifúndio no campo, a bancada ruralista acaba de aprovar o relatório final da CPI da Funai-Incra que pede o indiciamento de… indígenas e antropólogos! Parece piada de mau gosto, mas é a mais absurda verdade. O relatório foi aprovado na tarde desta terça, 17, e pede o indiciamento de mais de 70 pessoas ligada à causa indígena.

Entre os pedidos de indiciamento estão 30 indígenas, nove antropólogos, 14 membros da igreja, 16 procuradores, além de servidores da Funai e do Incra. Caberá agora ao Ministério Público a decisão se determina ou não a abertura de inquérito requerido pela bancada ruralista. O relator dessa CPI cujo objetivo nada disfarçado é criminalizar e perseguir os lutadores é ninguém menos que o deputado Nilson Leitão (PSDB-MT), presidente da Frente Parlamentar Agropecuária.

Para quem não se lembra, Nilson Leitão é o autor do projeto de reforma trabalhista no campo que prevê jornada de 18 dias sem folga, que podem chegar a 12 horas diárias, liberação do trabalho aos domingos e feriados, remuneração “de qualquer espécie” ao trabalhador, e descontos de até 20% do salário para moradia e de 25% para alimentação. Na prática, institucionaliza um trabalho quase escravo no campo.

Pois agora, o deputado fazendeiro que parece não conhecer limites quer perseguir os próprios indígenas que já estão sendo massacrados pelas mãos de seus próprios jagunços. O relatório final que estava sendo preparado previa até mesmo o fechamento da Funai, e a sanha ruralista foi tamanha que incluíram até mesmo um antropólogo que já morreu, Carlo Antônio Dal-Prá, entre os indiciados. Nenhum fazendeiro foi incluído entre os pedidos de investigação, claro.

Para a elaboração do relatório final da CPI, Nilson Leitão pediu o levantamento do sigilo de investigações e espionagens realizadas pela Abin, o serviço de inteligência do Governo Federal, contra indígenas e entidades ligadas à luta pela terra durante o mandato de Dilma. Leitão transcreveu os relatórios da Abin no texto final da CPI. A espionagem ocorreu no momento em que o então governo do PT enfrentava a resistência de indígenas e ribeirinhos para a construção de Belo Monte e outras grandes obras que, hoje se sabe melhor, serviram para desviar milhões às grandes empreiteiras.

Nilson Leitão, quer a volta do trabalho escravo no campo e criminalizar indígenas. Foto Agência Brasil

Enquanto massacres se multiplicam no campo, como ocorrido contra os indíos Gamela no Maranhão, a bancada ruralista tripudia sobre os corpos de indígenas, ribeirinhos e quilombolas. E contam com a proteção do Ministro da Justiça, o também ruralista Osmar Serraglio e a generosidade de Temer, que negocia o perdão de dívidas bilionárias do setor à previdência em troca de apoio às ruas reformas.

Quem deve ser investigado são os fazendeiros que invadem e ocupam territórios indígenas, e massacram índios e sem-terras país afora em nome da expansão de seus latifúndios, que servem à especulação e à grande produção para a exportação. Eles é que devem ser presos por seus crimes e ter seus latifúndios expropriados para que as terras indígenas e quilombolas possam ser finalmente demarcadas e os sem-terras possam produzir, não commodities, mas alimentos para o povo.