Márcia Friggi: a triste imagem da educação brasileira

Na semana passada viralizou nas redes sociais as fotos de uma professora com o rosto arroxeado e coberto de sangue. Márcia Friggi é professora de língua portuguesa e possui 51 anos de idade. Ela foi espancada por um aluno de 15 anos na escola em que leciona, na cidade de Indaial, Santa Catarina. A violência começou após a professora pedir ao aluno para colocar um livro em cima da mesa, o qual foi respondida por ofensas, xingamentos, e o livro em questão arremessado contra o seu rosto, além de vários socos desferidos pelo aluno.

O problema de entender o porquê desta violência nas escolas gerou um grande debate nas redes sociais, com pitacos de todos os lados. Alguns justificaram a agressão do aluno em razão das opiniões políticas da professora, vítima da agressão, expressa na timeline do seu Facebook. Algumas mensagens direcionadas à professora dizem que ela merecia ser agredida pelo aluno por “ser feminista”, “ser de esquerda”, “defender Maria do Rosário”, etc.

O deputado Eduardo Bolsonaro, por exemplo, postou um vídeo comentando o caso da professora. Nele, afirma que os professores “não podem simplesmente expor a sua opinião“; que ela possui responsabilidade pela agressão por ser contra a redução da maioridade penal e; por comemorar a ovada que seu pai, Jair Bolsonaro, levou de uma ativista recentemente. Bolsonaro (filho) se apoia na fala de outra conservadora para afirmar que o garoto de 15 anos deve “ser preso sim” e “que ela aprenda que apoiar agressão é coisa de bandido!”. Além disso, fala que o grande problema da professora agredida é que ela é seguidora de Paulo Freire que “inverte a pirâmide da autoridade da escola“. “Autoridade” é a solução apresentada pelo deputado ao problema da violência nas escolas.

Em primeiro lugar, Eduardo Bolsonaro não deve ter lido nada sobre Paulo Freire, se leu está sendo desonesto. O autor deste artigo não é adepto do “Método Paulo Freire” de ensino, contudo, não podemos deturpar os seus ensinamentos. Freire nunca defendeu a ausência de autoridade nas escolas, ele só faz uma distinção, uma diferença, entre “autoridade” e “autoritarismo”. Para Freire, a autoridade do professor está na competência de ensinar e esta é relacionada ao ato de promover e incentivar no aluno relações justas, respeitosas e de liberdade. O “autoritarismo” é o abuso da autoridade e se constitui na educação para o servilismo e a disciplina irracional (e não em uma real disciplina).

Na vasta obra de Paulo Freire, que é o terceiro pensador brasileiro mais citado em trabalhos pelo mundo, encontra-se “Pedagogia do Oprimido” (1968). Este livro é o único brasileiro na lista dos 100 livros mais pedidos pelas universidades de língua inglesa. Nele pode ser conferido sua teoria educacional. Em particular, sobre a questão da autoridade, pode ser consultado o livro “Disciplina na Escola: autoridade versus autoritarismo” (1989).

Contudo, a violência que a professora sofreu é um problema muito mais complexo que o uso de uma determinada didática ou teoria pedagógica. Segundo uma pesquisa realizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e divulgada em 2014 pelo canal BBC, o Brasil está no topo do ranking de países mais violentos do mundo quando o assunto é “escola”. Segundo a pesquisa, a cada 10 professores entrevistados, mais de um relatou já ter sofrido algum tipo de agressão dentro do espaço educativo, isto é, 12,5% dos entrevistados quando a média internacional aferida foi de 3,4%.

A violência se tornou o cotidiano das nossas escolas e não é possível acabar com ela sem ir até as suas raízes e suas raízes estão na situação de profunda desigualdade social brasileira.

A escolas públicas estão cada vez mais abandonadas pelos governos de diferentes matizes. As professoras, então, encontram-se largadas à sua própria sorte sem qualquer tipo de apoio, com salários miseráveis, uma jornada altamente estressante e, ainda por cima, são responsabilizadas pela crise da educação brasileira.

Violência nas escolas
Precisamos pensar mais sobre esse problema, que não é só dos professores, mas da sociedade, a começar pela situação concreta da escola pública: precisamos de professores com salários maiores; com valorização de sua carreira; com redução da jornada de trabalho, sem redução salarial; com aposentadoria integral e especial; de escolas com uma equipe de profissionais com psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, pedagogos e outros; precisamos de uma escola com laboratórios, bibliotecas, brinquedotecas, salas de vídeo, áreas de lazer, etc.

As crianças, do mesmo modo, precisam de condições materiais para a sua aprendizagem: precisam que a merenda escolar seja satisfatória (a ponto de não desejar mais repetir); precisam de turmas menores; de acesso a cultura e lazer em seu bairro; de professores com formação qualificada e continuada; precisam de estrutura familiar estável, o que significa um monte de coisas, a começar por pais ou responsáveis com emprego, renda adequada e satisfatória, casa própria, com saneamento e água tratada, com atendimento médico-familiar permanente e um longo etc.

Não se resolve violência com violência! Mas a violência se começa a combater com investimento público em educação, saúde, lazer, segurança, habitação, mobilidade urbana, … A violência desenfreada não é uma causa, mas uma consequência das políticas neoliberais aplicadas em décadas no país.

Contudo, a aprovação da PEC 55 (A PEC que reduz o orçamento público para investimentos sociais), a Lei da Terceirização, a reforma trabalhista e, agora, a reforma previdenciária em pauta, são as verdadeiras medidas que contribuem mais ainda para esse quadro de violência! E adivinhem como Bolsonaro votou em cada uma delas???

A triste imagem de uma professora ensanguentada em sua própria escola é o retrato da situação da escola pública brasileira. E essa imagem chocante não é responsabilidade dos professores, mas dos governos do PSDB, PMDB, PT, PP, DEM, e até da prefeitura do PSOL de Macapá.

Nas próximas eleições terão várias promessas desses partidos, mas a situação da violência nas escolas só poderá ser resolvida com a organização consciente de nossa classe, de professores a alunos, em prol de um mesmo objetivo: a construção de uma sociedade livre da violência e da exploração humana.